13 Junho 2023
"Nos anos 1990, quando o Brasil vivia o segundo choque do período neoliberal, Wladimir Pomar ajudou a construir uma estratégia política e jurídica de luta contra a ditadura financeira. As experiências de então contra os juros abusivos podem ser valiosas hoje", escreve Antonio Martins, editor de Outras Palavras, em artigo publicado por Outras Palavras, 19-05-2023.
Eis o artigo.
Corria 1996 e não me lembro quem nos apresentou. Wladimir Pomar atuava como uma espécie de consultor político permanente de Joaquim Palhares, um advogado que enriquecera defendendo empresários da sanha dos bancos. O escritório de Palhares mantinha Carta Maior – então um boletim jurídico impresso e distribuído pelos correios, focado em Direito Bancário. A publicação precisava de um novo editor. Eu estava ansioso por encerrar minha passagem breve e traumática pela imprensa comercial, em “Veja”. O encontro durou meia hora, se tanto, e me abriu as portas para um convívio de mais de um ano com as maquinações do Wladimir. Sempre discretas, sempre eficazes e desbravadoras de novas possibilidades políticas.
Nos anos 1990, a economia brasileira sofria o segundo grande choque do período neoliberal. Os juros já eram os mais altos do mundo. Havia grandes empresas muito endividadas. Palhares, um gaúcho audaz, desenvolvera um conjunto de teses jurídicas que, apoiadas na Constituição e no Código de Defesa do Consumidor, permitiam reduzir as dívidas – ou ao menos estender os prazos. Mas foi graças ao Wladimir que esta ação ganhou contornos políticos.
Primeiro, com a Carta Maior, que ele supervisionava discretamente. A cada mês, publicávamos novos casos de vitórias sobre os bancos. E fazíamos entrevistas desbravadoras. Lembro-me de ir a Porto Alegre para ouvir o então também advogado (e ex-prefeito) Tarso Genro sobre a necessidade de ressignificar a globalização; ou de recolher, no gabinete do deputado Delfim Netto, em Brasília, suas observações sobre os “gravatões” que ganhavam sem nada produzir.
Foi também o Wladimir quem se mexeu para organizar, por volta de 1998, um encontro marcante, nos fundos do escritório do Palhares, situando no comecinho da Avenida Ibirapuera, em São Paulo. O advogado destemido, que por sua atividade conhecer pesos pesados do empresariado, quis apresentá-los a Lula, que se preparava para disputar sua terceira eleição presidencial. O churrasco de pernil de cordeiro, quem assou foi o próprio Palhares. Mas todo o desenho do encontro coube ao seu consultor político.
Por fim foi ele, Wladimir, quem ajudou a organizar, em janeiro de 1999, o I Seminário Internacional de Direito Bancário. As teses jurídicas que desafiavam o rentismo, dizia, precisavam ter repercussão. O hotel Maksoud Plaza – outro cliente do Palhares – foi o palco. Entre os convidados estavam o François Chesnais, que pouco tempo antes publicara A Mundialização do Capital – e que entrevistei na companhia do Edmilson Costa (meu primeiro editor, nos didos de 1979), hoje secretário geral do PCB.
Lembro-me vivamente da última vez que vi o Wladimir, num dos bares do Maksoud. O seminário terminara com grande sucesso. Ele recomendou ao Palhares: “A batalha da artilharia, você ganhou. Agora, é preciso vencer a da infantaria”. Wladimir pensava que Palhares deveria articular, com as centenas de advogados que haviam acorrido ao evento, um movimento jurídico e político de defesa dos clientes dos bancos.
A ideia não foi adiante e ele deixou o escritório. Em 2019, Palhares me contou que ambos haviam retomado a amizade e se falavam com alguma frequência. Ao saber, na sexta-feira, da morte do discreto mago, pensei nas possibilidades que o Brasil desperdiçou, e nas que tem diante de si.
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