O texto altamente prescritivo de um prefeito contestado. Artigo de Bernadette Sauvaget

O texto "Dignitas Infinita" foi assinado pelo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, Víctor Manuel Fernández. (Foto: Reprodução | Vatican News)

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19 Abril 2024

"Permanecendo ancorada na maioria das suas posições tradicionais, a Igreja Católica perde mais uma vez a oportunidade de uma virada em termos de ética encarnada", escreve Bernadette Sauvaget, jornalista francesa, em artigo publicado por Témoignage Chrétien, 18-04-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“Cinco anos? É o tempo geológico do Vaticano”, ironiza um conhecedor dos arcanos da Cúria Romana. Em suma, não devemos ficar muito surpresos com o tempo que foi necessário para redigir a Declaração sobre a dignidade humana, Dignitas Infinita, publicada em 8 de abril pelo Dicastério para a Doutrina da Fé (Ddf) e assinada pelo teólogo argentino Victor Fernández, prefeito do Ddf e filho espiritual do Papa Francisco. “Fernández foi nomeado para esse cargo nas últimas fases do pontificado”, explica uma fonte romana, “para levar adiante as reformas que ainda não foram realizadas”. No entanto, a autoridade do prefeito do DdF é agora muito contestada, após as polêmicas mundiais suscitadas dentro da Igreja Católica pela Declaração Fiducia supplicans, que autoriza, sob condições específicas, a bênção de casais homossexuais.

Anunciada há vários meses, a Dignitas Infinita foi aprovada pelo próprio Papa, que fazia bastante questão da sua publicação. De um ponto de vista político-religioso, esse texto deveria reafirmar uma certa firmeza doutrinária após a violenta oposição a Fiducia supplicans, uma compensação, por assim dizer, à ala conservadora, com a qual Francisco pode estar de acordo sobre o aborto ou a eutanásia. De fato, na Dignitas Infinita, o Vaticano reitera todas as condenações contemporâneas da Igreja Católica, do aborto à eutanásia, e acrescenta a gestação para outros e teoria de gênero. E a retorno de uma normatividade um tanto surpreendente no pontificado de Francisco, que defendeu com unhas e dentes uma concepção inclusiva da Igreja Católica, que imagina como “hospital de campanha”. Apesar de tudo, o toque bergogliano está na ênfase dada à dignidade social. Condena também a exploração econômica dos seres humanos e o tratamento indecoroso dos migrantes e a pena de morte, temas caros a Francisco.

Permanecendo ancorada na maioria das suas posições tradicionais, a Igreja Católica perde mais uma vez a oportunidade de uma virada em termos de ética encarnada. À luz dos progressos da medicina e do diagnóstico pré-natal, o aborto e o fim da vida dificilmente poderiam ser considerados em 2024 como o eram cinquenta anos atrás. No entanto, a Dignitas Infinita contém alguns avanços, como a firme condenação das desigualdades entre homem e mulher e a igualmente firme condenação dos feminicídios. E uma das maiores contribuições do texto é o empenho contra a criminalização da homossexualidade, uma causa que o Papa também defendeu vigorosamente, especialmente em 2023 durante a sua visita à África. Este último ponto talvez seja uma resposta à rebelião liderada por alguns bispos africanos contra a bênção dos casais homossexuais, que colocou Francisco e o seu teólogo numa posição muito difícil? Segundo observadores informados, é muito provável.

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