Dostoiévski: no caos da vida real. Entrevista com Federica Bergamino

Fiódor Dostoiévski. (Foto: Eugenio Hansen, OFS | Flickr CC)

12 Novembro 2021

 

No dia do bicentenário de nascimento de Fiódor Dostoiévski, propomos às nossas leitoras e leitores uma entrevista com Federica Bergamino, professora associada de Antropologia e Literatura na Faculdade de Comunicação Social da Universidade Santa Croce de Roma. A professora Bergamino é a organizadora do livro Dostoevskij, abitare il mistero [Dostoiévski, habitar o mistério] (EDUSC, 2017).

 

A entrevista é de Giordano Cavallari, publicada por Settimana News, 11-11-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

 

Professora Bergamino, pode nos dizer como, na sua trajetória de pesquisa, chegou a se ocupar de Dostoiévski?

Sou filósofa e apaixonada pela literatura. Os meus estudos e as minhas pesquisas sempre se voltaram para a análise da pessoa humana. Nos últimos anos, graças também à descoberta do papel da experiência direta para a aprendizagem, a literatura tornou-se um âmbito concreto de exploração, pois estou convencida de que ela ajuda a ler o ser humano de uma forma complementar à filosofia: não por abstração, mas por experiência, uma experiência especial, vicária de alguma forma, mas muito real.

Eu sempre cito o colega José García Noblejas, que, pela primeira vez, me ajudou a perceber como todo romance é, de certa forma, uma pessoa; os personagens são as suas diferentes partes, as suas experiências, as suas vivências interiores e exteriores.

Por isso, criei a disciplina que leciono atualmente – Antropologia e Literatura –, na qual acompanho os estudantes na leitura dos romances e, portanto, na descoberta do ser humano, nas suas constantes universais e nas diferenças históricas e individuais. Esse é o contexto dos meus estudos sobre Dostoiévski.

 

Pode nos falar sobre o livro que você editou sobre Dostoiévski?

O livro “Dostoiévski, habitar o mistério” é a coletânea de uma série de conferências realizadas no centenário da revolução na Rússia. Com o centro de pesquisas da minha universidade – “Poética e Cristianismo” – achei que seria interessante vivenciar o aniversário celebrando uma figura de destaque no mundo cultural russo, escolhendo um autor capaz de falar aos homens e às mulheres de todo o mundo com um grande amor pela terra russa e pelo povo russo.

Assim, convidamos estudiosos especialistas em Dostoiévski, acima de tudo para aprofundar o modo especial com que Dostoiévski leva a tocar a realidade na sua dimensão mais profunda, até ao mistério.

Eu já havia escrito sobre Dostoiévski, porque é um autor que se presta a explorar diversas facetas do ser humano, captando de forma poderosa a sua abertura à transcendência.

Sempre me fascinei pelo modo de Dostoiévski esboçar figuras – como a de Sônia em “Crime e castigo”, de Alexei em “Os irmãos Karamazov” ou do príncipe Michkin em “O idiota” – com uma candura, uma pureza e uma gratuidade que não parecem ser “deste mundo”, aproximando-as, depois, a personagens como Raskolnikov em “Crime e castigo” com os seus sentimentos de culpa, ou Smerdiakov ou Fiódor Karamazov em “Os irmãos Karamazov”.

 

 

É possível falar de um cânone narrativo em Dostoiévski? Peço-lhe que se detenha nas obras talvez mais lidas e conhecidas: “Crime e castigo” e “Os irmãos Karamazov”.

Não sei se posso dizer que detectei um cânone nos romances de Dostoiévski e, em particular, nesses que você cita. Eles foram escritos em épocas diferentes: “Crime e castigo” foi publicado em 1866, enquanto as primeiras publicações de “Os irmãos Karamazov” são de mais de 10 anos depois, ou seja, em 1879. Obviamente são dois best-sellers do autor, talvez os seus dois romances mais lidos no mundo, de fato.

Crime e castigo” é uma espécie de romance psicológico: ao lê-lo, em muitas partes, somos transportados para a mente de Raskolnikov. Certamente, o tema dominante do romance é o da culpa e, portanto, da necessidade de expiação da culpa. Cada leitor é levado a se confrontar com os raciocínios de Raskolnikov, com os seus próprios sentimentos de culpa, até o ponto da identificação.

Acho extremamente interessante o modo como Dostoiévski leva Raskolnikov a mudar interiormente a partir do momento em que entra em contato com a bondade de Sônia e, então, como essa relação de amor, pouco a pouco, faz com amadureça nele a necessidade – cada vez mais urgente – de declarar a sua culpa, que, de outra forma, ninguém jamais poderia descobrir ou provar.

Os irmãos Karamazov” constituem uma espécie de metáfora da vida, proposta por meio de uma verdadeira saga familiar, em que os personagens e os entrelaçamentos entre eles são múltiplos. A narrativa é decididamente diferente de “Crime e castigo”: por exemplo, não há um único protagonista, mas os protagonistas são muitos, como, aliás, na vida real. Mas em “Os irmãos Karamazov” também há uma figura que se destaca imediatamente.

Se, em “Crime e castigo”, é a figura de Sônia que se destaca com uma luz particular, em “Os irmãos Karamazov” é Alexei. Dostoiévski evidencia isso desde o início do romance. Ele é o seu “herói”, mas o seu heroísmo é totalmente diferente daquele classicamente entendido. Alexei é uma espécie de mediador, uma figura que atua quase nos bastidores.

Na leitura antropológico-psicológica que eu proponho de “Os irmãos Karamazov”, a emoção dominante – aquela que move os personagens “a partir de dentro” – não é tanto a culpa, mas sim a vergonha.

 

Você escreveu que “Dostoiévski desmascara o moralismo da vergonha”: pode explicar o que entende por cultura ou moral da vergonha, que você também distingue da cultura ou da moral da culpa?

A distinção entre a “cultura da vergonha” e a “cultura da culpa” deve ser atribuída a Ruth Benedict, uma antropóloga estadunidense que cunhou tais definições em seu livro dos anos 1940, intitulado The Chrysanthemum and the Sword. Patterns of Japanese Culture.

Em síntese extrema, Benedict traça a cultura da culpa na cultura ocidental, na qual, quando o sujeito comete um crime – ou subverte um certo código de comportamento da sua religião ou sociedade –, ele sente remorso interiormente e sente culpa, mesmo que o seu crime não seja descoberto por ninguém.

Já na cultura da vergonha – identificada por Benedict na cultura oriental e, especificamente, na cultura japonesa por ela estudada – o pensamento e o agir moral da pessoa dependem essencialmente do julgamento externo à própria pessoa. Portanto – nesse contexto diferente – a culpa não é percebida no remorso interior, mas sim na condenação por parte da sociedade.

Na minha leitura interpretativa, uma cultura que tem o seu eixo na vergonha gera uma moral completamente voltada para o exterior. Portanto, o que move o comportamento do sujeito, para o bem ou para o mal, é aquilo que os outros pensam dele – ou, melhor, aquilo que ele considera que é o pensamento dos outros sobre ele mesmo.

De fato, a vergonha é aquela emoção que nasce de um olhar interior que é o julgamento negativo do outro sobre si. Considero que, nesse caso, é possível falar de “moralismo”, ou seja, daquele conjunto de deveres formais – vazios – aos quais nos assujeitamos, não porque se queremos, mas porque, de algum modo, nos adequamos ao mundo exterior. Acredito que a nossa sociedade ocidental atualmente se reconhece mais em uma cultura da vergonha do que da culpa.

 

Então, onde você vê a “vergonha” aflorar na obra de Dostoiévski?

Acho que a vergonha é uma das emoções mais experimentadas pelos personagens de Dostoiévski: nós a encontramos, com expressões diversas, em quase todas as suas obras. Estudei essa emoção em particular em “Os irmãos Karamazov” e acho que encontrei uma chave de leitura interessante dos membros da família Karamazov, assim como de outros personagens, como, por exemplo, Katerina na sua relação com Dmitri Karamazov.

Na família Karamazov, a vergonha se evidencia fortemente no pai Fiódor, que se percebe mesquinho, não à altura dos outros que o cercam: envergonhando-se profundamente na frente dos outros, por medo de ser ridicularizado, ele exorciza a vergonha transformando-se em bufão, mas, continuando a se esconder na farsa, perde o seu eu autêntico e, assim, exorcizando a vergonha, passa a viver como “sem vergonha”.

O seu comportamento gera reações diferentes nos seus filhos, tanto de agressividade quanto de evitamento: emoções que carregam, porém, em raiz, o mesmo medo do olhar julgador do outro.

Provavelmente, o suicídio de Smerdiakov também tem o seu princípio no não reconhecimento – portanto, no julgamento negativo – por parte de Ivan, o único que, entre os irmãos, é uma referência para ele. Muitos estudos confirmam a tese de que o suicídio, em muitos casos, deriva de um intenso sentimento de vergonha, capaz de dar origem àquela agressividade contra si mesmo que leva a se esconder e, portanto, a se anular até mesmo fisicamente.

 

Como os personagens de Dostoiévski saem – ou não saem – do sentimento de vergonha?

Em “Os irmãos Karamazov”, há um personagem que, embora sentindo a sua parte de vergonha, como evidenciado por algumas circunstâncias do romance, não se mostra submisso à moral da vergonha, nem é dominado por esse sentimento: trata-se de Alexei. Alexei mantém essencialmente – sobre si e sobre os outros – um olhar não julgador, benevolente, de total acolhida, especialmente diante do limite extremo e da dor extrema do outro.

A sua simples presença – com o seu olhar límpido – tem um efeito benéfico sobre os irmãos. Alexei assume o papel-chave do romance justamente por causa desse olhar. Ele ajuda os irmãos a curarem, pelo menos em parte, as feridas paternas e, assim, a amadurecerem uma visão diferente da vida. É o caso de Dimitri, que, sentindo um forte sentimento de injustiça, encontra, depois, o caminho da sua conversão interior, assim como de Ivan, que, na doença, inicia o seu caminho de aceitação do real.

 

Reprodução da obra Manhã de Inverno na Praça Vermelha, de Ivan Sorokin (1987)

 

Da vergonha ao perdão: esse é o destino de Dostoiévski?

Em “Os irmãos Karamazov”, Dostoiévski mostra que saímos da espiral da vergonha por meio da aceitação da realidade de nós mesmos. O processo nada simples que vai da vergonha ao perdão passa do olhar julgador do outro que projeta o sujeito que está desconectado de si mesmo à conexão autêntica consigo mesmo.

Em muitos casos, o processo de conexão e de aceitação de si mesmo passa pelo fato de algum outro ser capaz de aceitar, acolher e perdoar o sujeito que se envergonha. Em “Os irmãos Karamazov”, tal processo entre os irmãos ou entre alguns deles ocorre por obra de Alexei.

 

Pode-se falar, portanto, da presença de figuras “crísticas” nas obras de Dostoiévski?

Na minha opinião, Sônia, o príncipe Michkin e Alexei são figuras cristológicas em Dostoiévski, ou seja, figuras que possuem os traços que os tornam, mesmo no mundo, não deste mundo. São pessoas benéficas porque buscam o bem do outro, de forma gratuita, pura, até o sacrifício profundo de si mesmas. Eu diria que essa manifestação do bem é fortíssima em Sônia e Michkin, figuras nas quais a percepção da dimensão ultraterrena é tornada muito clara pela sua humanidade diferente e alternativa. Ao mesmo tempo que Alexei também mostra a sua parte humana mais fraca, com dúvidas e momentos de hesitação: por isso, talvez seja a figura crística mais verossimilmente “humanizada”.

 

Como a fé cristã – no caso, ortodoxa – é percebida na obra de Dostoiévski?

Acho que a literatura de Dostoiévski está permeada pela sua , embora ele absolutamente não seja um autor apologético. Nos seus romances, principalmente em “Os irmãos Karamazov”, Dostoiévski transmite o cristianismo de uma forma, a meu ver, muito evidente. Basta pensar no fim, na figura de Dimitri que sentencia: “A justiça não é deste mundo, porque um inocente é condenado”. Depois, há a figura sacerdotal de Alexei, a conversão de Zósima, com o importante papel desempenhado pelo perdão.

Acho que a fé e a visão cristãs estão muito presentes, mas certamente não se trata de uma fé postiça ou pregadora: é a fé de quem não tem medo de pôr em discussão, de alguma forma, a própria figura de Cristo – em particular na “lenda do grande inquisidor” –, ou seja, a fé que faz as grandes perguntas, especialmente sobre o sofrimento dos inocentes. Isto é, é a fé de quem se defronta com todas as dúvidas de quem crê.

 

 

Qual é a atualidade de Dostoiévski? Por que recomendar a sua leitura?

Na minha opinião, Dostoiévski fala ao homem e à mulher contemporâneos de formas diferentes e por motivos diferentes. Elenco apenas alguns deles, aqueles que eu mais aprofundei pessoalmente.

Por um lado, Dostoiévski mergulha na alma humana, na dor do ser humano, sem medo de trazer à tona todo o pior. E isso certamente rompe o pessimismo de todos ou de muitos de nós. Por outro lado, isso é perceptível na sua forte autenticidade de escrita, voltada a explorar cada ser humano por meio de si mesmo e da sua busca interior.

Do ponto de vista antropológico, pode-se notar que o próprio perdão só chega na sua última obra. Raskolnikov, por exemplo, nunca chega a se perdoar: o tema do perdão de si mesmo, em “Crime e castigo”, ainda não está presente: fala-se de expiação, não de perdão. Evidentemente, expiação e perdão têm sentidos profundamente diferentes.

Por outro lado, em “Os irmãos Karamazov”, o perdão está fortemente presente, tanto na história de Zósima quanto de Gruschenka e de Dimitri. Portanto, acho que o perdão – e especificamente o perdão de si mesmo – é algo que o próprio Dostoiévski estava procurando e amadurecendo no seu caminho interior. E tal busca e amadurecimento chegam até nós nos seus escritos.

Por último, gostaria de sublinhar que a sociedade contemporânea gera uma série de expectativas que favorecem o enfurecimento da moral da vergonha que eu mencionei. Dostoiévski – submisso a essa moral – se libertou ou tentou se libertar dela de todas as formas –, e as suas obras podem ser um caminho a percorrer com ele rumo a essa libertação, na relação com os seus personagens, por meio daqueles olhares que libertam.

 

 

Então, por que, em última análise, precisamos ler e reler Dostoiévski hoje?

Porque mergulhar na leitura da obra de Dostoiévski significa mergulhar no caos da vida real, talvez sem entender imediatamente nada. No entanto – continuando a ler – tem-se a sensação de estar acompanhado por um ser humano autêntico – acima de tudo autêntico consigo mesmo – e, portanto, por um ótimo companheiro de viagem, que não oferece respostas fáceis e certas às nossas perguntas, mas que simplesmente cabe a nós, leitores, escolher. Dostoiévski sempre nos deixa livres e, portanto, responsáveis. Ele traça caminhos a partir dos quais podemos entrever aonde podemos chegar, decidindo-nos por um caminho ou outro.

 

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