Capitalismo de plataforma e recomposição de classe

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15 Agosto 2022

 

"Os trabalhadores de aplicativos se constituem hoje na ponta de lança da recomposição de classe que definirá os padrões da relação capital – trabalho das próximas décadas", escreve Cesar Sanson, professor de sociologia do trabalho do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

 

Trabalhadores de aplicativos se mobilizam em São José dos Campos (SP). Foto: Reprodução / Twitte)

 

Eis o artigo.

 

A intensa reestruturação produtiva do capitalismo nas últimas décadas, particularmente do último decênio, com a emergência da Revolução 4.0 colocou em curso a “recomposição de classe” manifesta nos trabalhadores de aplicativos. Estes trabalhadores, em suas resistências e lutas, indicam que o capitalismo de plataforma está em aberto, não é ainda vitorioso e acachapante como muitos pensam.

 

O capitalismo de plataforma, aliás, é resultante de certa forma do rearranjo do capital para “driblar” a resistência operária. As lutas operárias dos anos 1960 e 1970 do século passado, como indica a teoria social do operaísmo, em sua recusa ao labor fordista forçaram o capital a procurar novos arranjos produtivos para dar sequência em sua saga de acumulação. A reestruturação produtiva, portanto, não pode ser interpretada apenas como um movimento do capital em sua renovação, a partir de inovações tecnológicas, mas como resposta às lutas dos trabalhadores.

 

Chegamos, assim, à substituição do operário metalúrgico pelo trabalhador de aplicativo. Substituição no processo de acumulação do capital e substituição no processo de luta de classes. Na Era do capitalismo siderúrgico, do ferro, se jogaram as tensões, as lutas e os desejos da sociedade à época; hoje, no capitalismo de plataforma, joga-se o tempo que está por vir. Um tempo em aberto, em que capital e trabalho travam uma luta diária, às vezes silenciosa e às vezes barulhenta.

 

As empresas proto paradigmáticas do capitalismo de plataforma do século XXI como Ifood e Uber estão distantes de vencer a batalha e instaurar o seu reino. Assim como as lutas travadas à época da indústria têxtil dos séculos XVIII e XIX e da indústria metalmecânica do século XX definiram os padrões da sociedade do trabalho de ontem, as empresas de plataforma e seus trabalhadores se encontram em meio a uma luta que definirá os padrões da relação capital – trabalho das próximas décadas.

 

O embate está posto. De um lado, as empresas de aplicativos, governadas pelo capital financeiro e, de outro, trabalhadores em suas bicicletas, motos financiadas e carros de segunda mão. De um lado, dispositivos pouco transparentes, comandados por algoritmos ocultos que organizam e espoliam o trabalho e, de outro, jovens, em sua maioria, que sabem que estão sendo ludibriados e não reconhecidos pelo seu insano labor.

 

A resistência, entretanto, faz-se presente na recusa ao disciplinamento, na burla ao aplicativo, na ação coletiva e solidária pela melhoria de renda e condições de trabalho. As empresas atentas à rebeldia do “novo operário” se desdobram em inventar novos mecanismos que mantenham os seus “colaboradores” disciplinados. E, assim, dialeticamente, travam-se pequenas lutas que se tornarão grandes lutas e definirão o novo padrão da sociedade do trabalho.

 

Descendo ao chão do asfalto – o chão de fábrica de hoje – percebe-se o enfrentamento diário dos trabalhadores de aplicativos contra os patrões sem rosto [1] e de como esta batalha vai configurando e re-configurando situações e condições de trabalho. Um exemplo é a criação, no Ifood, do trabalhador Operador Logístico (OL). Esta plataforma de entregas originariamente se constituía apenas com trabalhadores “nuvem”, condição em que o trabalhador escolhe os horários em que quer trabalhar, sem jornada de trabalho definida, conectando-se ou desconectando-se da plataforma de acordo com as suas conveniências. Posteriormente, a empresa criou o Operador Logístico, em que o trabalhador tem que cumprir escala e jornada de trabalho compulsória, não podendo faltar, escolher os dias ou horários de trabalho, rejeitar pedidos de entrega, além de várias outras exigências.

 

O Operador Logístico foi criado porque a empresa percebeu que, em determinados horários, principalmente nos finais de semana, faltavam entregadores disponíveis para atender a demanda. O Operador Logístico surge da resistência ao disciplinamento, da importância que os trabalhadores dão à folga, ao lazer com a família e amigos. Com bonificações e prioridades dadas pelos algoritmos ao Operador Logístico, este ganha mais, porém, esfolam-se em jornadas insanas, condições climáticas adversas e trânsito de horários infernais.

 

Não é gratuito que alguns entregadores que se encontram na “nuvem” chamam jocosamente os seus colegas OL de “otários ligados”, numa referência ao fato de que estes nunca podem se desligar do aplicativo. É bastante comum a transição da “nuvem” para o Operador Logístico e o retorno para a “nuvem” em função da insanidade de trabalho que exige esta condição de trabalho OL. Prefere-se ganhar menos a trabalhar tanto.

 

Uma miríade de resistências se manifesta no dia a dia para driblar o aplicativo que, apesar de pretensa perfeição tecnológica, deixa em apuros os trabalhadores. No conjunto de resistências, uma das mais utilizadas é recusar entregas, seja em função da localidade ou do valor irrisório, utilizando-se do recurso de “não atender” o aplicativo, como um telefone que toca à exaustão e acaba por desligar. Como em um jogo de gato e rato, as empresas vão alterando a sua tecnologia, o código dos seus algoritmos, as suas regras para responder às lutas dos trabalhadores, muitas vezes tendo que ceder aos entregadores.

 

A luta maior, entretanto, está em curso, a exigência do mínimo de segurança salarial com pisos de ganhos estabelecidos, seguro saúde em caso de acidentes, seguro de roubo, fim dos bloqueios unilaterais dos aplicativos, transparência dos critérios utilizados pelos algoritmos. Nas reivindicações não está posto um retorno ao fordismo em sua versão CLT. Luta-se por dignidade com liberdade.

 

Outro patamar do embate é o recurso do conhecimento, aberto e imaterial, que pode e está sendo apropriado pelos entregadores na versão da formação de cooperativas autogestionárias, com ganhos partilhados entre os trabalhadores. Trata-se de uma possibilidade que rema contra a cultura do individualismo.

 

Em suma, é preciso problematizar a narrativa de que os entregadores são presas fáceis do discurso do empreendedorismo e de que se encontram atomizados. Ao contrário, é a valorização da autonomia, da preservação da dignidade que não que se quer deixar subordinar ao disciplinamento fordista que permite a identidade, ante-sala da consciência de classe. Está em curso uma recomposição de classe.

 

Nota

 

[1] CANT, Callum. Delivery Fight! – A luta contra os patrões sem rosto. São Paulo, Veneta, 2021.

 

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