Rússia: a (débil) voz da paz

Escombros da guerra na Ucrânia. (Foto: Volodymyr Zelensky | Redes Sociais)

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17 Janeiro 2023

O clamor retumbante de palavras em apoio à guerra pela liderança da Igreja Ortodoxa Russa é acompanhado por uma voz débil, mas importante, que invoca a paz. Tanto direta quanto indireta.

O comentário é de Lorenzo Prezzi, publicado por Settimana News, 16-01-2023.

A Nuova Europa traz em sua edição de 8 de janeiro uma declaração de um grupo de cristãos russos, "nascido espontaneamente da base" e "claramente evangélico". Os nomes não são conhecidos, mas os rostos aparecem no vídeo que acompanha o texto. A data é 25 de dezembro. Eles contrapõem a relativa serenidade da preparação para o Natal ortodoxo na Rússia com a condição dos ucranianos.

No país vizinho, a Ucrânia, há uma guerra desencadeada pelo nosso governo; os habitantes ficaram sem energia elétrica, sem aquecimento, muitos sem família. Eles também faziam planos para este ano, também queriam festejar e também acreditavam num milagre. Mas o nosso país levou a guerra para dentro de suas casas, e agora para eles se aquecerem um pouco e recarregarem seus celulares já é uma festa.

Não matar!

Eles lembram a todos os cristãos das várias confissões a imperatividade do mandamento "Não matar", o reconhecimento de que a agressão militar da Rússia é um crime contra a lei divina e que os crimes, reais ou imaginários, de outros não justificam os próprios.

Notamos com grande tristeza que a grande maioria das comunidades cristãs na Rússia não considera necessário ou importante levantar a voz em defesa dos inocentes e denunciar a ilegalidade. Ficamos horrorizados que muitos ministros das igrejas e teólogos, na tentativa de justificar a invasão, distorcem o sentido das Sagradas Escrituras e descartam os preceitos do Sermão da Montanha como algo supérfluo e irrelevante.

Estimulam a não se fechar nos próprios interesses, para a oração insistente pela paz, para a denúncia do mal, para a resistência não violenta em relação à mobilização e para a ajuda humanitária.

Somente nos primeiros dias da guerra uma voz semelhante havia se registrado. Cerca de 300 padres da Igreja Ortodoxa Russa tinham lançado um apelo pelo fim das hostilidades e pela reconciliação. Eles escreveram:

Estamos entristecidos pelo calvário que imerecidamente estão sofrendo os nossos irmãos e irmãs na Ucrânia. Afirmamos que a vida de cada pessoa é um presente inestimável e irrepetível de Deus e, portanto, desejamos que todos os combatentes - russos e ucranianos - retornem sãos e salvos para suas casas e famílias. Pensamos com amargura no abismo que nossos filhos e netos terão que superar, na Rússia e na Ucrânia, para voltar a se ver como amigos, para voltar a se estimar e se amar (La Nuova Europa, 4 de março de 2022).

Negar

Há também sinais indiretos de resistência à guerra, reconhecíveis nas palavras inchadas de poder dos defensores do conflito. É o mesmo patriarca Kirill que, no relatório anual à assembleia diocesana de 22 de dezembro, é obrigado a reconhecer que “há quem toma distância das decisões do Estado ou até mesmo abandona a sua pátria”.

Ele menciona o dissenso no clero quando convida os párocos a não se desviarem da posição da Igreja. Caso o padre não compartilhe a orientação bélica, ele tem o dever de enviar os paroquianos a padres mais convictos. No entanto, deve admitir "que muitas pessoas, mesmo entre nossos paroquianos, estão hoje confusas", inquietas com as notícias do front e as dificuldades diárias.

Ainda mais explícito ao negar legitimidade às críticas à guerra é o responsável pelo departamento sinodal para as relações da Igreja com a sociedade e a mídia, Vladimir Romanovich Legoyda:

O sacerdote é chamado a unir as pessoas, seja qual for seu ponto de vista, mesmo na atual situação. Se um padre se coloca à frente da divisão de sua paróquia ou da Igreja como um todo, então evidentemente sua vocação não é aquela de pastor, mas do político. Isso é muito triste, especialmente porque em todas as celebrações rezamos pela paz e pelo fim da divisão fratricida”. E continua: “O pacifismo não é um dogma religioso, mas uma ideologia política que, apesar das declarações, muitas vezes é apenas fonte de divisão. A Igreja nunca se associou a nenhuma corrente política, inclusive a esta (RIA Novosti, 7 de janeiro de 2023).

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