“O monoteísmo cristão contra a violência”. Documento da Comissão Teológica Internacional

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Por: André | 17 Janeiro 2014

A Comissão Teológica Internacional, após um estudo realizado durante os últimos cinco anos, elaborou um novo documento intitulado “Deus Trindade, unidade dos homens. O monoteísmo cristão contra a violência”. O texto aparecerá no fascículo 3296 da revista La Civiltà Cattolica (18 de janeiro de 2014|), revista que tradicionalmente publica a versão italiana dos documentos da Comissão. Ao mesmo tempo, o documento será publicado a partir de agora no sítio da revista, além de no sítio da Comissão Teológica Internacional do Vaticano, onde, à espera das diversas traduções, encontra-se também a apresentação do texto em algumas línguas.

 
Fonte: http://bit.ly/1asE5of  

A reportagem está publicada no sítio Vatican Information Service, 16-01-2014. A tradução é de André Langer.

Como consta na Nota preliminar do documento, o texto é fruto de estudos sobre alguns aspectos do discurso cristão sobre Deus, confrontando-se em particular com as teorias segundo as quais existiria uma relação necessária entre o monoteísmo e a violência. O texto foi preparado por uma subcomissão formada pelo Rev. Peter Damian Akpunonu, Pe. Gilles Emery, O.P., Dom Savio Hon Tai-Fai, S.D.B., Dom Charles Morerod, OP, Rev. Thomas Norris, Rev. Javier Prades López, Dom Paul Rouhana, Rev. Pierangelo Sequeri, Rev. Philippe Vallin (Presidente) e pelo Rev. Guillermo Zuleta Salas.

As discussões gerais sobre este tema realizaram-se em vários encontros da Subcomissão e durante as Sessões Plenárias da Comissão, que aconteceram entre 2009-2013. O texto foi aprovado pela Comissão "em forma específica" em 6 de dezembro 2013, e entregue, em seguida, ao Presidente, Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que autorizou a sua publicação.

Eis a apresentação do documento “Deus Trindade, unidade dos homens. O monoteísmo cristão contra a violência”, da Comissão Teológica Internacional.

O texto de reflexão teológica que apresentamos destina-se a evidenciar alguns aspectos do discurso cristão sobre Deus que, no contexto atual, exigem um esclarecimento teológico específico. A ocasião imediata deste esclarecimento é a teoria, exposta com argumentos de índole diversa, segundo a qual existe uma relação necessária entre o monoteísmo e as guerras de religião. A discussão em torno desta relação revelou numerosos motivos de incompreensão da doutrina religiosa, a ponto de obscurecer o autêntico pensamento cristão do único Deus.

Poderíamos resumir o propósito do nosso discurso numa dupla pergunta: (a) de que maneira a teologia católica pode confrontar-se criticamente com a opinião cultural e política que estabelece uma relação intrínseca entre monoteísmo e violência? (b) de que maneira a pureza religiosa da fé no único Deus pode ser reconhecida como princípio e fonte do amor entre os homens?

A nossa reflexão pretende apresentar-se em chave de testemunho argumentado, e não de contraposição apologética. A fé cristã vê e reconhece na instigação à violência em nome de Deus a máxima corrupção da religião. O cristianismo desemboca nesta convicção a partir da revelação da própria intimidade de Deus, que nos chega através de Jesus Cristo. A Igreja dos crentes é consciente do fato de que o testemunho dessa fé exige ser honrado por uma atitude de conversão permanente: que implica igualmente a "parresía" (ou seja, a franqueza corajosa) da necessária autocrítica.

No Capítulo I, “Suspeitas sobre o monoteísmo”, propusemo-nos clarificar o tema do "monoteísmo" religioso na acepção que recebe e adquire em certas orientações da hodierna filosofia política. Estamos conscientes de que tal evolução exibe, hoje, um espectro muito diferenciado de posições teóricas, que vão desde o fundo clássico do ateísmo dito humanista às formas mais recentes do agnosticismo religioso e do laicismo político. A nossa reflexão visaria, antes de mais, sublinhar que a noção de monoteísmo, não destituída de significado para a história da nossa cultura, permanece ainda demasiado genérica, quando se utiliza como cifra de equivalência das religiões históricas que professam a unicidade de Deus (identificadas como Judaísmo, Islamismo, Cristianismo). Em segundo lugar, formulamos a nossa reserva crítica em face de uma simplificação cultural que reduz a alternativa à escolha entre um monoteísmo necessariamente violento e um politeísmo supostamente tolerante.

De qualquer forma, nesta reflexão anima-nos a convicção, que por motivos vários consideramos partilhada por muitíssimos contemporâneos nossos, crentes e não-crentes, de que as guerras inter-religiosas, assim como também a guerra contra a religião, são de todo insensatas.

Em seguida, como teólogos católicos e à luz da verdade de Jesus Cristo, procuramos ilustrar o nexo entre revelação de Deus e humanismo não-violento. Fizemo-lo mediante a reexposição de algumas implicações da doutrina peculiarmente apropriadas para iluminar o debate atual: quer no tocante à autêntica compreensão da confissão trinitária do Deus único, quer no que diz respeito à abertura da revelação cristológica para a recuperação do vínculo entre os homens.

No Capítulo II, “A iniciativa de Deus no caminho dos homens”, indagamos o horizonte da fé bíblica, com especial atenção ao tema das suas "páginas difíceis": aquelas em que a revelação de Deus surge envolvida nas formas da violência entre os homens. Tentamos identificar os pontos de referência que a própria tradição escriturística realça – no seu seio – para a interpretação da Palavra de Deus. Com base neste reconhecimento, oferecemos um primeiro esboço de enquadramento antropológico e cristológico dos desenvolvimentos da interpretação do tema, requeridos pela condição histórica atual.

No Capítulo III, “Deus, para nos livrar da violência”, propomos um aprofundamento do evento da morte e da ressurreição de Jesus, na chave da reconciliação entre os homens. A oikonomia é aqui essencial para a determinação da theologia. A revelação inscrita no acontecimento de Jesus Cristo, que torna universalmente relevante e apreciável a manifestação do amor de Deus, permite neutralizar a justificação religiosa da violência com base na verdade cristológica e trinitária de Deus.

No Capítulo IV, “A fé confrontada com a amplitude da razão”, a nossa reflexão empenha-se na clarificação das aproximações e implicações filosóficas do pensamento de Deus. Abordam-se aqui, antes de mais, os pontos de discussão com o ateísmo atual, largamente presente e concentrado nas teses de um naturalismo antropológico radical. Por fim – também em prol do confronto inter-religioso sobre o monoteísmo – propomos uma espécie de meditação filosófico- teológica sobre a integração entre a revelação da íntima disposição relacional de Deus e a concepção tradicional da sua absoluta simplicidade.

No Capítulo V, “Os filhos de Deus dispersos e reunidos”, por último, condensamos os elementos da especificidade cristã que definem o empenho do testemunho eclesial na reconciliação dos homens com Deus e de uns com os outros. A revelação cristã purifica a religião, no próprio momento em que lhe restitui o seu significado fundamental para a experiência humana do sentido. Por isso, no nosso convite à reflexão temos bem presente a necessidade especial – sobretudo no horizonte cultural de hoje – de tratar sempre conjuntamente o conteúdo teológico e o desenvolvimento histórico da revelação cristã de Deus.

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