30 Agosto 2025
A biografia The Optimist revela como o CEO da OpenAI transformou o medo da IA em seu maior trunfo, uma ambição descomunal em uma missão sagrada e o poder em uma arte.
A reportagem é de Antonio J. Rodríguez, publicada por La Vanguardia, 18-08-2025. A tradução é do Cepat.
“Você poderia lançá-lo de paraquedas em uma ilha de canibais e, quando retornasse em cinco anos, seria o rei”. A descrição, cortesia de seu mentor Paul Graham, fundador da Y Combinator, captura a essência de Sam Altman melhor do que qualquer organograma.
Como revela a recente biografia de Keach Hagey, The Optimist, Altman não se encaixa nos arquétipos do Vale do Silício. Não é o visionário de produtos como Steve Jobs, nem o engenheiro obsessivo como Bill Gates. Ele é algo mais antigo e formidável: um mestre na arte de acumular poder. Seu verdadeiro produto não é o código, mas a influência; sua linguagem de programação não é Python, mas a própria natureza humana. A história de sua ascensão não é a de um inventor, mas a de um estrategista que entendeu antes de qualquer outra pessoa que, no século XXI, quem controla a narrativa sobre o futuro controla o presente.
“É útil se concentrar em adicionar mais um zero a qualquer métrica que você defina como sua métrica de sucesso”. Esta filosofia pessoal, repetida como um mantra, é o motor que move Altman muito além da mera riqueza. Sua ambição não é acumular, mas transformar. Não quer uma fatia do bolo, quer redesenhar a receita da civilização. Seus investimentos e obsessões paralelas a OpenAI - energia de fusão nuclear para resolver a crise climática, uma criptomoeda global para uma renda básica universal - não são projetos secundários, mas as peças de um único quebra-cabeça: a reengenharia total da sociedade.
Essa escala messiânica permite que ele enquadre a acirrada corrida comercial pela IA não como uma luta pelo domínio do mercado, mas como um passo necessário em uma cruzada em benefício da humanidade. Tal missão, é claro, justifica quase qualquer manobra tática.
“Se essa tecnologia der errado, pode dar muito errado”. Proferida com uma calma estudada perante o Congresso dos Estados Unidos, esta frase é a pedra angular de sua estratégia mais brilhante. Em vez de minimizar os medos sobre uma inteligência artificial apocalíptica, Altman os abraçou e amplificou.
Ao se posicionar como o principal profeta do risco existencial, alcança um duplo objetivo: por um lado, levanta-se como o líder visionário e responsável, o único pastor capaz de guiar o rebanho até a beira do precipício, sem cair nele. Por outro, transforma seus críticos mais ferozes em aliados involuntários. Cada advertência sobre os perigos de uma superinteligência descontrolada só reforça a ideia de que a IA deve ser desenvolvida pelos únicos que parecem levar a ameaça a sério: ele e sua equipe na OpenAI. É uma jogada de judô geopolítico: usar a força do medo contra si mesmo para consolidar seu próprio trono.
“Deveríamos tratá-lo mais como uma figura messiânica”. A observação, carregada da sutil ironia de seu outro grande mentor, Peter Thiel, ressalta a percepção quase religiosa que Altman cultivou em torno dele. No entanto, o mito do líder benevolente e onisciente se esfacelou em novembro de 2023.
A justificativa de sua fulminante demissão pelo conselho diretivo foi devastadora em sua simplicidade: Altman “não era consistentemente sincero”. O profeta, segundo seus próprios guardiões, manipulava e ocultava informações para alcançar o que queria. O episódio expôs a profunda fratura entre a imagem pública de um otimista que trabalha pela humanidade e a realidade de um operador implacável que, segundo seus detratores, antepõe sua agenda à supervisão e a transparência.
“Isso seria consistente com a missão”. Esta foi a resposta de Helen Toner, membro do conselho, quando se alertou que suas ações poderiam destruir a OpenAI. A frase revela um choque de fanatismos: o de um conselho disposto a sacrificar a empresa mais importante do mundo no altar da segurança contra o de um CEO convencido de que somente sua liderança pode pilotar o progresso.
A ressurreição de Altman dias depois, impulsionada por seus empregados e sua sócia Microsoft, não foi apenas uma vitória pessoal. Foi a resolução do paradoxo fundacional da OpenAI. O poder pragmático, a velocidade comercial e o culto ao líder triunfaram sobre a utopia da governança desinteressada. O rei dos canibais não apenas sobreviveu, mas, após devorar seus oponentes, emergiu com um poder absoluto para continuar construindo o futuro, um futuro que, como The Optimist deixa claro, assemelha-se cada vez mais a ele próprio.
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