O que Thomas Merton nos fala sobre a lógica do Evangelho contra a lógica da nossa sociedade. Artigo de Daniel P. Horan

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11 Agosto 2022

 

“Talvez os exames de consciência individuais e coletivos estejam muito atrasados para avaliar o quão 'são' nosso cristianismo realmente é e se estamos ou não dispostos a seguir Jesus Cristo com todas as consequências insanas que isso implica ou simplesmente continuar nos iludindo em adorar o 'Deus da América'”, escreve Daniel P. Horan, franciscano estadunidense, diretor do Centro de Espiritualidade e professor de Filosofia, Estudos Religiosos e Teologia no Saint Mary’s College, nos Estados Unidos, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 10-08-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Tendo li, escrito, ensino, orientado retiros e palestras sobre os escritos de Thomas Merton por muitos anos, eu estou acostumado a encontrar um leque de respostas dado pelas pessoas ao trabalho espiritual e à sabedoria do finado monge escritor.

 

Geralmente falando, aquele que tem realmente dedicado tempo para aprender sobre Merton – sua fidelidade a sua fé católica, sua abertura ao diálogo com outras tradições, sua análise social aguçada e crítica, e o amplo arco de tópicos e pensadores que ele engajou ao longo de sua trágica vida curta (1915-68) – são normalmente interessados e inspirados pelos seus pensamentos e escritos.

 

Ainda, alguns dos escritos de Merton podem ser particularmente desafiadores e inquietantes, mesmo para aqueles que o admiram e tem lido seu trabalho. Seus escritos sobre justiça racial, guerra e não-violência, e outros assuntos urgentes relacionados à justiça social podem provocar uma lista de reações, incluindo resistência e defesa, especialmente quando os insights de Merton batem nos nervos da consciência de um.

 

Um ensaio de Merton que sempre provoca reações fortes quando eu dou aulas em um curso ou fala sobre em uma palestra é “A Devout Meditation in Memory of Adolf Eichmann” (“Uma meditação devota em memória de Adolf Eichmann”, em tradução livre) da coleção de ensaios “Raids on the Unspeakable” (1966. “Incursões sobre o indizível”, em tradução livre).

 

A breve, mas poderosa reflexão de Merton sobre o julgamento de 1961 do notório líder nazista Adolf Eichmann começa com a seguinte observação: “Um dos fatos mais perturbadores que surgiram no julgamento de Eichmann foi que um psiquiatra o examinou e o declarou perfeitamente são. Eu não duvido disso, e é precisamente por isso que acho perturbador”.

 

Ele então reflete sobre o que a filósofa Hannah Arendt chama de “banalidade do mal” em seu próprio relato e análise do julgamento de Eichmann em seu livro “Eichmann em Jerusalém” (1963).

 

Merton observa que Eichmann não era o monstro ou “psicótico” que o mundo imaginava ser um mentor nazista. Ele era, segundo todos os relatos, um funcionário chato, medíocre, “imperturbável, conscientemente cuidando de seu trabalho de escritório, seu trabalho administrativo que por acaso era a supervisão de assassinatos em massa”.

 

É essa verdade perturbadora que levou à dura reação contra o livro de Arendt na década de 1960 e é o que incomoda tantos leitores do ensaio de Merton hoje. Merton usa o diagnóstico psicológico da sanidade de Eichmann como um ponto de partida para considerar quanto mal – não apenas o horror indescritível do Holocausto – é perpetrado diariamente por mulheres e homens “sãos”, “racionais”, “comuns”, “lógicos”.

 

Merton escreve: “A sanidade de Eichmann é perturbadora. Igualamos sanidade com senso de justiça, com humanidade, com prudência, com a capacidade de amar e compreender outras pessoas. Contamos com as pessoas sãs do mundo para preservá-lo da barbárie , loucura, destruição. E agora começamos a perceber que são precisamente os sãos que são os mais perigosos”.

 

Termos como “são” e “insano” são hoje considerados inadequados quando se referem a doenças mentais, mas classificações como “são” e “racional” ainda podem ser úteis quando se pensa em como essas coisas são determinadas por culturas específicas. Uma pessoa é considerada “” se estiver conforme as expectativas da sociedade em que vive e trabalha.

 

Merton escreve: “Não podemos mais presumir que porque um homem é 'são' ele está, portanto, em seu 'bom juízo'. Todo o conceito de sanidade em uma sociedade onde os valores espirituais perderam seu significado é em si sem sentido”.

 

Como se o reconhecimento de que males terríveis podem ser perpetrados por pessoas comuns – burocratas e trabalhadores de escritório – e não apenas por monstros fantásticos e psicóticos não fosse suficiente para o leitor, Merton faz um movimento importante que ilumina a análise do próprio cristianismo.

 

O que temos para igualar “sanidade” a “cristianismo”? Nada, obviamente. O pior erro é imaginar que um cristão deve tentar ser “são” como todo mundo, que pertencemos ao nosso tipo de sociedade. Que devemos ser “realistas” sobre isso. Devemos desenvolver um cristianismo são: e houve muitos cristãos sãos no passado. A tortura não é novidade, não é? Devemos ser capazes de racionalizar um pouco de lavagem cerebral e genocídio, e encontrar um lugar para a guerra nuclear, ou pelo menos para bombas de napalm, em nossa teologia moral. Certamente alguns de nós já estão fazendo o melhor que podemos nesse sentido.

 

Merton está dizendo que o cristianismo é insano? Bem, sim. Pelo menos ele está fazendo um ponto semelhante ao que São Paulo faz no capítulo de abertura da Primeira Carta aos Coríntios. Ou seja, que o cristianismo não se alinha confortavelmente com a sabedoria ou lógica “mundana” (1 Coríntios 1, 18-31). Na verdade, Paulo vai muito longe para explicar que o que os cristãos professam acreditar é tolice aos olhos daqueles que veem o mundo pelas lentes dos padrões religiosos e sociais da época.

 

O ponto de Merton, como o de Paulo, não é menosprezar o cristianismo. Pelo contrário, Merton está desafiando os cristãos auto-identificados a avaliar sua própria compreensão de sua tradição de fé e considerar como ela informa ou não suas visões e ações no mundo. Se formos honestos, a maioria dos cristãos contemporâneos vê pouca dissonância entre o que dizemos que acreditamos e como vivemos no mundo.

 

Como o Papa Francisco nos lembra continuamente, a simplicidade do Evangelho deve desafiar nossa complacência, conforto e conformidade com os valores do “mundo”, como diz Paulo.

 

Na “Evangelii Gaudium”, Francisco aponta para os ensinamentos de Jesus e como muitas vezes os complicamos e os qualificamos para não nos incomodarmos com nossa fé. “Isto vale sobretudo para as exortações bíblicas que convidam, com tanta determinação, ao amor fraterno, ao serviço humilde e generoso, à justiça, à misericórdia para com o pobre. Jesus ensinou-nos este caminho de reconhecimento do outro, com as suas palavras e com os seus gestos. Para quê ofuscar o que é tão claro?”.

 

Amar nossos inimigos, fazer o bem a quem nos persegue, perdoar nossos irmãos 70 vezes 7, responder à violência com não-violência e amar uns aos outros como a nós mesmos somos absolutamente “loucos” de acordo com os padrões, a lógica e a sabedoria de sociedade moderna.

 

Infelizmente, tão frequentemente o Evangelho que é pregado pelos cristãos na palavra e ação não é aquele de Jesus Cristo, mas do poder, influência, políticos, controle e medo.

 

O contraste entre a “sanidade” do mundo e a “insanidade” do cristianismo que Merton discute me lembra do eticista Stanley Hauerwas, da Duke University, quem uma vez escreveu: “Eu não posso evitar a realidade que o cristianismo americano tem sido menos do que deveria ter sido justo porque a Igreja falhou em distinguir o Deus da América do Deus que nós cristãos louvamos”.

 

Temos a coragem de arriscar parecer tolos, surrealistas ou mesmo insanos de acordo com a “lógica” e a “sanidade” dos grandes negócios, potências militares e agendas políticas? Ou estamos contentes em criar um Deus à nossa própria imagem e semelhança “” e, portanto, chamando a adoração de tal ídolo de “cristianismo”?

 

Merton escreveu:

 

Até os cristãos podem se livrar de seus preconceitos sentimentais sobre a caridade e tornar-se sãos como Eichmann. Eles podem até se apegar a um certo conjunto de fórmulas cristãs e encaixá-las em uma ideologia totalitária. Deixe-os falar sobre justiça, caridade, amor e o resto. Essas palavras não impediram alguns homens sãos de agir com muita sensatez e inteligência no passado”.

 

Talvez os exames de consciência individuais e coletivos estejam muito atrasados para avaliar o quão “são” nosso cristianismo realmente é e se estamos ou não dispostos a seguir Jesus Cristo com todas as consequências insanas que isso implica ou simplesmente continuar nos iludindo em adorar o “Deus da América”.

 

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