“A Igreja perdeu o rebanho durante a pandemia”

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16 Agosto 2021

 

O sociólogo Giuseppe De Rita é presidente da Essere Qui, a associação que publicou uma pesquisa sobre a relação entre os fiéis e a cúpula eclesiástica neste período de pandemia.

A reportagem é de Riccardo Maccioni, publicada em Avvenire, 14-08-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A imagem usada é a do rebanho perdido. Referência evidente à parábola do Evangelho, com a diferença de que aqui quem se perdeu não foi uma única ovelha que o bom pastor agora procura, deixando sobre o monte as outras 99.

Em vez disso, trata-se de responder a um desconforto mais generalizado, ao mal-estar daquela parte do mundo católico que não está nada satisfeito com a posição assumida no ano da pandemia pela Igreja italiana, da qual enfatiza a irrelevância, a submissão excessiva, a autorreferencialidade.

Uma “denúncia” fotografada e interpretada pela associação Essere Qui, nascida de um grupo de amigos liderados pelo sociólogo Giuseppe De Rita com a Liliana Cavani como vice-presidente e, entre os sócios, Gennaro Acquaviva, Ferruccio De Bortoli, Mario Marazziti, Romano Prodi e Andrea Riccardi.

O resultado é uma pesquisa que confluiu no livro recém-publicado pela editora Rubettino: “Il gregge smarrito. Chiesa e società nell’anno della pandemia” [O rebanho perdido. Igreja e sociedade no ano da pandemia] (164 páginas).

Não é uma simples acusação, explicam os autores, mas sim um teste de estresse ou, em termos mais usuais, um exame de consciência, um “discernimento” tanto interno à Igreja instituição quanto do ponto de vista dos fiéis, necessário para depois se poder recomeçar com maior vigor e consciência do muito que os católicos podem oferecer na construção do bem comum.

Nesse sentido, de acordo com a pesquisa, a crise ligada à Covid fez emergir algumas questões críticas latentes na Igreja há muito tempo, como “o descolamento com a sociedade real, a distância entre fiéis e pastores, a irrelevância no pensamento sociopolítico”.

Um resultado evidente, explica o professor De Rita, é “a brecha crescente e forte que já existia entre evangelização e promoção humana. Uma separação que remete à lição ruiniana [em referência ao cardeal Camillo Ruini, ex-presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI)], assumida à época por toda a comunidade eclesial italiana, segundo a qual a Igreja existe para evangelizar, para praticar o Evangelho, e não para transformar a sociedade. Uma condição que, durante a pandemia, se revelou ainda mais contraproducente, no sentido de que o social não existia na realidade eclesial e, portanto, não podia reagir. Era preciso voltar fatalmente apenas à evangelização, para a qual, porém, não havia mais energia pastoral”.

 

Eis a entrevista.

 

Portanto, evangelização e promoção humana devem andar de mãos dadas.

Elas obtêm força uma da outra. Se você privilegia apenas uma, não funciona. Com a pandemia, nós nos demos conta disso. No campo social, a Igreja manifestou a sua irrelevância, a incapacidade de discutir com o poder, enquanto a evangelização, com as igrejas vazias e sem sacramentos, não conseguiu se afirmar.

De alguma forma, na sua opinião, criou-se um fosso entre Igreja e sociedade.

Durante a discussão da Comissão Preparatória sobre o título a ser dado ao Congresso Eclesial Nacional de 1976, o secretário geral da CEI, Dom Enrico Bartoletti, impôs aquilo que ele chamava de “et et”, no sentido que a Igreja não vive de contraposições, de “aut aut”. Não uma ou outra, mas juntas, “et et”, justamente. A cultura eclesial de Bartoletti foi esquecida por nós.

Entre os dados evidenciados pela pesquisa de vocês, um chama a atenção em particular: para 39% dos italianos e para 50% dos praticantes, durante a pandemia a Igreja aceitou as decisões do governo de forma acrítica demais.

Para muitos católicos, pareceu quase extravagante que a Igreja aceitasse tudo, não discutisse nada, que o papa pedisse para obedecer às ordens das autoridades. Ele pode até estar certo na relação com o Estado, mas não do ponto de vista da dimensão participativa da Igreja, que, ao invés de explodir no campo público, aninhou-se no âmbito privado. Há muitas pessoas que, em pleno lockdown, continuaram indo à missa, talvez em igrejas periféricas, com padres amigos, e muitos fiéis estavam irritados pelo fato de não se celebrarem os funerais. Mas nós guardamos dentro de nós essa raiva e esse desconforto, porque, no fundo, achávamos que, mesmo que nos manifestássemos publicamente, ninguém prestaria atenção em nós.

E isso vale para a Igreja em todos os níveis?

Também nós, leigos, não fomos capazes de uma explosão de orgulho, para dizer, por exemplo, que não se pode renunciar à Eucaristia. Fomos irrelevantes não em termos de poder, mas de cultura social, do significado social de ser católico, de ser Igreja.

Como é possível sair dessa situação? Que soluções podem ser praticadas?

O nosso grupo não faz propostas, não quer fazer política eclesial, não pretende se inserir nas discussões e assumir responsabilidades que pertencem à hierarquia. Nós fazemos reflexões laterais, dizemos aquilo que vemos, limitamo-nos a oferecer um input, porque dar um output com base em poucos conhecimentos e verificações seria uma aventura idiota.

Mas vocês dão uma indicação, a de “buscar a Igreja fora da Igreja”.

Hoje esse é o problema mais importante. Dou o exemplo de dois amigos que morreram em casa e que, não podendo celebrar os funerais, foram postos em um furgão para serem levados ao local onde seriam cremados. O pároco, porém, quis que eles passassem na frente da paróquia e saiu para oferecer um sinal de bênção. Mas quantos fizeram como ele? Eu acredito que pouquíssimos. A pandemia demonstrou que os homens da Igreja não souberam dar um passo além da soleira da porta.

O que é a associação Essere Qui, que realizou a pesquisa?

Ela nasceu de um texto furioso meu, escrito durante a pandemia, quando nos foi comunicada a proibição de ir à igreja. Era uma dezena de páginas que eu enviei a alguns amigos, suscitando reações diversas. Alguns disseram: “Não nos preocupemos”, “fiquemos tranquilos”, enquanto outros acharam que era bom seguir em frente, produzir um documento mais longo e articulado. Disso, surgiu um segundo texto, menos flamejante, depois do qual pensamos em dar mais um passo. E realizamos uma pesquisa baseada em 1.000 entrevistas com fiéis italianos, acompanhada, depois, de um texto de comentário. A formação do grupo também ocorreu de forma progressiva. Nós perdemos alguns dos que estavam mais irritados no início, enquanto chegaram aqueles que se interessavam em uma atividade quase científica de análise e de pesquisa de opinião. Devo dizer que, olhando para trás, fico surpreso ao ver como tudo se caracterizou pela espontaneidade total. É a primeira vez que, na Igreja italiana, se forma um grupo organizado sem assistência eclesiástica, sem carimbos, sem decreto do pároco ou do bispo.

 

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