Do jovem abstrato aos jovens que não importam para ninguém

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 03 Julho 2021

 

Falar de juventude pode soar simpático e esperançoso para alguns, sobretudo com a intenção de se dar como sinônimo de jovialidade, vida alegre e com futuro. No entanto, compreender a categoria juventude apenas pela idade diz pouco sobre quem são esses sujeitos. De jovens violentados a jovens nostálgicos de um passado autoritário do qual não viveram, a sociedade brasileira encarna suas desigualdades sobre essa geração, e num contexto de crise civilizatória impõe ainda mais dificuldade no trabalho pastoral da Igreja.

O artigo é de Wagner Fernandes de Azevedo, graduado em Relações Internacionais, na Universidade Federal de Santa Maria, mestrando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e aluno do Curso de Computação na UNISINOS. Participou ativamente da Pastoral da Juventude.

Diante de tantas disparidades, "dizer que importam todos, é dizer que ninguém importa", essas foram as palavras de dom Joaquim Giovani Mol, reitor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais,  na abertura da live promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, nesta quinta-feira, 01-07-2021, intitulada "Juventudes: quais importam?", que teve o objetivo aprofundar a provocação sobre quais juventudes o trabalho pastoral deve estar direcionado. A live contou com a presença de Vanessa Correia, coordenadora do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em "Juventudes Contemporâneas" da Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte-MG - FAJE e Carlos Eduardo Cardozo, filósofo, sociólogo, com especialização em juventudes, e com a mediação de dom Mol.

 

 

Segundo a socióloga Vanessa Correia, “ao se falar de jovens, fala-se de indivíduos que compartilham um tempo histórico, singular, inédito. No entanto, eles vivem isso em realidades sociais concretas, diversas, nas quais as condições sociais são completamente desiguais”.

Vanessa Correia explicou que são muitos determinantes que diferenciam o que é ser jovem. “No nosso país as diferenças, no momento que as hierarquizamos, determinam as posições sociais, produzindo acúmulos de privilégios ou desvantagens. O importante é entender isso: quais são os processos de socialização que os diferenciam? Por isso se convencionou usar juventudes, no plural”.

Por isso, Vanessa destaca que usar juventudes amplia um entendimento que é simplista sobre a realidade juvenil, sobretudo brasileira, visto que não são apenas “estudantes”, mas são trabalhadores, desocupados, marcados socialmente por diferentes étnicas, de gênero, de classe. Para a especialista em juventude, o trabalho pastoral precisa ser direcionado, tendo nitidez da complexidade da realidade desse grupo tão diverso: “Os jovens são 26% da população brasileira, dos quais, 84% moram na cidade e 15% no campo, 51% dos jovens estão fora da escola, 28% desempregados, compõem 52% da população carcerária do país, mais de 1,5 milhão são nem-nem, ou seja sem direitos, mais de 30 mil são assassinados por ano, sendo a grande maioria jovens negros”. São esses os cenários para pensar quais são os jovens que importam para a nossa ação pastoral.

Para Carlos Eduardo Cardozo é necessário problematizar a homogeneização da categoria “jovem”, e mais que isso, a Igreja precisa se importar com as juventudes que ninguém se importa. Cardozo, que ajudou nas pesquisas para a publicação do Atlas das Juventudes (organizado pelas redes Em Movimento e Pacto das Juventudes pelos ODS), publicado recentemente, destaca alguns dados que mostram a desilusão de grande parcela dos jovens brasileiros com o futuro. “47% dos jovens sonham em ir embora do Brasil, reagem e se manifestam de diversas formas contra a crise civilizatória que vivemos, mas não contemplam seus projetos de vida aqui”.

Carlos Eduardo constata uma conjunção de fatores que causam a falta de perspectiva. “Há um discurso de empreendedorismo que maquia a realidade das juventudes. As dificuldades profissionais e financeiras deixam 27,1% dos jovens sem estudos e sem trabalho, e 56% desocupados”.

Um dos índices que demonstram as desigualdades entre os jovens é a realidade de violência. “Ser jovem negro, periférico, homoafetivo no Brasil já reduz em 80% a expectativa de vida”, expõe o pesquisador. “São múltiplas violências, não vem apenas do Estado, a insatisfação é geral contra o gerenciamento do país. A reforma trabalhista, por exemplo, colocou os jovens em empregos ainda mais precarizados. 3,5 milhões de jovens saem do Ensino Médio sem perspectiva de para seus projetos de vida”.

Para ele, há modelos que “vitrinizam as juventudes, mas não lhes dão a capacidade para as condições para desenvolver suas capacidades”. E essa crítica pode ser alinhada inclusive à Igreja. Momentos antes da fala de Cardozo, dom Joaquim Mol já pedia “perdão pelo afastamento da Igreja das realidades das juventudes, que convida, mas não consegue acolher e deixar os jovens participarem”.

Por fim, os questionamentos que ficam para as vidas das juventudes e o papel da Igreja diante deste desafio: “Quais os projetos que temos para esses jovens, qual Brasil construímos? Que mundo queremos deixar às nossas gerações? Como fazer para que a Igreja chegue às juventudes que não importam para ninguém?”.

Para Correia, “Nossa ação pastoral precisa fazer a união de fé e vida, poder falar, apoio e suporte às questões vitais. Não se pode desassociar, os jovens precisam ter espaço pra falar, partilhar as ansiedades, as paróquias precisam ser espaços para isso. Parte desse trabalho tem sido feito pelo Papa Francisco, diálogo com jovens do mundo inteiro, é preciso fazer isso em nossas comunidades.”.

Cardozo segue a mesma linha: “A porta de entrada é a escuta, e preciso escutar, sair das sacristias, revisitar metodologia, linguagem, gramática de fé, postulado, diálogo. A porta de entrada é a escuta”.

Joaquim Mol finalizou dizendo “é preciso tratar desiguais de forma desigual, é preciso ver que tem jovens levantando bandeira até mesmo da ditadura, não podemos ser ingênuos no nosso trabalho”.

A partir da fala dos pesquisadores, compreende-se que a caminhada pastoral junto aos jovens não é uma opção apenas para alegrar as comunidades, mas um desafio constante de estudo, proximidade e reconhecimento mútuo de Igreja e juventudes. Insta-se a um compromisso de assumir a amarga tarefa de escutar a falta de esperança e aqueles que ninguém escuta.

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