França. Os problemas postos pelos escândalos Santier e Ricard

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10 Novembro 2022

As revelações sobre Mons. Michl Santier, bispo emérito de Crétieil e o cardeal Jean-Pierre Ricard, arcebispo emérito de Bordeaux, trazem à luz um certo número de disfunções. Em particular, a difícil circulação de informações entre os bispos e com Roma.

A reportagem é de Arnaud Bevilacqua e Loup Besmond de Senneville, publicada por La Croix, 09-11-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Caso Santier

Mons. Eric de Moulins Beaufort reconheceu-o de forma inequívoca no discurso de encerramento da Assembleia Geral dos Bispos de Lourdes, terça-feira, 8 de novembro: “Há carências, erros e disfunções na maneira de reagir aos fatos cometidos por Mons. Santier durante os procedimentos". Para tentar remediar isso, os bispos tentaram nos últimos dias reler precisamente a cronologia da gestão do caso Michel Santier, bispo emérito de Créteil sancionado por "voyeurismo", para entender quem estava ciente do quê e quando. “O funcionamento é muito fragmentado, admitiu Mons. de Moulins Beaufort, de modo que sempre há uma considerável dispersão de energia e informação”.

Entre março de 2019, data em que uma primeira pessoa se apresenta ao bispo de sua diocese para notificar os fatos contestados a Mons. Santier, e dezembro de 2019, quando o dossiê é transmitido à Congregação para a Doutrina da Fé, só estão cientes Mons. Michel Aupetit, arcebispo de Paris na época - e portanto responsável pela província da qual depende Dom Santier - e o núncio. “O direito canônico não prevê a que presidente da Conferência Episcopal participe nesses procedimentos, recordou Mons. de Moulins Beaufort. Aconteceu que fui informado, mas foi, de alguma forma, pela boa vontade de cada um”, enquanto “os bispos nada sabiam do que Michel Santier fez”.

Quando anunciou sua renúncia em junho de 2020, aceita pelo papa três meses antes, Mons. Santier não diz os verdadeiros motivos de seu afastamento, mas fala de problemas de saúde e "outras dificuldades". Ele permanece no cargo até a nomeação de seu sucessor em 9 de janeiro de 2021, Mons. Dominique Blanchet, que "não sabe nada da situação exata", assegura Eric de Moulins Beaufort. "Ele soube disso mais tarde, no decorrer de conversas antes de assumir o cargo." Os bispos não poderiam, portanto, conversar entre si?

Quando Mons. Santier, deixando Creteil, se instala em 2021 na Manche, região de sua origem, nem mesmo o bispo local, Mons. Laurent Le Boulc'h, bispo de Coutances, "conhece a situação exata ou os motivos reais" da renúncia de Mons. Santier. Ele só ficaria sabendo por uma vítima.

Sobre a sanção canônica tomada em outubro de 2021 (que será revelada à imprensa apenas um ano depois), segundo a CEF, a nunciatura informou as duas pessoas vítimas conhecidas, os bispos de Créteil e Coutances e Mons. Dominique Lebrun, arcebispo de Rouen, e o presidente da CEF.

Este último explica hoje que a Congregação para a Doutrina da Fé lhe pediu que informasse seus coirmãos se julgasse útil, "possivelmente verbalmente", o que fez durante a Assembleia Geral de novembro de 2021, a fim de "evitar que os bispos o convidassem a pregar em retiros ou presidir peregrinações”. Mas nem Roma nem o episcopado francês tornaram pública a sanção.

Caso Jean-Pierre Ricard

No caso do Cardeal Jean-Pierre Ricard, a informação já circula há algum tempo. O próprio presidente da CEF afirmou que tomou conhecimento dos fatos há vários meses. “Fiquei sabendo por um telefonema da Irmã Véronique Margron (presidente da Conferência das Religiosos e dos Religiosos da França), enquanto estava em Roma em fevereiro, durante o simpósio sobre o sacerdócio”, explicou Mons. de Moulins Beaufort na terça-feira, 8 de novembro. O simpósio aconteceu de 17 a 19 de fevereiro de 2022 em Roma.

Alguns dias antes, o cardeal Ricard havia sido nomeado delegado pontifício por Roma com Michel Dubost e Laurent Landete, para conduzir uma missão de inspeção nos Foyers de Charité.

Essa nomeação provocou o protesto dos pais da vítima do Cardeal Ricard. Estes últimos, de fato, enviaram uma carta nesse sentido em fevereiro a Mons. Jean-Philippe Nault. Este é bispo da diocese de Digne, onde mora o cardeal. "Após essa carta, Mons. Ricard teria admitido a esse prelado que "beijou" há mais de quarenta anos a filha desse casal, cujo casamento religioso teria celebrado mais tarde", pode ser lido num comunicado do Ministério Público de Marselha.

O promotor também explica que Mons. Nault, que mais tarde se tornou bispo de Nice, levou o caso ao tribunal em 24 de outubro. Ou seja, dez dias após a publicação do artigo sobre o caso Santier pelo semanário Famille chrétienne. Também nesse período, segundo nossas informações, o Cardeal Jean-Marc Aveline, Arcebispo de Marselha, fez contato com o Cardeal Ricard, após informações que lhe chegaram. Este último admite os fatos e o arcebispo de Marselha os relata tanto à justiça quanto às autoridades romanas.

A esmagadora maioria dos bispos tomou conhecimento dos fatos em Lourdes, domingo, 6 de novembro, quando o presidente da CEF lê o comunicado do cardeal Ricard no hemiciclo.

Por que uma notificação tão tardia? Teria sido o tempo necessário entrar em contato com a vítima e convencê-la a fornecer elementos suficientemente fiáveis para fazer essa notificação, afirma hoje o episcopado. Eric de Moulins Beaufort também afirmou que, desde fevereiro, estava em contato com o cardeal sobre esse ponto. "Não foi pela pressão do caso Santier ou porque houve denúncia, mas porque deu um passo interior", disse ainda o presidente da CEF.

Enquanto isso, o cardeal Ricard participou da elevação do bispo Jean-Marc Aveline a cardeal no final de agosto em Roma. Participou também na missa celebrada em sua honra em Saint-Louis-des-Français, numa recepção na embaixada francesa por ocasião da indicação a cardeal do arcebispo de Marselha e no consistório que reuniu todos os cardeais a convite do papa.

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