Vigiai! A vigilância de si próprio para aprender a amar a Deus e ao próximo

Foto: Pixabay

25 Novembro 2022

"Vigiar sobre nós mesmos não é tarefa fácil porque, como disse Santo Efrém, somos dominados por paixões desordenadas e pela nossa própria natureza, mas, como ensina a mística espanhola, para as almas que querem entrar no castelo e 'ingressar nas segundas moradas, convêm, logo de início, abrir mão das relações e negócios desnecessários, cada um segundo seu próprio estado. É coisa importantíssima. Do contrário, acho impossível chegar até o salão principal ou mesmo conservar-se sem perigo, nesses primeiros aposentos'".

O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestre em Filosofia pela Unisinos.

A primeira das quatro semanas que antecedem o Natal inaugura o Tempo do Advento, início do novo ano litúrgico em que os cristãos preparam-se para celebrar a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens, enquanto aguardam a Sua segunda vinda.

"Vigiai: Cristo virá de novo", tema da liturgia deste primeiro domingo do Advento, tem sido, igualmente, o mote de reflexão da Igreja desde os Santos Padres, como Santo Efrém, diácono e doutor da Igreja do século IV.

Em uma de suas homilias sobre a segunda vinda do Senhor, Efrém explica porque Jesus fala em "vigilância da alma e do corpo": "para que o corpo não caia em um pesado torpor, nem a alma no entorpecimento e temor". Em dias como os nossos, em que o desânimo toma conta das almas e dos corpos, seja por conta dos acontecimentos políticos, sociais ou pessoais, e o medo reina como um vírus por causa da falta de esperança, de expectativas futuras, e das mazelas socioambientais que acometem o mundo, a reflexão do teólogo, dirigida aos cristãos 18 séculos atrás, não poderia ser mais atual.

A exortação aos fiéis que viveram em uma época radicalmente diferente e igual a nossa - e que em sua essência são exatamente iguais a nós - tem um caráter espiritual, ascético e universal, e também é dirigida a nós à medida que nos convida à vida mística: "Velai", diz, "porque é a natureza quem nos domina, e nossa atividade não se encontra dirigida pela vontade, mas pelos impulsos da natureza. E quando reina sobre a alma um pesado torpor, por exemplo, a pusilanimidade ou a melancolia, é o inimigo que domina a alma e a conduz contra sua aspiração natural. Apropria-se do corpo a força da natureza, e da alma o inimigo".

Para aqueles que identificam nesta linguagem um tom por demais antigo ou "medieval", é possível ler a mesma mensagem em uma linguagem moderna, nos escritos de uma das místicas e doutora da Igreja mais aclamadas, Santa Teresa de Jesus. No clássico Castelo Interior, ela compara a nossa alma a um castelo e nos ensina não só que a porta que dá acesso ao castelo é a oração, mas que no próprio castelo "existem muitos aposentos" e "que as almas sem oração são semelhantes a um corpo entrevado ou paralítico. Embora tenha pés e mãos, não os pode mover. (...) Se não procuram entender e remediar sua extrema miséria, olhando para si, tornam-se estátuas de sal, como aconteceu à mulher de Ló". Aquelas que aceitarem empregar-se nesse exercício, garante, "ficarão consoladas e estimuladas a amar sempre mais Àquele que, possuindo tão grande poder e majestade, usa de tanta misericórdia para com elas. (...) Quem se recusa a crer, jamais terá a experiência. Isso posso garantir".

 

 

Outro doutor da Igreja, Santo Hilário de Poitiers, também do século IV, ao refletir sobre este mesmo Tempo do Advento, explica quem é "o fundamento" do nosso edifício. "O primeiro e mais importante degrau que deve ascender aquele que tende às coisas celestiais é habitar neste tenda e ali - afastado das preocupações mundanas e abandonando os negócios deste mundo -, passar toda a sua vida, noite e dia, à imitação de muitos santos que jamais se afastaram da tenda. Sob o nome de 'monte'- sobretudo quando se trata das coisas celestiais - temos de imaginar o mais alto e sublime. E existe algo mais sublime que Cristo? Mais digno do que o nosso Deus?".

Vigiar sobre nós mesmos não é tarefa fácil porque, como disse Santo Efrém, somos dominados por paixões desordenadas e pela nossa própria natureza, mas, como ensina a mística espanhola, para as almas que querem entrar no castelo e "ingressar nas segundas moradas, convêm, logo de início, abrir mão das relações e negócios desnecessários, cada um segundo seu próprio estado. É coisa importantíssima. Do contrário, acho impossível chegar até o salão principal ou mesmo conservar-se sem perigo, nesses primeiros aposentos". Este exercício, conclui, tem uma finalidade central:

"Convençamo-nos, filhas minhas, de que a perfeição verdadeira consiste no amor de Deus e do próximo. Quando mais fielmente guardarmos esses dois mandamentos, tanto mais seremos perfeitas. Toda a nossa Regra e as nossas Constituições são apenas meios para mais perfeitamente guardarmos esses dois preceitos. Deixemo-nos de zelos indiscretos, que nos podem causar muitos prejuízos. Cada uma olhe para si".

Que neste Advento, possamos olhar verdadeiramente para nós mesmos para que, vigiando-nos, aprendamos a amar a Deus e ao próximo.

 

Leia mais