Cardeal Grech: será um suicídio se depois da pandemia voltarmos à pastoral de antes

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04 Novembro 2020

Em uma entrevista com La Civiltà Cattolica, o cardeal designado, líder do Sínodo dos Bispos, explica que um certo clericalismo surgiu durante o lockdown: é necessário restituir à família uma dimensão de sacralidade e de culto.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Stampa, 02-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Será um suicídio se, depois da pandemia, voltarmos para os mesmos modelos pastorais que praticamos até agora" O novo secretário do Sínodo dos Bispos, o maltês Mario Grech, cardeal no próximo consistório de 28 de novembro, denuncia o fato que durante o lockdown, quando as missas presenciais foram suspensas por motivos sanitários, “surgiu um certo clericalismo, também via redes sociais", quase como se a falta temporária da liturgia e dos sacramentos pudesse comprometer" a fidelidade do discípulo a Jesus ", e indica, ao contrário, dois caminhos a seguir no futuro próximo: o método da "sinodalidade", conceito que não pode ser interpretado sem uma "fraternidade" conectada a ele, e a necessidade de restituir à família, domus ecclesiae, "uma dimensão de sacralidade e de culto".

“Durante a pandemia, surgiu um certo clericalismo, inclusive nas redes sociais. Assistimos a um exibicionismo e excesso de devoção que têm mais sabor mágico do que expressão de fé madura”, afirma o cardeal designado em uma entrevista publicada no número 4087 de La Civiltà Cattolica. “Muitas iniciativas pastorais nesse período se centraram apenas na figura do presbítero” e “na situação que impedia a celebração dos sacramentos, não nos apercebemos que havia outras formas com as quais poderíamos usufruir da experiência de Deus”. Mas “a fidelidade do discípulo a Jesus - explica o prelado maltês - não pode ser comprometida pela falta temporária da liturgia e dos sacramentos”.

O ex-bispo de Gozo explica: “Acho curioso que muitos tenham reclamado de não poder receber a comunhão e celebrar os funerais na igreja, mas que nem tantos tenham se preocupem em como se reconciliar com Deus e com o próximo, em como ouvir e celebrar a Palavra de Deus e em como viver o serviço. No que diz respeito à Palavra, portanto, devemos desejar que essa crise, cujos efeitos nos acompanharão por muito tempo, possa ser um momento oportuno para nós, como Igreja, trazer o Evangelho de volta ao centro da nossa vida e do nosso ministério. Muitos ainda são ‘analfabetos do Evangelho’”.

O secretário do Sínodo coloca um questionamento que soa como uma provocação: “Aqueles médicos e enfermeiras que arriscaram a vida para ficar perto dos doentes não transformaram as enfermarias dos hospitais em outras 'catedrais'?”. A Igreja "parece demasiado clerical e o ministério é controlado pelos clérigos" e "mesmo os leigos muitas vezes se deixam condicionar por um padrão de forte clericalismo", denuncia Grech, segundo o qual "deve causar preocupação quando fora do contexto eucarístico ou de culto alguém sente-se perdido porque não conhece outras maneiras de se vincular com o mistério. Isso não apenas indica que existe um certo analfabetismo espiritual, mas é a prova da inadequação da prática pastoral atual. Muito provavelmente, no passado recente, a nossa atividade pastoral tentou iniciar aos sacramentos e não iniciar – através dos sacramentos - à vida cristã”.

Mario Grech não suaviza o tom de alarme: "Será um suicídio se, depois da pandemia, voltarmos aos mesmos modelos pastorais que praticamos até agora". Por isso, “devemos refletir para nos interrogarmos sobre a riqueza dos ministérios laicais na Igreja, entender se e como se expressaram”.

Mario Grech é entrevistado pelo diretor da Civiltà Cattolica, padre Antonio Spadaro, extraordinariamente acompanhado, nesse caso, por Simone Sereni, secretário de direção e redação do quinzenário dos jesuítas. Um trecho da entrevista é dedicado à família, a "pequena Igreja doméstica": por isso também, lemos na introdução da entrevista, a conversa foi conduzida em conjunto por um sacerdote e por um leigo que é marido e pai. E, portanto, a partir da pandemia, pode-se dizer que a casa voltou a ser Igreja, também no sentido litúrgico? “Pareceu-me muito claro”, responde o cardeal designado. “E quem, nesse período em que a família não teve oportunidade de participar da Eucaristia, não aproveitou a oportunidade para ajudar as famílias a desenvolverem o seu próprio potencial, perdeu uma oportunidade de ouro”. A Igreja grande comunitária “é formada por pequenas Igrejas que se reúnem nas casas. Se a Igreja doméstica vier a faltar, a Igreja não pode subsistir. Se não houver a Igreja doméstica, a Igreja não tem futuro!”.

O clericalismo ressurge também nesse contexto: trata-se de "uma das perversões da vida presbiteral e da Igreja, apesar de o Concílio Vaticano II ter recuperado a noção da família como" igreja doméstica "e desenvolvido o ensinamento sobre o sacerdócio comum", explica Mario Grech. “Não é a família que é subsidiária da Igreja, mas é a Igreja que deve ser subsidiária da família. Visto que a família é a estrutura básica e permanente da Igreja, a ela, domus ecclesiae, deveria ser restituída uma dimensão sagrada e de culto”.

O prelado maltês foi nomeado em 2 de outubro de 2019 pelo Papa Francisco como pró-secretário geral do Sínodo dos Bispos, e por isso participou do Sínodo sobre a Amazônia. Em 16 de setembro, ele sucedeu ao cardeal Lorenzo Baldisseri como secretário a pleno direito. E na entrevista a Civiltà Cattolica esclarece uma conexão: “Acho que sinodalidade e fraternidade são dois termos que se referem um ao outro”, afirma.

“Uma característica essencial do processo sinodal na Igreja é o diálogo fraterno. Em seu discurso no início do Sínodo sobre os jovens, o Papa Francisco disse: ‘O Sínodo deve ser um exercício de diálogo sobretudo entre aqueles que dele participam’. E o primeiro fruto desse diálogo é que cada um se abra para a novidade, para modificar a própria opinião, para se alegrar com o que ouviu dos outros. Além disso, no início da Assembleia especial do Sínodo para a região Pan-amazônica, o Santo Padre fez uma referência à "mística da fraternidade" e destacou a importância de uma atmosfera fraterna entre os padres sinodais, "salvaguardando a fraternidade que deve existir aqui dentro".

Essa cultura do “diálogo fraterno” ajudaria todas as assembleias - políticas, econômicas, científicas - a se transformarem em lugares de encontro e não de confronto. Numa época como a nossa, em que assistimos a uma reivindicação excessiva de soberania dos Estados e a um retorno ao classismo, os sujeitos sociais poderiam reavaliar essa abordagem “sinodal”, que facilitaria um caminho de reaproximação e uma visão cooperativa”.

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