Cone Sul destaca os avanços da Assembleia Eclesial e vê o clericalismo como principal obstáculo

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23 Mai 2022

 

Os Encontros Eclesiais Regionais, um novo passo no processo da Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, foram encerrados na sexta-feira, 20 de maio. Foram realizados quatro encontros na última semana, a última com a Região Cone Sul do Conselho Episcopal da América Latina e Caribe (Celam), que inclui Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai.

 

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

 

Apresentado mais uma vez por Paola Calderón, do Centro Celam de Comunicação, e pelo Padre David Jasso, Secretário-Geral Adjunto, o encontro começou com o hino da Assembleia Eclesial, desta vez em sua versão em português, que nos chama a ser corresponsáveis pela ação pastoral da Igreja a partir da perspectiva do discipulado e da missão, convidando-nos a aderir ao caminho sinodal, e a oração, na qual, através do símbolo do chapéu, a vida dos povos da América Latina e do Caribe foi colocada nas mãos de Deus, a vida dos mais pobres, que sofrem as consequências da pobreza, uma realidade que aumentou com a pandemia da Covid-19.

 

Um encontro no marco do 15º aniversário de Aparecida, comemorado na semana passada na Casa da Mãe do Brasil, onde o Celam esteve presente. Precisamente na sede do Celam, em Bogotá, de onde o encontro foi coordenado, os documentos e objetos que fizeram parte da V Conferência do Celam foram coletados e brevemente apresentados aos participantes do Encontro Eclesial Regional.

 

A família foi um dos temas presentes em Aparecida, e uma família presente na V Conferência foi o casal chileno Pilar Escudero e Luis Jensen. Em seu testemunho aos participantes do encontro, Pilar descreveu Aparecida como "uma experiência eclesial única", como "uma tentativa séria, uma tentativa consciente de caminhar juntos", algo tão atual neste tempo de preparação para o Sínodo. Um caminho conjunto que começou meses antes, reunindo contribuições que foram levadas em conta e que tomou forma na experiência diária de 13 a 31 de maio de 2007.

 

Foto: Captura de tela/Luis Miguel Modino

 

Por esta razão, ela enfatizou o estarmos juntos, "tentando descobrir a vontade de Deus para nossa Igreja em todo o continente", com uma metodologia participativa, insistindo que "foi possível participar de tudo". O objetivo de Aparecida era definir o que significa ser discípulo, enfatizou, focalizando a realidade latino-americana, algo inseparável de ser missionário. O trabalho intenso, dia e noite, que foi "uma experiência da ação do Espírito Santo", mostrou a necessidade de um novo Pentecostes para a Igreja na América Latina e no Caribe, insistiu Pilar.

 

Aparecida é “memória viva que continua a inspirar cotidianamente os passos da nossa Igreja”, segundo Dom Walmor Oliveira de Azevedo. O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil vê a V Conferência Geral do Celam, onde ele participou, como “um acontecimento especialmente marcante na vida da Igreja latino-americana e caribenha”. Quase três semana de espiritualidade e reflexões profundas, destacando a grande presença de milhares peregrinos, que com sua oração inspiraram os pastores e seus assessores, afirmou o Arcebispo de Belo Horizonte.

 

O presidente da CNBB destaca a presença amorosa do Papa Bento XVI e do então arcebispo de Buenos Aires, hoje Papa Francisco, “que na atualidade afirma o potencial evangelizador do Documento de Aparecida”. Junto com isso, a “marcante presença do povo de Deus” e sua comunhão com o episcopado, “expressando do modo forte a fé em Jesus Cristo pela intercessão materna de nossa amada mãe Maria”.

 

Em Aparecida, “o povo simples, peregrino, trouxe e sempre traz as marcas de um continente sofrido, de muitos pobres, com desafios sérios a serem superados”, afirmo Dom Walmor. Uma presença que vê como fruto da ação do Espírito Santo, para inspirar o caminho da V Conferência, ajudando a superar os momentos de impasse na elaboração do Documento. “O Espírito Santo gestou caminhos corajosos, inspirações proféticas”, interpelando à Igreja do continente e do mundo, ressaltou o arcebispo de Belo Horizonte.

 

Foto: Captura de tela/Luis Miguel Modino

 

Uma Conferência que “reafirmou ainda mais a opção preferencial pelos pobres”, que mostrou uma Igreja que acolhe todas as pessoas, para a partilha da Palavra, da Eucaristia, da misericórdia e da missão de proclamar o Reino de Deus, segundo o arcebispo. Um Documento que continua vivo no Magistério do Papa Francisco, que consolida uma fé “que precisa ser mística, mas igualmente deve ser profética”.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo insistiu em que “não é possível amar a Deus enquanto se age com indiferença em relação ao próximo, que é meu irmão, minha irmã”, pedindo rezar por aqueles que “movidos pela sua fé, tem trabalhado incansavelmente na defesa da dignidade da pessoa humana, dos pobres e dos marginalizados”. Ele lembrou as palavras do Papa Bento no discurso de abertura: “a Igreja católica é advogada de justiça e defensora dos pobres, diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas que ainda hoje clamam aos céus.

 

O presidente da CNBB também pediu seguir Fratelli tutti, “exercitar nossa capacidade para escutar o outro, especialmente os pobres”, e junto com isso, “contribuir ainda mais para que resplandeça a dignidade humana, para que cada pessoa seja respeitada indistintamente, para que a vida possa ser compreendida como um dom preciso, protegida e preservada em todas suas etapas”. Tudo isso no caminho sinodal, construindo um novo jeito de ser Igreja, povo de Deus para sermos cada vez mais uma Igreja de comunhão, participação e mais missionária.

 

Como tem sido costume ao longo dos quatro encontros desta semana, foi apresentado o trabalho do Centro de Gestão do Conhecimento do Celam, que tem como objetivo reunir conhecimentos úteis para a tomada de decisões pastorais, assumindo a eclesiologia do Povo de Deus e desenvolvendo um caminho sinodal, nas palavras de seu diretor, Guillermo Sandoval, que também relatou os temas que estão sendo tratados atualmente por este centro, estudos alinhados com os desafios pastorais decorrentes da Assembleia Eclesial.

 

Foto: Captura de tela/Luis Miguel Modino

 

Antes de se reunirem em grupos, os participantes do Encontro Eclesial Regional ouviram as palavras do Padre Agenor Brighenti, com as quais o membro da equipe teológica do Celam quis ajudar a compreender a situação atual de Aparecida e em que medida os elementos que ele considera mais destacados da V Conferência do Celam estão presentes ou ainda pendentes na vida das Igrejas do continente.

 

Ele o fez com base em sete pontos, abordando de uma perspectiva pastoral os elementos que ele considera mais destacados em Aparecida: os antecedentes e o espírito, resgatando o Vaticano II; que através do batismo somos todos discípulos missionários; missão como um estado permanente na Igreja; conversão pastoral, para realizar a missão; que cada comunidade seja um centro poderoso irradiando o Reino da Vida; ser uma Igreja em saída, samaritana e profética, defensora dos pobres; a promoção de um itinerário de discipulado missionário.

 

Como tem sido o caso durante os diferentes encontros, o trabalho em grupos tem sido altamente valorizado pelos participantes. Na partilha, foi enfatizado que os temas da Assembleia estão apoiando os trabalhos do Sínodo, ajudando-o a avançar, embora também tenha sido apontada a necessidade de uma maior socialização do processo e a falta de apoio dos párocos na divulgação da Assembleia, que é vista como uma grande ferramenta, destacando a importância desses encontros. A partir daí, eles têm insistido em incorporar todos os temas da Assembleia ao trabalho das Igrejas locais.

 

Há uma dificuldade nisto, como diferentes vozes têm destacado: o clericalismo, há poucos sacerdotes comprometidos com o processo, resistência à mudança, o que leva a questionar se vamos juntos, denunciando que dá a impressão de que o clero está observando e o resto está fazendo. Uma das causas destas dificuldades presentes no clero e nos movimentos eclesiais é uma grande crise de espiritualidade, há muita devoção, mas isto está sufocando a espiritualidade do seguimento de Jesus. Um clericalismo que impede de ser uma Igreja missionária, sinodal, em saída para as periferias.

 

Foto: Captura de tela/Luis Miguel Modino

 

Neste sentido, foi dito que confinamos Jesus aos ambientes sagrados: altar, cantos, sermões, um Jesus que nada diz ao povo de hoje. Isto gera três graves problemas na América Latina e no Caribe: o neo-pentecostalismo fanático, a indiferença e o devocionalismo, que impedem a fidelidade ao Evangelho de Jesus. Juntamente com isto, o fato de transmitir um Deus de conteúdo, mas não uma experiência encarnada do Senhor, de encontro com a Palavra, que daria respostas às perguntas-chave deste momento.

 

Diante do clericalismo, a alternativa proposta é uma formação para os leigos, em chave existencial, passando de uma Igreja sacramental para uma Igreja evangelizadora, tornando as comunidades verdadeiros centros de formação de discípulos missionários, de cidadãos para o Reino. Para isso, o estudo do Evangelho é proposto como um caminho, ajudando a superar os desafios presentes nas esferas familiar, pessoal, comunitária e social.

 

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