Medida Provisória: luta antirracista e distopia do hoje

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27 Abril 2022

 

"Entre a alegoria e o melodrama, Lázaro Ramos toca no nervo do racismo estrutural no Brasil: num futuro próximo, negros serão forçados a voltar para a África. Porém, como filme-manifesto, perde força ao sobrepor militância à criação", escreve José Geraldo Couto, em artigo publicado por Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles e reproduzido por Outras Palavras, 25-04-2022.

 

Eis o artigo.

 

Medida provisória, de Lázaro Ramos, é um pequeno fenômeno. Foi visto por mais de cem mil espectadores em seu primeiro fim de semana de exibição, num momento em que muita gente ainda não se sente segura para encarar uma sala de cinema. É um acontecimento cultural e político, mais do que cinematográfico. Em outras palavras: é um filme mais importante do que bom.

 

 

Seu tema não poderia ser mais relevante e oportuno: o racismo estrutural, sistêmico, que caracteriza nossa formação social. O argumento, inspirado na peça teatral Namíbia, não!, de Aldri Anunciação, é poderoso: “em algum lugar do futuro”, em tudo semelhante ao Brasil atual, um governo autoritário determina que todos os cidadãos negros (ou melhor, “de melanina acentuada”) devem deixar o país e “voltar” para a África.

Nesse contexto sociopolítico, na cidade do Rio de Janeiro, debatem-se algumas figuras centrais: o advogado Antônio Rodrigues (Alfred Enoch), a médica Capitu (Taís Araujo), sua mulher, e o jornalista André (Seu Jorge), seu primo. Além deles há um punhado de personagens brancos importantes, como a agente do governo Isabel (Adriana Esteves) e Dona Izildinha (Renata Sorrah), síndica do prédio onde moram os Rodrigues.

O problema, a meu ver, é que o fecundo ponto de partida – a ideia da “repatriação” compulsória, operada pelo recém-criado “ministério da devolução” – se perde numa narrativa que oscila entre a alegoria e o melodrama. As boas intenções, a causa nobre, acabam por cercear e sufocar as possibilidades de criação cinematográfica.

 

Filme-manifesto

 

O intuito militante fica evidente, por exemplo, no apoteótico clipe final que, ao som da poderosa voz de Elza Soares, mostra uma marcha de personalidades negras de várias gerações e áreas de atuação. Não se trata de spoiler, pois a sequência não tem a ver com o desenvolvimento do enredo – é um manifesto à parte. E o ponto vulnerável de um filme-manifesto costuma ser esse: o manifesto se sobrepõe ao filme.

É a opção pelo ato político, em detrimento do cinema, que explica certas escolhas do diretor, como a escalação, para papéis importantes, de figuras marcantes da cultura negra, mas que não são atores profissionais. É o caso, por exemplo, da professora aposentada Dona Diva Guimarães, no papel de Elenita, e do rapper Emicida, no papel de Berto. São homenagens ou afirmações políticas que diminuem a força dramática e contribuem para um certo ar de amadorismo da encenação.

O sagrado desejo de expressar dores seculares, desejos silenciados, revoltas reprimidas, sobrepõe-se a todo o resto, ocasionando diálogos às vezes canhestros e uma condução narrativa titubeante. A certa altura, por exemplo, filma-se uma conversa enquadrando em close a boca e os olhos dos falantes, sem nenhum objetivo dramático ou estético aparente, a não ser o desejo de fugir do campo/contracampo convencional.

O pendor melodramático, de matriz telenovelesca, inibe o desenvolvimento de uma veia francamente satírica, esboçada aqui e ali, como quando a síndica branca diz ter sofrido racismo por causa dos cabelos, ou quando a agente pública racista tapa o microfone de uma audiência para sussurrar que quer seu café “preto”.

O potencial trágico do personagem porra-louca encarnado por Seu Jorge, revelado na cena em que ele se pinta de branco (para se “desmelanizar”), poderia ser melhor explorado. Do mesmo modo, a ideia brilhante de usar como “afro-bunker” um grande depósito de alegorias de escola de samba abriu possibilidades de fabulação, e mesmo de cenografia, que não chegaram a ser aproveitadas.

Mas com especulações desse tipo corremos o risco de cobrar do filme que vemos na tela o filme que gostaríamos de ver. Pedir peras ao olmo, como diz o provérbio espanhol. Medida provisória é o que é. É possível que muitas das coisas que vejo como deficiências tenham sido escolhas conscientes do diretor e agradem muita gente; outras tantas podem ser tributadas a uma mistura de inexperiência na direção com ansiedade em dizer tudo em seu primeiro longa de ficção.

 

A era das distopias

 

O fato é que o público tem comparecido e, ao menos em algumas sessões, aplaudido no final, gritando palavras de ordem contra vocês sabem quem. Sinal de que Medida provisória toca um nervo, cumpre um papel. O curioso é que a peça que o inspirou foi encenada em 2011 (com direção do próprio Lázaro Ramos), ou seja, muito antes da era Bolsonaro. De lá para cá o problema só se aguçou, e a realidade chegou mais perto da distopia imaginada por Aldri Anunciação, que aliás faz o papel de Ivan no filme.

Por falar em distopias, não deve ser por acaso que o cinema brasileiro as tem produzido com certa regularidade nos últimos anos: Divino amor, de Gabriel Mascaro, Medusa, de Anita Rocha da Silveira, e agora Medida provisória. Mais do que nos assustar com visões sombrias do futuro, esses filmes nos instigam a lutar para que elas não se concretizem.

 

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