Sem perceber a solidão nos tornamos uma sociedade madrasta. Artigo de Mario Giro

Foto: Chalmers Butterfield | Wikimedia Commons

05 Julho 2022

 

"A solidão enlouquece muitos e é a condição normal dos pobres e frágeis. Mas a solidão pode atingir qualquer pessoa de qualquer idade, condição e situação social. Sem uma sensibilidade aguda para essa doença a mais, a nossa sociedade se torna madrasta. É um tema para a política, mas também uma responsabilidade para todos", escreve o cientista político italiano Mario Giro, professor de Relações Internacionais na Universidade para Estrangeiros de Perugia, na Itália, em artigo publicado por Domani, 03-07-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

A solidão é a doença a mais da nossa sociedade que mata e não poupa ninguém. A pandemia deixou claro o quanto é mortal para os idosos sozinhos em instituições, sem a possibilidade de pedir ajuda. Mas temos que lidar com a solidão todos os dias: não há idade ou condição que possa naturalmente nos preservar do isolamento. Quando se é jovem ou adulto, a solidão pode parecer suportável, talvez até uma escolha de vida para se concentrar em si mesmo.

 

Trata-se de uma ilusão: a solidão ameaça a vida de cada um. Pense nos meninos abandonados ao ensino a distância, ou mesmo sem isso: quantos deixaram a escola?

 

Há casos extremos: na Itália, pelo menos 130 mil jovens nunca saem de casa, assustados por toda forma de socialidade, mesmo pela escola. É possível se deixar levar pela solidão por tantas razões, tanto que na Grã-Bretanha foi criado um ministério da solidão encarregado de propor soluções para combatê-la.

 

Cloe Bianco se matou recentemente, uma professora transgênero de 58 anos que se incendiou em seu trailer num bosque. Ela tinha ficado sozinha, afastada do ensino e colocada para trabalhar na secretaria da escola. Anunciou sua dramática escolha nas redes sociais: "É assim que tudo sobre mim termina".

 

Após sua morte, estourou a polêmica em torno da questão de seu ser de gênero fluido, como se costuma dizer. Mas mesmo antes disso, a verdade deve ser encarada: Cloe estava sozinha, muito sozinha. Ela mesma o escreve com uma sensibilidade fora do comum: “Trata-se de existir sempre suavemente, na penumbra. Na ponta dos pés, sempre nas bordas da periferia social, onde é difícil encarar a realidade. Sou feia, definitivamente feia, sou uma mulher transgênero. Sou uma ofensa ao meu gênero e uma ofensa ao gênero feminino. Eu nem causo pena, nem isso”.

 

Histórias na penumbra

 

Quem percebeu a solidão absoluta de Cloe? Nossos noticiários estão cheios de histórias no limite, na penumbra da vida como ela escreve, histórias delicadas que vão embora na ponta dos pés, relegadas à periferia da existência. Recordemos algumas recentes.

 

Durante dois anos inteiros ninguém notou a morte de Marinella Beretta, 70 anos, de Como: ela morava sozinha e os vizinhos achavam que ela havia se mudado anos atrás.

 

Ela foi encontrada em sua casa, sentada na poltrona da sala: alguém queria denunciar algumas plantas que corriam o risco de cair no jardim.

 

Provavelmente teve um mal súbito, mas por dois anos ninguém percebeu. Como ela era sozinha na vida, esteve sozinha na morte. Casos como os de Marinella são cada vez mais numerosos: sobretudo idosos que vão embora em silêncio ou histórias no limite como a de Cloe, sem amigos.

 

O fim de Giovanni Maria Varese, encontrado morto em sua casa em Gênova, chamou bastante a atenção.

 

Do apartamento vinha um cheiro ruim, mas desta vez os vizinhos, em vez de entrar em contato com os serviços de emergência, decidiram selar a porta com fita adesiva. Quando as pessoas são frágeis também morrem juntos.

 

Em Ferrara, uma mãe e um filho idosos foram encontrados sem vida em sua casa: ela tinha 87 anos e seu filho de sessenta anos cuidava dela. Ele provavelmente teve um ataque cardíaco e sua mãe morreu sozinha, incapaz de avisar alguém. Mesma história em Palermo, mãe e filho, ela tem 89 anos e ele 73. Também neste caso a mulher na cama enquanto o filho morto na sala de jantar. Ninguém se alarmou com nada.

 

Em Macerata, mãe e filho com deficiência morreram atrozmente de fome e sede em sua casa após a doença fatal de seu pai. O homem de 80 anos cuidava de sua esposa, que sofreu um derrame em 2020, e de seu filho de 54 anos, inválido devido a um acidente de carro quando jovem. A situação era conhecida pelos serviços sociais, mas não ajudou.

 

Quando se está isolado e sozinho, nem mesmo a família pode ser uma defesa. Há os que tiram a própria vida e os que morrem porque estão desamparados: em ambos os casos é a solidão, uma companheira má da vida humana, que mata. O problema não é apenas se sentir culpado quando esses fatos acontecem, mas lembrar que muitas pessoas vivem sozinhas e que é preciso muito pouco para que elas se sintam menos isoladas.

 

A solidão enlouquece muitos e é a condição normal dos pobres e frágeis. Mas a solidão pode atingir qualquer pessoa de qualquer idade, condição e situação social. Sem uma sensibilidade aguda para essa doença a mais, a nossa sociedade se torna madrasta. É um tema para a política, mas também uma responsabilidade para todos.

 

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