David Attenborough e o documentário Nosso Planeta. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Foto: Geograph.org.uk

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14 Dezembro 2020

"O naturalista britânico, de 94 anos de idade, fala sobre sua trajetória e a evolução da vida na Terra, lamenta a perda de áreas selvagens do planeta e oferece sua visão de um futuro possível", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 11-12-2020.

Eis o artigo.

“Todos os nossos problemas ambientais se tornam mais fáceis de resolver com menos gente e mais difíceis e, em última instância, impossíveis de resolver com cada vez mais pessoas”. - David Attenborough

O magnífico documentário “David Attenborough: A Life on Our Planet” (Netflix, 2020) é uma obra em defesa da natureza e de crítica ao estilo de vida que a humanidade vem adotando ao longo dos dois últimos séculos.

O naturalista britânico, de 94 anos de idade, fala sobre sua trajetória e a evolução da vida na Terra, lamenta a perda de áreas selvagens do planeta e oferece sua visão de um futuro possível.

O documentário começa mostrando uma cidade abandonada e em ruinas em um cenário desolador. É o território atual ao redor da usina nuclear de Chernobyl, uma área outrora movimentada que foi evacuada após um erro humano que criou uma zona de alta radioatividade e que a tornou inabitável. Só mais tarde os diretores do documentário puxarão sua câmera para trás para revelar que o território que envolve a cidade, vazio de atividades antrópicas, possibilitou a regeneração de uma vida selvagem exuberante.

Considerando o documentário como sua “declaração de testemunha” sobre o meio ambiente, David Attenborough traça sua carreira de mais de 60 anos como naturalista, revelando o quão abruptamente a biodiversidade do planeta se degenerou diante dele. Usando imagens de documentários antigos, o filme mostra imagens exuberantes desde quando ele começou seu trabalho, como um jovem produtor e pesquisador da flora e fauna de todos os continentes.

Além da fotografia majestosa, muitas informações são apresentadas. O público é informado que, de 6 trilhões de árvores existentes, o mundo já perdeu 3 trilhões nos dois últimos séculos e cerca de 15 bilhões são derrubadas a cada ano. Attenborough explica como as árvores são importantes para o equilíbrio ambiental e climático do Planeta e mostra o processo de destruição da vegetação verde e a perda de diversidade que aconteceu durante o seu ciclo de vida.

Para ilustrar o esvaziamento dos oceanos, os diretores do documentário intercalam habitats de corais prósperos com imagens de grandes peixes eviscerados, congelados e empilhados para o mercado. A sobrepesca, a poluição em geral e dos plásticos em particular, o aquecimento global e a acidificação dos oceanos está provocando o branqueamento dos corais e a destruição da vida marinha.

As mudanças climáticas e a 6ª extinção em massa das espécies são as duas principais ameaças existenciais à vida humana na Terra e à continuidade da civilização. Porém, para deixar uma mensagem de esperança o documentário mostra, como primeiro exemplo, a agricultura sustentável na Holanda, que tornou o país um dos líderes mundiais na exportação de alimentos. E como segundo exemplo, as restrições à pesca em torno da nação do arquipélago de Palau no Pacífico, que permitiram que a vida marinha se recuperasse.

Contrastando a beleza das imagens de uma vida selvagem maravilhosa, com as feias cenas de devastação e destruição, o filme é um alerta sobre a crise ecológica do século XXI e os perigos que abarcam a vida no Planeta.

Um fato essencial do documentário é a discussão demográfica, que geralmente é jogada para debaixo do tapete. Contudo, David Attenborough sempre se preocupou com o crescimento desregrado da população mundial e com a ocupação ampla e irrestrita de todos os territórios do Planeta em detrimento da vida selvagem e da biodiversidade.

Attenborough nasceu em 1926, quando a população mundial era de cerca de 2 bilhões de habitantes e atualmente o número de habitantes globais se aproxima de 8 bilhões. Portanto, houve um crescimento de 4 vezes em menos de 100 anos. Mas além de tanta gente, houve um crescimento muito maior do volume de produção e consumo. Não existe consumo sem população e nem população sem consumo.

Assim, o impacto do crescimento da população deve ser multiplicado pelo grau de afluência. E o fato inegável é que estamos em um mundo antropicamente cheio e que o enriquecimento da humanidade se dá às custas do empobrecimento do meio ambiente. Por conta disto, Attenborough diz: “Todos os nossos problemas ambientais se tornam mais fáceis de resolver com menos gente e mais difíceis e, em última instância, impossíveis de resolver com cada vez mais pessoas”.

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