Sinfonia de um Homem Comum

Cena de Sinfonia de um Homem Comum. (Foto: divulgação)

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16 Fevereiro 2023

"Os EUA e a Inglaterra invadiram o IraqueSaddam foi morto mas, anos depois, confirma-se que não existiam mesmo armas químicasColin Powell, secretário de Estado dos EUA na época da invasão, admite que houve um erro. 'O engano que Powell singelamente admitiu, custou a vida de 300 mil iraquianos e 5 mil sodados americanos', afirma Joffily na narração do filme. Já Bustani, depois de passar um ano no Itamaraty, foi indicado ao Nobel da Paz e também convidado pelo presidente Lula, recém-eleito, a assumir o posto de embaixador na Inglaterra", escreve Alysson Oliveira, em resenha sobre o filme "Sinfonia de um Homem Comum" publicada por Cineweb, 01-11-2022.

Sinopse

O documentário tem como tema o trabalho e a vida do diplomata José Maurício Bustani, primeiro diretor-geral da OPAQ (Organização para a Proibição de Armas Químicas), que tentou impedir a destruição do Iraque e, por pressão dos norte-americanos, foi demitido. Hoje, decorridos 19 anos, situações semelhantes se repetem nos bastidores das organizações multilaterais.

Ficha técnica

Nome: Sinfonia de um Homem Comum
Nome Original: Sinfonia de um Homem Comum
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil
Ano de produção: 2022
Gênero: Documentário
Duração: 83 min
Classificação: 10 anos
Direção: José Joffily

Eis a resenha.

Logo no início do filme, entra em cena um homem de cabelos grisalhos, senta-se diante de um piano e começa a fazer perguntas bastante técnicas sobre o instrumento. Quando ele passa a tocar, podemos acreditar que se trata de um documentário sobre um pianista. Ledo engano, como se verá logo depois. Trata-se de José Maurício Bustani, diplomata brasileiro que foi o primeiro diretor-geral da Organização Para Proibição de Armas Químicas, a OPCW, na sigla internacional. Exibido no Festival É Tudo Verdade de 2022, o longa recebeu a Menção Honrosa do Júri.

Amigos de longa data, Bustani e o cineasta José Joffily conversam com intimidade, abordando questões de geopolítica e tensão global, fazendo emergir uma personalidade que contrasta com o pianista tranquilo e apaixonado. O diplomata conta que aceitou a missão na OPCW, em 1997, com empenho: “Cuidei daquilo como se fosse minha própria casa”.

Quase 70 países assinaram a convenção contra armas químicas – mas o Iraque não era uma delas. Quando este invadiu o Kuait, os EUA também o invadiram, sob o pretexto de que o Iraque mantinha um arsenal secreto de armas de destruição em massa. Mas, como se sabe, o objetivo real era defender o controle do petróleo e das empresas americanas que faziam negócios ali. Partindo desse momento, o longa descortina uma história que segue por algumas décadas, com depoimentos de pessoas-chave nessa crise mundial.

(Foto: divulgação)

Seguindo questões históricas que reverberam em nosso tempo, Joffily constrói um retrato bastante humano de Bustani, que aspirava convencer Saddam Hussein a assinar a convenção contra armas químicas, assim acabando com as sanções sofridas por seu país. Se os EUA sempre quiseram invadir o país, como diz Bustani, o 11 de Setembro foi a desculpa perfeita para tal – uma invasão em nome de buscar armas químicas que não existiam.

Depois de ficar provado, após uma vistoria da OPCW no Iraque, que não havia armas de destruição em massa naquele país, como alegavam os EUA, Bustani insiste na participação do Iraque na convenção. O governo de George W. Bush bate de frente com o brasileiro, numa campanha visando desacreditar seu trabalho e sua capacidade. A disputa chegou ao nível de ameaças contra a vida o próprio Bustani e de sua família para que ele renunciasse ao cargo.

O governo brasileiro – na época, o presidente era Fernando Henrique Cardoso – entra na história de forma discreta, recusando-se a defender Bustani no episódio, embora hoje, no filme, algumas figuras daquele governo contradigam essa versão. No entanto, notícias da época dão uma dimensão maior sobre o acontecimento. De qualquer forma, o diplomata acabou afastado do cargo, em abril de 2002.

Os EUA e a Inglaterra invadiram o Iraque, Saddam foi morto mas, anos depois, confirma-se que não existiam mesmo armas químicas. Colin Powell, secretário de Estado dos EUA na época da invasão, admite que houve um erro. “O engano que Powell singelamente admitiu, custou a vida de 300 mil iraquianos e 5 mil sodados americanos”, afirma Joffily na narração do filme. Já Bustani, depois de passar um ano no Itamaraty, foi indicado ao Nobel da Paz e também convidado pelo presidente Lula, recém-eleito, a assumir o posto de embaixador na Inglaterra.

Além de sensível e inteligente, no filme, Bustani revela-se uma figura carismática, resgatando sua história de injustiça, que o fez descer ao inferno, de onde só foi resgatado quando Lula foi eleito presidente. Agora, ele se devota ao piano com toda sua paixão pelo instrumento, que vem desde a infância. Sinfonia de Um Homem Comum é um filme em que os planos pessoal, histórico e geopolítico se encontram e, às vezes, se chocam. Joffily, habilmente, dá conta de tudo isso em seu documentário, num retrato que destaca o lado humano, sem nunca deixar de lado a dimensão política e a importância na história mundial recente do ex-diplomata.

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