O irmão de Roma: o Papa Francisco e o protestantismo histórico. Artigo de Mariano Schuster e Florencia Hidalgo

Foto: Tomasz Kluz/Unsplash

03 Julho 2025

O papado de Francisco se destacou por sua abordagem ecumênica e social, que gerou uma aproximação histórica com o protestantismo. Ele promoveu um “ecumenismo do caminho”, baseado em ações conjuntas mais do que em acordos doutrinários, e pediu perdão aos valdenses e pentecostais por perseguições passadas. Sua crítica ao neoliberalismo e sua defesa dos pobres ressoaram entre igrejas luteranas e metodistas, que o viram como um aliado. Embora persistam diferenças teológicas, seu pontificado fortaleceu a unidade cristã a partir da diversidade reconciliada.

O artigo é de Mariano Schuster, jornalista, e Florencia Hidalgo, mestre em Antropologia pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). O artigo é publicado por Nueva Sociedad, maio/junho de 2025.

Eis o artigo.

"Quando alguns poucos protestantes e alguns poucos católicos se olham nos olhos e dizem: "Nós fazemos assim e vocês fazem assado; nós cremos nisto e vocês naquilo; mas não somos ‘irmãos separados’", estão se reconhecendo mutuamente como unidos (...). Um bom católico e um bom protestante podem se encontrar e descobrir: temos o mesmo Senhor e a mesma fé. Isso não pode ser organizado, não se pode forçar que aconteça, mas deve acontecer (...) Esse caminho puramente humano-cristão (...) é o mais promissor rumo à Igreja ecumênica."
Karl Barth, conversa na igreja Titus de Basileia, 21/6/1966

No dia da fumaça branca, o dia em que 115 cardeais afirmaram: "É ele", o dia em que o homem levantou a voz para dizer: "Serei Francisco", o dia em que, pela primeira vez, um jesuíta e latino-americano foi eleito como sumo pontífice da Igreja Católica Romana, não foram apenas os católicos que celebraram. Certamente, a multidão reunida na Praça São Pedro, que aguardava ansiosa pelo nome após ver a fumaça subir rapidamente da chaminé, expressou sua alegria de imediato — ainda mais ao ver o novo papa ajoelhar-se para orar diante da multidão. Mas, muito além das fronteiras do Vaticano — e até mesmo além dos cânones vaticanos —, a eleição foi celebrada com sentimentos semelhantes.

Embora já tivessem recebido com agrado outras eleições em períodos anteriores, neste caso a situação era diferente: para muitas das igrejas do protestantismo histórico, não se tratava apenas de expressar respeito ao novo papa — e, portanto, ao principal interlocutor no diálogo ecumênico —, mas de celebrar a eleição daquele pontífice. Alguém com quem, por diversas razões, compartilhavam certas perspectivas teológicas, sociais e políticas.

O reverendo luterano Olav Fykse Tveit — membro da Igreja da Noruega e, à época, presidente do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) [1]— previu que o papado de Francisco marcaria "um ponto de inflexão na Igreja Católica Romana". Francisco "viveu um estilo de vida simples e reflete uma paixão pela justiça social e pela ajuda aos pobres", afirmou em sua declaração. À palavra oficial da organização que articula as mais históricas denominações cristãs não católicas, somaram-se as de diversos representantes da Federação Luterana Mundial, da Comunhão Internacional de Igrejas Reformadas e do Conselho Metodista Mundial, entre outras organizações denominacionais do campo evangélico tradicional. Não havia dúvida: para o mundo protestante, a eleição de Jorge Bergoglio como papa da Igreja Católica Romana também era uma boa notícia.

Na Argentina, terra natal de Francisco, a posição das igrejas protestantes foi semelhante. O então presidente da Igreja Evangélica Luterana Unida, o pastor Gustavo Gómez Pascua, afirmou que "um aspecto incontornável da eleição de Francisco é a alegria e a esperança que se manifesta em muitas pessoas simples e humildes, as quais as igrejas luteranas da região são chamadas a acompanhar" [2], enquanto a secretária-geral da Igreja Evangélica do Rio da Prata (IERP), Sonia Skupch, valorizou a possibilidade de que o papa pudesse trazer "um ponto de vista e um estilo diferente".

Por sua vez, Juan Gattinoni, pastor da Igreja Evangélica Metodista Argentina (IEMA), destacou a simplicidade do novo papa [3] e sua comprovada proximidade com os pobres e excluídos. As declarações das autoridades das diversas denominações do protestantismo histórico argentino foram consolidadas em um comunicado da organização que as congrega: a Federação Argentina de Igrejas Evangélicas (FAIE). Com a assinatura de seu presidente, o pastor e teólogo Néstor Míguez, os membros da FAIE destacaram a eleição de Francisco e ressaltaram seu compromisso com os mais vulneráveis [4].

As declarações do protestantismo histórico argentino não tinham apenas um efeito local, mas constituíam uma mensagem clara às organizações globais do universo protestante. Diziam-lhes, em seus próprios termos e à sua maneira, que o homem que haviam conhecido como Jorge Bergoglio não estava apenas comprometido com o diálogo ecumênico, mas também era portador de uma mensagem teológica e social que os protestantes podiam considerar próxima.

Durante anos, parte do campo do protestantismo histórico argentino — atravessado pelas teologias da libertação latino-americanas e pelas teologias neo-ortodoxas europeias — havia encontrado em Bergoglio — e na teologia do povo da qual ele bebia — [5] uma oportunidade para construir aproximações pastorais e sociais. Esses contatos, que se tornaram especialmente claros durante o período em que Bergoglio atuou como bispo de Buenos Aires, revelavam conexões mais profundas, pois expressavam uma unidade possível entre os setores do protestantismo que haviam se inspirado nas abordagens ético-sociais de Karl Barth e Dietrich Bonhoeffer — com as quais se buscava superar a antiga “teologia liberal” — e aqueles do catolicismo que desenvolveram posições libertárias ou teologias nacionais que, como a teologia do povo, se conectavam com a perspectiva de uma igreja mais pastoral e socialmente engajada. Bergoglio pertencia a este último grupo.

O que os protestantes argentinos estavam dizendo a seus colegas do resto do mundo era exatamente isso: que o homem que adotava o nome de Francisco era alguém com quem poderiam encontrar coincidências significativas. Certamente, havia entre eles a comunhão em Cristo, a pregação da importância da oração e a valorização de um cristianismo feito com simplicidade e humildade. Mas também os uniam outros pontos comuns: a crítica à “cultura do descarte” e a uma globalização de formato neoliberal que conduzia à adoração do mercado e à exclusão dos pobres; a rejeição à idolatria do dinheiro e do poder; e a condenação da destruição da Terra e dos bens comuns da criação de Deus.

Embora existissem diferenças em outros temas — pelo menos uma parte importante das igrejas protestantes históricas da Argentina tendia a ter uma posição mais liberal ou progressista em relação a questões associadas à sexualidade, aos debates de gênero e aos direitos reprodutivos [6] —, os pontos em comum eram mais do que evidentes e não demoraram a se expressar em escala global.

Pouco depois do início de seu pontificado, o mundo protestante manifestou um agrado particular pelos gestos e atitudes de Francisco. O papa que orava de joelhos diante da multidão, que visitava bairros populares e operários de Roma, que percorria Lampedusa estendendo a mão àqueles que buscavam refúgio longe de suas casas, que convocava os jovens a “fazer bagunça” e a cuidar “dos extremos do povo, que são os idosos e os jovens”, foi o mesmo que despertou uma admiração singular por parte dos representantes globais do protestantismo histórico. Aqueles que se sentiam filhos da Reforma pareciam perceber que, em Roma, encontravam um irmão — e não apenas alguém com quem podiam compartilhar causas e ideias, mas com quem poderiam avançar, talvez com mais firmeza do que com outros no passado, no tão desejado diálogo ecumênico.

A diplomacia do “eu venho” e o “ecumenismo do caminho”

O papa Francisco não poupou esforços ao promover encontros com o mundo protestante. Já em 2013, ocorreu a primeira visita de uma delegação da Federação Luterana Mundial ao Vaticano, e a agenda não apenas incluiu uma revisão dos principais marcos ecumênicos entre ambas as denominações, como também se concentrou no papel do cristianismo em questões sociais e na proteção de refugiados e migrantes. Um ano depois, o pontífice se reuniu em Roma com o presidente do CMI — no qual, como já dissemos, além de denominações protestantes estão incluídas as igrejas ortodoxas —, e a sintonia foi semelhante. À medida que o pontificado de Francisco avançava, as representações globais do protestantismo reconheciam que, com o papa vindo do Sul, o ecumenismo se fortalecia não apenas por meio de acordos e diálogos, mas também a partir de um intercâmbio baseado em leituras cristãs da realidade social.

Embora Francisco estivesse longe de rejeitar as formas clássicas de diálogo ecumênico — na verdade, essas foram aprofundadas —, seu paradigma se sustentava com mais firmeza na ideia de um “caminho” compartilhado [7]. Conforme expressou o teólogo da Universidade Gregoriana de Roma, Rodrigo Polanco, na cosmovisão do último pontífice, a unidade não era um ponto fixo a ser alcançado por meio da assinatura de acordos, mas sim um processo de comunhão que só poderia ser alcançado “caminhando juntos, rezando juntos, fazendo coisas juntos (obras de caridade, compromissos sociais) e testemunhando juntos Jesus Cristo”. A perspectiva ecumênica do pontífice, falecido em abril de 2025, visava, nesse contexto, abrir espaços de comunhão onde ainda era necessário criá-los, ao mesmo tempo em que fortalecia os que já existiam e se desenvolviam em âmbitos nacionais e locais. Ao contrário de visões puramente institucionalistas, Francisco partia da evidência — constatada por ele mesmo na Argentina — de que católicos e protestantes já se encontram, já dialogam, já articulam e já mantêm, a partir de suas próprias comunidades de fé, práticas e confluências dentro da diversidade reconciliada.

Se o “ecumenismo do caminho” [8] se constituiu como a pedra angular da pregação de Francisco junto às demais denominações cristãs, seu papel específico como pontífice da Igreja Católica Romana consistiu em implementar o que Martin Bräuer, teólogo e membro do Comitê Católico da Igreja Evangélica na Alemanha (EKD, na sigla em alemão), denominou de “diplomacia do eu venho” [9]. Essa diplomacia, encarnada na figura papal, concretizou-se em uma série de encontros, viagens e visitas a lugares onde era necessário abrir caminhos de diálogo ecumênico — e também onde era preciso aprofundá-los.

Desde o início de seu pontificado, Francisco desenvolveu práticas e atitudes ecumênicas tão inéditas quanto singulares. Em 2015, aceitou o convite da Igreja valdense para participar de um culto em Turim, tornando-se o primeiro papa da Igreja Católica a pregar em um templo daquela denominação. “Da parte da Igreja Católica, peço perdão pelas atitudes e comportamentos não cristãos, até mesmo desumanos, que tivemos contra vocês ao longo da história. Em nome do Senhor Jesus Cristo, perdoem-nos!” [10], clamou Francisco, recordando a histórica perseguição conduzida pela oficialidade católica contra os seguidores de Pedro Valdo, reformador anterior à Reforma. Eugenio Bernardini, pastor valdense e representante dessa igreja na Itália, solicitou ao papa que, por ocasião do aniversário da Reforma Protestante, a Igreja Católica revisasse a concepção das igrejas cristãs não católicas como “meias igrejas”. Finalmente, em 2016, o próprio Bernardini teve uma audiência com o papa no Vaticano, fato que marcou o início de uma nova relação.

Enquanto compartilhava espaço com os valdenses, Francisco também reforçou o diálogo com os pentecostais clássicos. Embora estes não sejam tradicionalmente considerados parte do “protestantismo histórico” — e às vezes tenham sido vistos como antiecumênicos —, diversos membros desse segmento reivindicaram e esperavam um maior diálogo com o catolicismo romano. Francisco, que conhecia bem o movimento pentecostal e carismático por sua experiência na Argentina com diversos grupos evangélicos — mas também com a chamada Renovação Carismática Católica, o grupo que dentro da Igreja romana apresenta características semelhantes —, estabeleceu vínculo com Giovanni Traettino, pastor italiano que, no final da década de 1970, fundou a Igreja Evangélica da Reconciliação. Em 2014, Francisco visitou Traettino em Caserta e fez declarações comoventes ao abordar a tradicional tentação do cristianismo de considerar os outros como parte de uma seita [11]. Além disso, Francisco pediu perdão pela participação de católicos na perseguição de pentecostais durante o regime fascista na Itália, enquanto Traettino reconheceu publicamente os erros de uma tradicional postura anticatólica presente em algumas comunidades pentecostais e convocou seus irmãos e irmãs a superarem tais perspectivas.

Em termos de fortalecimento, os encontros de Francisco com líderes metodistas, presbiterianos, anglicanos e luteranos foram crescendo progressivamente. Quando, em 2016, recebeu uma delegação metodista no Vaticano, Francisco tocou em um tema de especial relevância para essa denominação evangélica: a vocação para o cuidado dos excluídos. “Quando servimos aos necessitados, cresce a nossa comunhão”, afirmou o papa [12]. E, ao mesmo tempo, declarou: “Nenhuma diferença entre católicos e metodistas representa um obstáculo que nos impeça de amar do mesmo modo e de dar testemunho comum de Cristo ao mundo”.

Para os metodistas que visitavam o papa no contexto da abertura de um Escritório Ecumênico em Roma, a ideia de “amar do mesmo modo” não era estranha. Foi o próprio John Wesley, iniciador do movimento metodista, quem a escreveu em sua Carta a um católico romano, de 1739: “Se ainda não conseguimos pensar da mesma forma em todas as coisas, ao menos podemos amar do mesmo modo”. Assim como com os metodistas, Francisco insistiu na necessidade de promover uma “missão compartilhada de evangelização e serviço” em seu encontro com líderes da Comunhão Internacional de Igrejas Reformadas em 2016.

No que diz respeito à abertura e ao fortalecimento ecumênico, não houve gesto mais significativo do que aquele que Francisco protagonizou em 2016 ao participar, na Suécia, de uma comemoração conjunta pelo aniversário da Reforma. A cerimônia principal, organizada pela Federação Luterana Mundial e pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, ocorreu em Lund, a cidade onde, em 1947, os luteranos fundaram sua organização denominacional global. O evento evidenciou novamente a estreita relação entre ambas as confissões, outrora adversárias.

Vale lembrar que, desde o Concílio Vaticano II, luteranos e católicos não apenas encontraram notáveis convergências teológicas — algo refletido claramente na obra de protestantes como Karl Barth e Oscar Cullmann, e de católicos como Johann Baptist Metz e Karl Rahner —, como também firmaram importantes acordos no plano eclesial. A relação entre católicos e luteranos foi tão aprimorada que, em 1999, firmaram um acordo comum sobre uma antiga divergência doutrinária: a justificação. A Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação entre católicos e luteranos serviu de base para outras igrejas que atuam no campo ecumênico (o Conselho Metodista Mundial a adotou em 2006, e a Comunhão Mundial de Igrejas Reformadas, em 2017).

Contudo, as palavras de Francisco em Lund foram inéditas, considerando, sobretudo, não apenas os acordos recentes, mas as diferenças dos séculos passados.

No dia 31 de outubro de 2016, durante a comemoração conjunta da Reforma, Francisco levantou sua voz ao lado do presidente da Federação Luterana Mundial, o bispo Dr. Munib A. Younan, e do secretário-geral da mesma organização, o reverendo Dr. Martin Junge, e declarou:

Católicos e luteranos começamos a caminhar juntos pela via da reconciliação. Agora, no contexto da comemoração comum da Reforma de 1517, temos uma nova oportunidade para abraçar um caminho comum, que vem se conformando ao longo dos últimos 50 anos no diálogo ecumênico.”

E então acrescentou:

“A experiência espiritual de Martinho Lutero nos interpela e nos recorda que nada podemos fazer sem Deus. ‘Como posso ter um Deus misericordioso?’ Essa era a pergunta que constantemente perseguia Lutero. De fato, a questão da justa relação com Deus é a questão decisiva da vida. Como se sabe, Lutero encontrou esse Deus misericordioso na Boa Nova de Jesus encarnado, morto e ressuscitado. Com o conceito de ‘somente pela graça divina’, somos lembrados de que é sempre Deus quem toma a iniciativa e precede qualquer resposta humana, ao mesmo tempo que deseja suscitar essa resposta. A doutrina da justificação, portanto, expressa a essência da existência humana diante de Deus” [13].

Até então, nenhum pontífice católico havia ido tão longe ao evocar dessa maneira a figura de Lutero. Em 26 de junho de 2016, o papa havia declarado:

“Acredito que as intenções de Martinho Lutero não estavam erradas, ele foi um reformador (...) A Igreja não era exatamente um modelo a ser imitado. Havia corrupção, mundanismo, apego ao dinheiro e ao poder dentro da Igreja. E foi por isso que ele protestou. Além disso, ele era uma pessoa inteligente. Deu um passo à frente, justificando o motivo pelo qual o fazia" [14].

Apenas três meses depois, Ulf Jonsson, diretor da Signum, revista cultural dos jesuítas na Suécia, perguntou a Francisco “o que a Igreja Católica poderia aprender da tradição luterana”. E a resposta do papa foi:

“Vêm-me à mente duas palavras: Reforma e Escritura. (...) No princípio, o gesto de Lutero foi um gesto de reforma em um momento difícil para a Igreja. Lutero queria remediar uma situação complexa. Depois, esse gesto (...) acabou se convertendo em um estado de separação, e não em um processo de reforma de toda a Igreja — o que, por outro lado, é fundamental, porque a Igreja é semper reformanda (sempre reformanda). A segunda palavra é Escritura, a Palavra de Deus. Lutero deu um grande passo ao colocar a Palavra de Deus nas mãos do povo" [15].

Na mesma entrevista, publicada em La Civiltà Cattolica, Francisco recordou suas relações com luteranos e luteranas na Argentina, destacando a teóloga Mercedes García Bachmann, o professor e teólogo Anders Ruuth, e o húngaro Leskó Béla, que foi reitor da Faculdade Luterana de Teologia e, depois, o primeiro reitor do Instituto Superior Evangélico de Estudos Teológicos (ISEDET).

A recuperação integral do ecumenismo conciliar

As aproximações do papa Francisco provocaram uma reação positiva no mundo protestante, evidenciando os frutos do “ecumenismo do caminho” e da “diplomacia do eu venho”. No entanto, as simpatias protestantes pelo papa não se baseavam apenas nesses diálogos. Na realidade, essas trocas tornaram-se mais frutíferas e significativas na medida em que grande parte do universo protestante passou a enxergar em Francisco um homem com uma discursividade pastoral e social que já compartilhavam anteriormente. O Francisco que cativou parte do protestantismo foi aquele que pregou a ideia de uma igreja voltada aos pobres e excluídos, e que agregou a essa pregação uma concepção crítica sobre a idolatria do dinheiro, a destruição dos laços comunitários, a divinização da economia financeira e de seus mecanismos especulativos e aquele que, decidido a cuidar da casa comum, iniciou uma luta intensa contra a destruição do meio ambiente.

A sintonia compartilhada nesses temas permitiu que o diálogo ecumênico não se baseasse exclusivamente em acordos teológicos de alto nível, mas também se sustentasse em pilares ligados à perspectiva social crítica da missão cristã. Se até o pontificado de Francisco os papas pós-conciliares haviam privilegiado as convergências eclesiais “de cima para baixo” e concentrado seus esforços na resolução de controvérsias teológicas pré-existentes, a mensagem do pontífice vindo do Sul permitia reintroduzir a perspectiva integral do diálogo ecumênico, marcada pela herança do Concílio Vaticano II.

O Concílio convocado por João XXIII, realizado entre 1962 e 1965, transformou a conflituosa relação entre o mundo protestante e o católico, chegando inclusive a modificar a terminologia oficial do catolicismo romano em relação a protestantes e ortodoxos. Aqueles que antes eram chamados de “hereges e cismáticos” passaram a ser “irmãos separados”. E seus teólogos, antes vistos com desconfiança, tornaram-se colegas com quem era possível confraternizar. Algumas das definições adotadas na constituição dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium [Luz dos povos], assim como o reconhecimento, por meio do decreto Unitatis Redintegratio [Restauração da unidade], dos cristãos não católico-romanos como “irmãos no Senhor”, foram a ponta de lança do moderno movimento ecumênico. Mas a ideia ecumênica do Concílio não parou por aí. Tendo ocorrido em um contexto de profundas convulsões globais e a partir de um espírito de aggiornamento da catolicidade romana, a ideia de uma “igreja dos pobres” esboçada por João XXIII também impactou as relações entre protestantes e católicos. Nos países do Terceiro Mundo – e especialmente na América Latina – setores renovadores do catolicismo e do mundo evangélico e protestante empreenderam, a partir de uma “leitura radical” do Concílio, uma confluência inédita. Suas práticas, desenvolvidas na forma de um “ecumenismo de base”, evidenciaram o encontro entre católicos e protestantes comprometidos com a situação dos mais humildes e mostraram um caminho comum na transformação das formas de ser igreja e na participação nas problemáticas sociais.

Embora essas convergências ecumênicas nunca tenham abrangido a totalidade do catolicismo e do protestantismo, e tenham tendido a se restringir aos setores ligados à teologia da libertação de ambas as confissões – em parte como produto de um certo espírito contextual e de época –, a perspectiva de um ecumenismo integral esboçada pelo Concílio era passível de ser estendida, com mediações mais claras, ao diálogo entre as igrejas em diferentes níveis. Os pontificados pós-conciliares – em especial os de João Paulo II e Bento XVI – desenvolveram uma prática ecumênica efetiva em termos teológicos e eclesiais, mas foram muito mais tímidos na hora de assumir um ecumenismo ancorado socialmente e com uma visão crítica das estruturas econômicas e sociais dominantes no mundo – ainda que, por exemplo, João Paulo II tenha feito duras críticas à homogeneização causada pela cultura globalizadora. A perspectiva particular de Francisco permitiu abrir essa porta e dotar o ecumenismo de uma marca singular.

Que amplos setores do protestantismo vissem com bons olhos o enfoque crítico de Francisco em relação à “cultura do descarte”, à idolatria do consumo e do dinheiro, e à destruição dos laços comunitários e sociais provocados pelo “dogma neoliberal”, e que acolhessem positivamente sua visão de uma cristandade centrada nos humildes, pobres e excluídos, não era algo estranho, uma vez que as posições teológicas do universo protestante já vinham, há décadas, se orientando nesse mesmo sentido. Essas posições não apenas se manifestavam nos desenvolvimentos teológicos do mundo luterano, reformado, presbiteriano, anglicano e metodista, como também se expressavam em diversos documentos das respectivas organizações denominacionais do protestantismo.

Em 2003, a Federação Luterana Mundial publicou Por la sanación del mundo [Pela cura do mundo], um documento da 10ª Assembleia da organização, no qual se afirmava: “O evangelho é dos pobres e para os pobres. A justiça de Deus não se rende à injustiça do mundo”. Ao mesmo tempo, a Federação Luterana Mundial sustentava [16]:

“Como comunhão, devemos enfrentar a falsa ideologia da globalização econômica neoliberal, confrontando-a, convertendo-a e transformando essa realidade e seus efeitos. Essa falsa ideologia baseia-se na suposição de que o mercado, construído sobre a propriedade privada, a concorrência desenfreada e a centralidade dos contratos, é a lei absoluta que rege a vida humana, a sociedade e o meio ambiente. Isso constitui uma idolatria e leva à exclusão sistemática dos que não têm propriedades, à destruição da diversidade cultural, ao desmantelamento das frágeis democracias e à destruição da terra" [17].

Uma posição semelhante pode ser encontrada na Confissão de Accra, adotada pela Aliança Mundial de Igrejas Reformadas em 2004 [18], na qual essa denominação expressava seu repúdio à “ordem econômica mundial atual imposta pelo capitalismo neoliberal global e a qualquer sistema econômico, inclusive as economias planificadas absolutas, que desafiem o pacto de Deus e excluam os pobres, os vulneráveis e toda a criação da plenitude da vida”. Ao mesmo tempo, criticava “a acumulação incontrolada de riquezas e o crescimento sem limites que já custaram a vida de milhões de pessoas e destruíram grande parte da criação de Deus”.

As palavras dos luteranos e reformados evidenciavam uma clara semelhança com as que Francisco expressaria na Evangelii Gaudium, sua primeira exortação apostólica. Nela, o pontífice afirmava que “a adoração ao antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e impiedosa versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano”, ao mesmo tempo em que destacava que “a crise mundial que afeta as finanças e a economia revela seus desequilíbrios e, sobretudo, a grave carência de sua orientação antropológica, que reduz o ser humano a uma única de suas necessidades: o consumo”.

Esse contexto de acordos comuns ficou evidente desde o início do pontificado de Francisco. Pouco depois de sua eleição como papa, a Federação Luterana Mundial publicou um breve documento intitulado “Fazendo causa comum com o Papa Francisco para servir aos pobres” e, um ano depois, o Conselho Mundial de Igrejas afirmou que acompanhava “o chamado de Francisco para trabalhar pela justiça e pela paz, em profunda solidariedade cristã”. No entanto, essas declarações não foram meras expressões de vontade ou desejo: elas se manifestaram em práticas concretas.

De fato, não é coincidência que numerosas organizações denominacionais do cristianismo não católico-romano tenham se integrado ao Movimento Laudato Si’, lançado pelo papa a partir de sua encíclica de mesmo nome. O movimento, centrado no cuidado da casa comum e na luta contra a destruição ambiental, recebeu forte apoio entre luteranos, reformados, anglicanos e metodistas — a ponto de a rede conhecida como Luteranos Restaurando a Criação ter estabelecido guias de estudo e trabalho baseadas na encíclica papal. A incorporação de Laudato Si’ como elemento distintivo do diálogo ecumênico também se evidenciou na Declaração Conjunta do Papa Francisco e do Arcebispo de Canterbury (líder da Igreja da Inglaterra) Justin Welby em 2016, bem como no documento O cuidado de nossa casa comum: uma preocupação ecumênica e inter-religiosa: comentários sobre a carta encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco, apresentado no mesmo ano pelo secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas, Olav Fykse Tveit.

As perspectivas de um desafio compartilhado

Apesar das confluências entre o protestantismo histórico e o catolicismo romano terem sido nítidas durante o papado de Francisco, as diferenças teológicas ainda persistem. No entanto, essas diferenças não representaram um obstáculo para o diálogo ecumênico, uma vez que este passou a ser compreendido sob a perspectiva da “diversidade reconciliada”. O próprio Francisco foi claro ao reconhecer que as divergências teológicas não devem ser impedimento para a ação comum nem para a prática ecumênica. Por isso, em mais de uma ocasião, o pontífice afirmou que o ecumenismo não deveria repousar sobre os ombros dos teólogos, mas sim sobre um caminho comum de oração, ação social e evangelização. Seu “ecumenismo do caminho” se consolidou ao lado de outros: o “ecumenismo do martírio” – que parte da ideia de que os cristãos perseguidos o são por serem cristãos, e não por sua denominação específica –; o “ecumenismo da missão” – baseado na ideia de que os cristãos, como discípulos, compartilham uma missão evangelizadora –; e o “ecumenismo dos pobres” – fundamentado no testemunho comum dos cristãos ao servirem os mais necessitados. Segundo Francisco, essas formas de ecumenismo poderiam superar os obstáculos que os diferendos teológicos ainda impõem à ação comum.

Em um discurso ao Dicastério para a Unidade dos Cristãos em 2022, o papa recordou as palavras de um teólogo ortodoxo, segundo o qual a prática ecumênica não poderia depender do debate teológico, já que era possível que os teólogos só chegassem a um acordo “no dia seguinte ao Juízo Final”. O ecumenismo, então, deveria avançar com outro critério: o que leva as diferentes denominações cristãs a “caminhar como irmãos”.

Diante das vozes mais conservadoras, que desaprovaram o fortalecimento de certas relações ecumênicas, Francisco insistiu que o catolicismo romano deveria acolher os irmãos na fé com base nas convergências e na pregação da Palavra evangélica, deixando em segundo plano alguns dos diferendos teológicos. No entanto, perante aqueles que, aproveitando os avanços ecumênicos promovidos pelo papa, defenderam a introdução de mudanças nas estruturas internas do catolicismo romano, Francisco foi mais cauteloso. Em 2020, quando Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal Alemã, solicitou ao Vaticano que católicos e protestantes alemães (representados principalmente pela Igreja Evangélica Alemã – EKD) pudessem partilhar a Eucaristia, o Dicastério para a Doutrina da Fé – órgão responsável por zelar pela doutrina católica – respondeu com um “não” firme, argumentando que ainda existiam diferenças importantes entre ambas as confissões quanto ao ministério e à compreensão da Eucaristia.

Além disso, Bätzing expressou a intenção de várias dioceses alemãs de avançar em um caminho sinodal que incluísse: a ordenação de homens casados como sacerdotes, o casamento de padres solteiros, a autorização do diaconato feminino, o debate sobre “o ministério sacramental de pessoas de todos os sexos”, a aceitação da homossexualidade e das políticas anticoncepcionais, bem como a possibilidade de alteração dos registros batismais em casos de transição de gênero [19]. Diante dessas propostas, Francisco – que nomeou Bätzing bispo de Limburg em 2016 – respondeu: “Disse ao presidente da Conferência Episcopal Alemã, Dom Bätzing: existe uma excelente Igreja evangélica na Alemanha. Não precisamos de duas. O problema surge quando o caminho sinodal provém das elites intelectuais e teológicas, e é muito influenciado por pressões externas" [20]. As posições de Francisco não devem ser interpretadas como obstáculos ao ecumenismo, mas sim como formas de enfrentar dilemas e controvérsias internas do catolicismo romano.

O ecumenismo de Francisco foi moldado desde o início pela ideia do poliedro. Essa ideia – que o pontífice expressou claramente na Evangelii Gaudium e que, como destacou Juan Carlos Scannone, provém da teologia do povo argentina – representa uma figura na qual diferentes partes convergem sem perder sua singularidade [21]. Do ponto de vista protestante, Bräuer acerta ao afirmar que

“É interessante notar que esse modelo substitui o modelo de círculos concêntricos usado frequentemente pelos católicos e, em seu lugar, desenvolve um modelo de unidade no qual a identidade das diferentes igrejas é preservada sem ofuscar a identidade do todo. Essa imagem possibilita um processo de aprendizado ecumênico mútuo e de enriquecimento por meio dessa relação complementar. A perspectiva latino-americana do papa Francisco torna-se evidente ao incluir, nessa concepção de unidade, as comunidades pentecostais e evangélicas, ao lado das igrejas ortodoxa, anglicana, luterana e reformada” [22].

Ainda que tenha sido formulado com critérios próprios da catolicidade romana, o paradigma ecumênico de Francisco encontrou eco em outro modelo de origem nitidamente protestante: aquele proposto nas décadas de 1970 e 1980 pelo teólogo luterano Oscar Cullmann. Para esse exegeta bíblico francês – que também atuou como observador no Concílio Vaticano II –, os seguidores de Jesus devem reconhecer que:

“Cada confissão cristã possui um dom inalienável do Espírito, um carisma, que tem o dever de preservar, cultivar, purificar e aprofundar, e que não deve ser esvaziado de seu conteúdo em nome de uma uniformização" [23].

Essa visão o levou a formular um modelo ecumênico que superava os acordos entre as cúpulas religiosas: tratava-se de assumir, a partir da própria fé, um processo de fraternidade confessional em direção à “unidade na diversidade reconciliada”. Não é por acaso que foi o próprio Francisco quem resgatou essas palavras em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium.

Durante o papado de Francisco, protestantes e católicos avançaram em um processo singular de ecumenismo prático. Sem renunciar às suas histórias, tradições – sempre internamente tensionadas – e respectivas identidades denominacionais, encontraram-se para reconhecer uma fonte comum. Aquela que, como dizia o teólogo Jürgen Moltmann, se expressa na “cruz de Cristo (...), o lugar onde fomos reunidos e unificados, e no qual estamos unidos de forma mais profunda do que podemos imaginar [24].

As manifestações de tristeza e pesar por parte de muitos representantes do protestantismo histórico diante da morte de Francisco revelam até que ponto o pontífice argentino promoveu uma prática de reconhecimento mútuo baseada em uma peregrinação compartilhada, ao mesmo tempo em que demonstram os frutos colhidos nas relações de fraternidade cristã. Mas a morte de Francisco também abre um horizonte de incertezas sobre a continuidade de sua mensagem. Em um tempo de polarização e guinadas globais à direita, será que Leão XIV poderá também se tornar um “irmão de Roma”, preservando a sensibilidade social que caracterizou Francisco e construindo pontes ecumênicas com os protestantes que hoje o saúdam como irmão na fé? Essas perguntas ainda estão por ser respondidas.

Referências

[1] Organização ecumênica fundada em 1948, que reúne tanto igrejas protestantes de diversas denominações – principalmente luteranas, anglicanas, reformadas, metodistas – quanto igrejas ortodoxas orientais.

[2] Making Common Cause with Pope Francis on Serving the Poor, Lutheran World Federation News, 2013.

[3] Heather Hahn, Amanda Bachus y Vance Morton: Methodists Worldwide Welcome Pope Francis I with Hope and Optimism, Central Texas United Methodists, 2013.

[4] "La FAIE saluda a la Iglesia Católica ante la elección del Papa Francisco", Carta a la Conferencia Episcopal Argentina, 14/3/2013.

[5] Juan Carlos Scannone: "El papa Francisco y la teología del pueblo" en Razón y Fe vol. 271 No 1395, 2014.

[6] La mayoría de las iglesias pertenecientes al campo del "protestantismo histórico" argentino defendieron teológicamente y políticamente el matrimonio igualitario y la ley de interrupción voluntaria del embarazo.

[7] R. Polanco: "El Papa Francisco y el ecumenismo del camino" en Medellín No 169, 2017.

[8] La expresión no corresponde al papa Francisco, sino a Rodrigo Polanco, quien la considera útil para expresar la perspectiva ecuménica del pontífice.

[9] M. Bräuer: "Pope Francis and Ecumenism" en The Ecumenical Review vol. 69 No 1, 2017.

[10.
Sarah Zylstra: "El Papa pide perdón a los ‘primeros evangélicos’ por la persecución" en Christianity Today, 7/6/2015.

[11] "Visita privada del Santo Padre al pastor evangélico Giovanni Traettino. Discurso del Santo Padre Francisco. Iglesia Pentecostal de la Reconciliación, Caserta, lunes 28 de julio de 2014", Dicasterio para la Comunicación, 28/7/2014.

[12] "Discurso del Santo Padre Francisco a una delegación del Consejo Metodista Mundial", Dicasterio para la Comunicación, 7/4/2016.

[13] Oración ecuménica conjunta en la catedral luterana de Lund, Homilía del Santo Padre, Lund, 31/10/2016.

[14] "Conferencia de prensa del Santo Padre durante el vuelo de regreso a Roma. Viaje apostólico del Santo Padre Francisco a Armenia", Dicasterio para la Comunicación, 26/6/2016.

[15] U. Jonsson: "Intervista a Papa Francesco. In occasione del viaggio apostolico in Svezia" en La Civiltà Cattolica, 26/11/2016.

[16] Federación Luterana Mundial, Oficina para Servicios de Comunicación: "For the Healing of the World: Official Report", 2003.

[17] Karen L. Bloomquist (ed.): Communion, Responsibility, Accountability: Responding as a Lutheran Communion to Neoliberal Globalization, Federación Luterana Mundial, Ginebra, 12/2004.

[18] La Confesión de Accra fue adoptada posteriormente por la Comunión Internacional de Iglesias Reformadas que unificó en una sola organización a la Alianza Mundial de Iglesias Reformadas y al Consejo Ecuménico Reformado.

[19] Christa Pongratz-Lippitt: "German Lay Catholic Leader Says Synodal Path Will Not Lead to Schism" en La Croix International, 31/1/2020.

[20] Antonio Spadaro: "Conversación del Papa Francisco con los directores de las revistas culturales europeas de los jesuitas" en La Civiltà Cattolica, 14/6/2022.

[21] J.C. Scannone: ob. cit.

[22] M. Bräuer: ob. cit.

[23]
O. Cullmann: Unity through Diversity: Its Foundation, and a Contribution to the Discussion concerning the Possibilities of Its Actualization, Fortress Press, Filadelfia, 1986.

[24] J. Moltmann: "Ecumenismo bajo la cruz" en Teología de la cruz, Sígueme, Salamanca, 1979, p. 166.

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