“Estamos à mercê de deuses menores.” Entrevista com Eric Emmanuel Schmitt

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15 Agosto 2022

 

Ele é um dos escritores franceses mais lidos no mundo. Presidente do júri do prestigioso Prêmio Goncourt, o mais importante reconhecimento literário francês, Eric-Emmanuel Schmitt estará no Meeting de Rimini no dia 22 de agosto para um diálogo com o poeta e romancista Daniele Mencarelli sobre “A irredutibilidade do homem”: uma viagem entre Etty Hillesum, Osip Mandel’štam, Primo Levi e Edith Bruck, em busca daquilo que permanece intocável em cada pessoa.

 

A reportagem é de Lorenzo Fazzini, publicada em Avvenire, 12-08-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Schmitt, autor de romances de grande sucesso como “O Evangelho segundo Pilatos” (Ed. Ediouro, 2022) e “Oscar e a senhora rosa” (Nova Fronteira, 2003), embarcou recentemente em um projeto muito ambicioso: o relato romanceado de toda a história humana, em oito volumes, intitulado “A travessia dos tempos”; o primeiro volume, “Paraísos perdidos”, acaba de chegar às livrarias italianas.

 

“Nós, homens, erramos em culpar os deuses e os espíritos. Como não entendemos as suas intenções, imaginamo-los absurdos, violentos, ilógicos, arbitrários, coléricos, instáveis e vingativos, enquanto deveríamos confiar na clarividência deles. Eles não são maus nem estúpidos, são previdentes. Em vez de duvidar da inteligência deles, deveríamos duvidar da nossa, que logo alcança os próprios limites.”. Esta é uma citação do seu último romance, que, mutatis mutandis, também poderia ser aplicada ao Deus monoteísta.

 

Eis a entrevista.

 

Por que estamos à mercê de um racionalismo tão reducionista?

 

Pessoalmente, noto que, quando não cremos mais em Deus, acabamos crendo em tudo. A partir do momento em que o monoteísmo cristão deixou de ter autoridade na nossa sociedade ocidental, a crença como que voltou a fluir para qualquer crença, uma espécie de religiosidade supersticiosa que leva o nome de numerologia, astrologia e afins. Parece-me que nos encontramos prisioneiros de uma certa esquizofrenia, uma espécie de ruptura interior entre o crer racional e a crença. Acredito que, dentro do cristianismo, é possível exercitar a racionalidade e o espírito crítico. E, quando isso falha, sofre-se uma grande e grave perda. Quisemos limitar a racionalidade à lógica, à matemática, à filosofia analítica. Mas a perda da racionalidade no crer nos fez perder uma ancoragem importante na reflexão sobre o mundo e sobre a vida.

 

“Fantasiar nos salva”, diz um personagem de “Paraísos perdidos”. Diante do drama do mundo, o romance pode nos salvar?

 

Pessoalmente, eu distinguiria entre ficção e literatura. Há ficções que não buscam a verdade e limitam o senso do indivíduo. Por outro lado, a literatura é a interrogação da complexidade, muito mais do que a filosofia, por exemplo. De fato, os filósofos costumam querer chegar à unidade da verdade, enquanto, se pensarmos na Grécia antiga, os literatos da época, ou seja, os tragediógrafos, põem em cena visões diferentes do mundo e as fazem colidir umas contra as outras: a “Antígona” de Sófocles é um exemplo disso. A literatura pode nos dar uma concepção mais rica do mundo. Por isso, eu acho que a ficção nos dá respostas, enquanto a literatura tem a tarefa de indagar.

 

No Meeting de Rimini, você falará sobre a irredutibilidade do homem. O que há de verdadeiramente irredutível na pessoa?

 

Na minha opinião, o que define o ser humano é a capacidade de se fazer perguntas e o fato de viver na contradição. Sim, o ser humano é um animal interrogante. Às vezes, ele se detém em respostas que se tornam absolutas, e aqui nasce a intolerância; outras vezes, ele deixa as perguntas em aberto e assim continua a sua busca. Os seres humanos são irmãos nas suas perguntas: o que pode realmente nos unir a todos é o sentido e o fato de fazer perguntas. Mesmo quando somos pessoas de fé, as perguntas e as interrogações devem continuar alimentando a nossa busca.

 

E por que o ser humano é contraditório?

 

Porque é habitado por tensões contínuas: aquela entre egoísmo e altruísmo, por exemplo. O ser humano é egoísta por natureza, mas tem um coração que ama e vive essa tensão. O ser humano é um lugar dinâmico onde nada está definido para sempre. É próprio do ser humano ser um sujeito em movimento interior.

 

Quais autores, de ontem e de hoje, você recomendaria a um millennial que quer se apaixonar pelo humano?

 

Certamente Dostoiévski, com os seus romances fundamentais “Os irmãos Karamazov” e “Crime e Castigo”. Depois Camus, com “A Peste”. Entre os contemporâneos, Ismail Kadare.

 

Por que esses nomes?

 

Porque são autores que fazem o leitor refletir por meio dos seus romances: não pensam no lugar do leitor, dão elementos para pensar e para refletir sobre o que é certo e errado.

 

O título do Meeting é “Uma paixão pelo homem”. Na sua carreira literária, você investigou Jesus, Hitler, as religiões, a figura feminina, a música... Diante de guerras, pandemias e catástrofes climáticas, por que ainda deveríamos nos apaixonar pelo humano?

 

Acho que o motor do progresso na história é o mal, ou seja, são as desgraças que fazem a humanidade avançar. São necessárias as guerras para que se chegue a um sujeito internacional como as Nações Unidas; é preciso uma pandemia para entender o que e como é importante a saúde global; é preciso a seca para compreender como é severo o aquecimento climático. A humanidade não avança para o melhor, mas para o menos pior. Nisto eu sou discípulo de Kant. Mas, apesar disso, continuo sendo um otimista ou, melhor, um otimista trágico.

 

Mesmo assim, otimista?

 

Certamente.

 

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