“A Colômbia necessita de um pacto pela vida”. Testemunho do padre Bruno-Marie Duffé, delegado do Vaticano no país

Foto: Congreso de los Pueblos

25 Agosto 2021

 

“É preciso dizer com clareza: o assassinato de jovens – com tortura, que visa reduzir ao silêncio a quem não se quer ouvir – é uma forma de “crime contra a humanidade”. Os jovens são o futuro da Colômbia, como em todos os países. Mas eles também são o futuro da humanidade. Portanto, matar jovens, seus filhos, também está matando o futuro da humanidade. A palavra pode parecer dura, mas realmente descreve o que se vive na Colômbia hoje”, constata Bruno-Marie Duffé, secretário do Dicastério vaticano para o Desenvolvimento Humano Integral, delegado do Vaticano na Missão SOS Colômbia, instituída depois da repressão do governo aos protestos de abril de 2021.

Como parte da Missão SOS Colômbia, padre Bruno-Marie Duffé visitou o país entre 03 e 12 de julho, como delegado do Vaticano para escutar testemunhos de vítimas e familiares sobre os casos de violência ocorridos na Greve Nacional de abril.

O testemunho é publicado por CINEP/Programa por la Paz e Jesuítas da América Latina, 12-08-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o testemunho.

 

Em julho de 2021, o que muitos cidadãos colombianos, e particularmente jovens, trabalhadores desempregados, mulheres e indígenas migrantes em seu próprio país, pode se apresentar como uma “insurreição social e política”.

 

1. A “Greve Nacional” é uma expressão de desesperança e a expressão clara de repúdio aos “excessos” de:

Desigualdades sociais e econômicas;

Corrupção e violência contra os mais pobres;

Desprezo com os jovens, trabalhadores e trabalhadoras, e os representantes da sociedade civil.

 

2. A resposta do Estado é uma “repressão violenta, brutal e desmensurada” com ações extremas:

Ameaças de morte contra manifestantes e suas famílias; prisões; torturas; mutilações; agressões sexuais; assassinatos de jovens e crianças de menos de 16 anos.

Esta agressão física – que caracteriza a repressão ao movimento social – quer destruir não apenas o próprio movimento, mas também o corpo social, com o maltrato aos corpos dos atores.

 

3. Não há referência ao direito; não há referência aos direitos humanos fundamentais:

Direito à vida e à integridade física e moral; direito à proteção e à participação cidadã. Cada iniciativa popular parece interpretada pelo Estado e a força pública como uma conspiração que deve ser esmagada.

A nudez dos cidadãos – caracterizada pela extrema fragilidade dos seus rostos (dizia o filósofo Emmanuel Lévinas: “a nudez do rosto do outro diz-te: ‘não matarás!’”) E particularmente a dos olhos – contrasta, de forma enorme e dramática, com as máquinas de guerra utilizadas, de forma feroz, pela polícia e pelas forças públicas, em particular pelos membros do ESMAD (Esquadrão Móvel Anti-Distúrbios). A resposta à guerra contra o “grito dos pobres” causa traumas a todos os que têm a inteligência do bom senso e do coração. Fazer guerra contra seu povo é, como disse Hannah Arendt, um erro criminoso.

 

4. Esta experiência do cidadão e da comunidade tem três bases e apoios essenciais:

O território: bairro; rua; comunidade; “Casa comum” (por vezes casas antigas que são locais de encontros, conversas e formações diversas: política, arte, poesia, organização coletiva…).

A prática da palavra e da solidariedade concreta (incluindo a cura dos feridos e a escrita de uma memória coletiva).

O debate e o projeto de futuro (educação, emprego, desenvolvimento, afetividade, convivência).

 

5. O paradoxo mais forte desta situação é que os atores do protesto social vivem uma experiência de “democracia direta”, frágil, mas real.

Pode-se falar de “ruptura entre dois mundos” que é também a gravíssima ruptura do “pacto social”: condição para a passagem do “estado de guerra permanente” ao “estado social duradouro” (cf. Thomas Hobbes). Os jovens encarnam uma geração e um futuro que o poder, egocêntrico e fechado numa lógica de sobrevivência, não quer olhar. Essa ruptura social, ampliada pela violência brutal e cega da força pública e, ao mesmo tempo, pela impunidade dos autores de crimes, nos leva a pensar em um futuro muito doloroso na Colômbia. A ruptura é também entre o mundo social e o mundo político.

 

6. A ausência total de mediação é o que surge: de lugar ou de vínculo para permitir um confronto verbal entre as posições, com um debate contraditório, que suscita duas consequências preocupantes:

Uma “consequência ideológica”, que pode justificar posições sem uma vontade real de sair do conflito.

E uma “consequência física”, com uma ampliação da violência para um controle sistemático das pessoas (o que já está ocorrendo). As duas posições podem confirmar que temos uma nova forma de ditadura.

A urgência seria, então, criar e manter espaços de intercâmbio entre os cidadãos e os titulares de autarquias locais (prefeitos) ou mais amplas (“Defensores do Povo”, por personalidades da saúde; educação; cultura; prêmios Nobel; igrejas). Muitos ficaram surpresos ao encontrar um padre na rua, perto deles, vindo da Europa e que teve tempo para ouvi-los (e também consolá-los quando os pais choravam pelo filho morto na tortura). Trata-se de pensar e agir por meio da mediação social – ou interação – que aparece como o coração da referência urgente ao direito humanitário.

 

7. A referência aos direitos humanos se desfez com a repressão:

Ninguém acredita nesta proteção fundamental da dignidade do outro, embora os jovens expressem claramente o seu desejo de viver, de conviver e de realizar um projeto de vida pessoal e comunitário. A dignidade é recebida para doá-la no olhar do outro.

O papel dos jovens é central no protesto social. Seu desejo é claro: preparar e construir o futuro: formação, emprego, uma casa digna, uma vida digna, liberdade de expressão, vida afetiva respeitada, cultura.

É preciso dizer com clareza: o assassinato de jovens – com tortura, que visa reduzir ao silêncio a quem não se quer ouvir – é uma forma de “crime contra a humanidade”. Os jovens são o futuro da Colômbia, como em todos os países. Mas eles também são o futuro da humanidade. Portanto, matar jovens, seus filhos, também está matando o futuro da humanidade. A palavra pode parecer dura, mas realmente descreve o que se vive na Colômbia hoje.

 

8. A conciliação “impossível” (para o momento presente), justificada, por um lado, pela impunidade, e, por outro lado, com uma interpretação “sacrificial”, mais ou menos inconsciente, da “primeira linha” (quem lidera o protesto e vive o risco de ser ferido ou morto) sugere que o movimento continuará nos próximos meses.

Novas mortes violentas de jovens são anunciadas todos os dias. Isso amplifica a desesperança de um povo que tem tanta sede de paz. As eleições (em 2022) parecem para os atores do movimento social, como o último momento de um mundo que está morrendo, sem projeto e sem dignidade: um mundo que vai desaparecer. Isso também expressa “a ruptura” entre os mundos.

Ainda é viável uma consideração pacífica do outro? Como pensar uma ponte entre os mundos e as gerações? Poderíamos pensar em personalidades morais que fazem muita falta. Existem pessoas que têm uma grande consciência, porém como podem continuar sem apoio? Aparece aqui o papel determinante da comunidade internacional... atualmente silenciosa.

 

9. No entanto, na Colômbia, na América Latina e no mundo atual, todos podem ganhar, oferecendo cuidado – e cura – aos e às que estão nas ruas:

Eles e elas conduzem iniciativas que faltam no desenvolvimento integral do país. Aprender, desenvolver seus talentos, trabalhar, falar com liberdade e criar.

Como diz uma pichação em uma parede de um bairro, na região de Bogotá: “Criar é crer, crer é crescer”.

Isso expressa o espírito e o fundo do movimento popular. Não se trata somente de rechaçar um imposto suplementar (particularmente injusto em um contexto de crise sanitária), mas de um pedido de respeito às pessoas: mulheres, jovens, pobres, migrantes, homossexuais, enfermos ou debilitados, líderes sociais, tão maltratados há anos e detidos como presos políticos. As reivindicações dizem que não se pode viver em um sistema mafioso no qual o narcotráfico produz a economia e a vida pública. (Nota do autor: O narcotráfico permanece na sombra do país, sabemos que isso apenas permite que se continue um sistema de corrupção, no qual o direito perdeu sua autoridade e transcendência).

 

10. Como se pode sair da repetição que fecha a porta a todas as iniciativas de paz?

A Colômbia necessita de um processo que tem três referências determinantes:

A necessidade de “um pacto pela vida”: reafirmar o valor de cada vida, com consideração pelas crianças, adolescentes e pelos que sofrem com as injustiças sociais.

A necessidade de reafirmar a autoridade do direito público e dos direitos humanos que não permite que um movimento social – com pessoas de mãos vazias e sem armas – se afogue em sangue.

A necessidade de mediação social, que é a única possibilidade de salvar o “pacto social”, com uma prática, em todos os lugares: escolas, empresas, bairros e campo, igrejas e casas comuns, de palavras compartilhadas, de debate e de um comum responsabilidade pelo “bem comum”.

A Igreja pode ser ator da Palavra compartilhada, do diálogo, da promessa mútua e do perdão. Viver com e para o povo, em memória de Jesus, homem livre e “filho amado do Pai”.

Jonatan – um estudante que perdeu um olho quando uma granada foi atirada contra ele – disse-me: “Não consigo ver de novo e isso é difícil, mas tenho vida e quero continuar o movimento por uma vida melhor”.

E nós choramos silenciosamente juntos.

Todas as noites, rezo com Jonatan, com os pais que choram seus filhos e com todos.

Bogotá, 4 de agosto de 2021.
Monsenhor Bruno-Marie Duffé

 

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