Francisco no Canadá para fechar uma ferida aberta em meados do século 19

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11 Julho 2022

 

  • O pontífice atenderá ao pedido da comissão da verdade e reconciliação e pedirá desculpas pelo abuso de crianças inuit, métis e primeiras nações em internatos administrados por associações cristãs.
  • Uma ferida aberta de meados do século XIX. O sistema de internatos para meninos e meninas dos povos Inuit, Métis e Primeiras Nações, entre outros, estava oficialmente em vigor no Canadá desde 1883.
  • Desde a sua criação, grande parte dos 139 internatos estão nas mãos de instituições cristãs. Cerca de 50 por congregações religiosas.
  • O Papa já falou com essas vítimas e sobreviventes no Vaticano e, em um gesto sem precedentes, o fará novamente em seus territórios para mostrar que, como disse nesta semana, a "tolerância zero" contra os abusos se tornou "irreversível".

 

A reportagem é de Hernán Reyes Alcaide, publicada por Religión Digital, 09-07-2022.


Uma ferida aberta desde meados do século XIX, quando o então cada vez mais europeizado Canadá buscava homogeneizar a sociedade nascente que se desenvolvia do Atlântico ao Pacífico. Uma ferida que foi causada, em muitas ocasiões, por institutos cristãos em que houve abusos de todo tipo e condições de vida deploráveis para os filhos dos povos indígenas que foram obrigados a se matricular nesses tipos de centros. Uma "conversão" forçada para uma ocidentalização teórica de seus costumes. Uma ideia de sociedade baseada mais na esfera do que no poliedro pelo qual Francisco tanto proclama. E é por isso que o Papa vai responder com o seu corpo, aos 85 anos, operado em 2021 do cólon e arrastando os conhecidos problemas no joelho direito, ao pedido feito em 2015 pela Comissão de Reconciliação e Verdade para que o chefe da Igreja Católica se apresentasse no país norte-americano para pedir desculpas às vítimas.


"Peço perdão a Deus" e "me junto aos meus irmãos bispos canadenses para pedir desculpas", disse o papa argentino aos representantes dos três povos que o visitaram em Roma no início de abril, no que foi uma prévia do pedido de desculpas e forte autocrítica que se espera que ele faça ao visitar o país norte-americano entre 24 e 29 de julho.

 

 


O sistema de internatos para meninos e meninas dos povos Inuit, Métis e Primeiras Nações, entre outros, estava oficialmente em vigor no Canadá desde 1883, quando foi criado o sistema escolar que buscava assimilar os habitantes indígenas aos usos e costumes da a sociedade europeizadacada vez mais que crescia no Canadá, embora haja registros de estabelecimentos em funcionamento já em 1831. A partir de 1920, passou a ser obrigatório o atendimento de indígenas de 7 a 16 anos.


Desde a sua criação, boa parte dos 139 internatos pelos quais passaram cerca de 150.000 crianças estavam nas mãos de instituições cristãs. Estima-se que 50 desses centros eram operados por congregações religiosas da Igreja.

 

Assim, a visita de Jorge Bergoglio, durante a qual o pontífice percorrerá 19.246 quilômetros para visitar as cidades de Edmonton, Quebec e Iqaluit. Este foi um dos 94 pontos que, em 2015, a Comissão para a Verdade e Reconciliação constituída por indígenas e com participação de sobreviventes, instituída pelo governo canadense para documentar a história do sofrimento nos internatos cristãos, exigiu.


"Pedimos ao Papa que peça desculpas aos sobreviventes, suas famílias e comunidades sobre o papel da Igreja Católica Romana no abuso espiritual, cultural, emocional, físico e sexual de crianças das Primeiras Nações, Inuit e Métis nas escolas geridas pelos católicos", havia exigido o ponto 58 da carta, com a exigência de que o pedido de desculpas fosse "feito pelo Papa no Canadá".


As Primeiras Nações representam os grupos que estavam presentes no território antes da chegada dos europeus e atualmente agrupam cerca de 634 grupos que falam 50 línguas.


Em 2016, um censo realizado pelos povos indígenas colocou sua população total em 977.230 pessoas em todo o país, principalmente no oeste.

 

Outro dos principais grupos são os Métis ("mestiços"), nascidos do encontro entre os indígenas e a primeira onda de imigração europeia, que há seis anos atingiu 587.545 pessoas.


O terceiro povo, os Inuit, correspondem aos habitantes da parte nórdica do país, quase no Círculo Polar, a ponto de muitos de seus 65.025 habitantes também se reconhecerem como esquimós.


Neste contexto, com a viagem de fim de mês mal confirmada e após o pedido de perdão no início de abril, o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau afirmou que "a visita de Sua Santidade não seria possível sem a coragem e determinação dos sobreviventes, os indígenas líderes e os jovens que compartilharam suas histórias". O Papa já falou com essas vítimas e sobreviventes no Vaticano e, em um gesto inédito, o fará novamente em seus territórios, a mais de 8.400 quilômetros de Roma, para mostrar que, como disse esta semana, a "tolerância zero" contra abusos tornou-se “irreversível”.

 

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