Tudo bem em Tel Aviv (se você não for homossexual, mulher ou árabe)

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14 Julho 2023

O cheiro sufocante de queimado só pode ser sentido em Hawara e Turmus Aya, aqui em Tel Aviv o céu continua de um azul intenso, graças a um filtro do Instagram, a menos que você seja homossexual, mulher ou árabe.

O artigo é de Etgar Keret, escritor israelense, publicado por Corriere della Sera, 12-07-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Então, qual é o gosto do meu cappuccino com leite de aveia no café do bairro em Tel Aviv no dia em que Israel é uma democracia um pouco menos estável? Sinceramente, igual ao de sempre. Um pouco mais amargo, um pouco menos espumoso, mas no fim das contas quase igual. Lembro de alguma semana atrás eu fui à beira-mar no mesmo dia em que os colonos queimaram casas e carros em uma aldeia palestina. Embora um homem tenha morrido naquele pogrom, outros tenham ficado feridos e toda uma aldeia pegou fogo, a água permaneceu fresca e límpida como sempre.

Eu acreditava que entre as manifestações de racismo, homofobia e corrupção de que esse governo messiânico dá prova diariamente e meu mundo sensorial existisse uma relação mais direta.

Em vez disso, ainda hoje, seis meses depois que esse governo louco e violento chegou ao poder, o céu não está mais cinza ou mais opressivo. O vento fresco do Poente continua a soprar do mar na mesma idêntica hora e apenas a mensagem animada do WhatsApp do meu irmão para avisar que havia sido agredido durante uma manifestação contra a ocupação e as conversas com o barista árabe que conta ter sido coberto de insultos racistas na Estação Central de Jerusalém a caminho do trabalho, me lembram que o sol acima de mim é um mentiroso.

A legislação antidemocrática serpenteia inexoravelmente na nossa direção, mas os membros do governo não se limitam a isso: insultam, ofendem e ameaçam qualquer um que esteja ao seu alcance, desde o chefe do Mossad até o presidente da Suprema Corte. Permitem-se chamar o Chefe de Gabinete e o Chefe de Polícia de "Grupo Wagner" porque ousaram criticar os crimes de ódio dos colonos, permitem-se ameaçar jogar escada abaixo o governador do Banco de Israel porque ousou levantar a taxa de juros, de definir o chefe de polícia de Tel Aviv como "pus", que se recusa a usar a força contra os manifestantes ou os pilotos de caça engajados na luta pela democracia, se permitem colocar um like num post que incita ao atropelamento de manifestantes contra o governo ou atear fogo a uma aldeia palestina, embora a madressilva chinesa no jardim de nosso prédio continue a espalhar seu perfume maravilhoso. O cheiro sufocante de queimado só pode ser sentido em Hawara e Turmus Aya, aqui em Tel Aviv o céu continua de um azul intenso, graças a um filtro do Instagram, a menos que você seja homossexual, mulher ou árabe.

Para mantê-lo azul, basta parar de ler os sites de notícias e evitar dizer em voz alta que sou de esquerda. Assim, tudo continuará a parecer como antes: o café quente, o sol agradável, o barista satisfeito com o seu trabalho que te cumprimenta, embora esta manhã com um sorriso ligeiramente triste.

É melhor tomar nota: se eu quiser continuar tomando meu café em paz, tenho que aprender a usar menos esta palavra, "Ocupação": pronto, acabei de pronunciá-la e o sol sobre a minha cabeça já se escondeu atrás de uma nuvem.

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