O tato político não impede o Papa de (indiretamente) cutucar Trump

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28 Outubro 2020

“Uma tola consistência”, Ralph Waldo Emerson uma vez escreveu, “é o duende das pequenas mentes”. Pessoas e instituição de todos os tipos internalizam seus Emersons todo o tempo, invocando princípios de ferro quando lhes convém, mas encontram brechas quando não.

O Vaticano não é exceção, e a última semana trouxe dois exemplos quando isso vem envolvido na política civil.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 27-10-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O papa Francisco tem aversão de ser usado por políticos para fins eleitorais, tanto é que, muito antes da pandemia de covid-19, ele já encontrava desculpas para não viajar a sua Argentina, particularmente fugindo de que um ou outro alinhamento político pudesse usar isso como endosso.

Essa mesma relutância em ser usado em campanhas eleitorais é parte do DNA institucional do Vaticano. É por isso que chefes de Estados e seus minions não fazem audiências papais em tempo de eleições nacionais, por exemplo, como o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, recentemente foi lembrado na sua visita a Roma e não pôde ver Francisco.

(O fato de Pompeo ter aparecido imediatamente após detonar a política do pontífice para a China provavelmente também não ajudou, mas não foi a explicação dada)

No entanto, no último sábado, o papa Francisco encontrou o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez no Vaticano, fazendo-lhe um discurso improvisado que alerta para a iminente crise, na qual comparou com a Grande Depressão dos anos 1920 e 30. Em termos de cobertura midiática, a única manchete foi que Francisco e Sánchez não usaram máscaras, apesar de o Vaticano recentemente registrar casos de covid-19, inclusive entre membros da Guarda Suíça.

Fiquei impressionado, entretanto, com a referência do Papa ao recente livro “Síndrome 1933”, do autor italiano Siegmund Ginzberg, que nasceu em Istambul em 1948 em uma família judia que pouco depois emigrou para Milão. Durante a maior parte de sua carreira, Ginzberg foi correspondente estrangeiro do jornal italiano L’Unità, que era a publicação oficial do Partido Comunista Italiano.

O livro compara o crescimento dos movimentos populistas de direita hoje à situação em meio à Grande Depressão que abriu o caminho para a ascensão dos nazistas na Alemanha, e Francisco sugeriu claramente que a comparação tem mérito. O Papa disse que Ginzberg faz a analogia “com muita delicadeza”, mas, na realidade, é bastante explícita.

A certa altura, Ginzberg observa que em 1932 cerca de 14 milhões de alemães votaram em Adolf Hitler, e então escreve: “Há uma forte tentação de culpar os eleitores, as pessoas que se deixam envolver. Você ouve a mesma coisa para Trump, Erdogan, Modi, Orbán, Bolsonaro... Mas em resposta, pode-se parafrasear a ironia de Bertolt Brecht: ‘Se você está decepcionado com os resultados eleitorais, sugiro que dissolva o povo e eleja outro’”.

A comparação entre Trump e a dinâmica que levou os nazistas ao poder continua. (Só para constar, como um italiano nascido na Turquia, Ginzberg provavelmente pode ser perdoado por nunca ter ouvido falar da “Lei de Godwin”, uma versão da qual afirma que o primeiro a invocar uma comparação com os nazistas em uma discussão na Internet perde).

“Trump prometeu um muro anti-imigrante e continua avançando, mesmo ao preço de ter que lutar contra uma paralisação do governo”, escreve Ginzberg. “Ele prometeu uma política de protecionismo e continua decidido impondo tarifas alfandegárias, independentemente das consequências para a economia global”.

“De vez em quando, leio sobre a oposição criticando esses números por não cumprirem suas promessas”, diz ele. “Dados os precedentes” – com o que ele se refere aos nazistas – “Eu na verdade não sei se realmente devemos esperar que eles de fato cumpram o que dizem e prometem”.

Na época em que o Papa Francisco fez essa recomendação de leitura, a eleição nos Estados Unidos em que o destino de Trump será determinado estava a 10 dias de distância.

Um dia depois, Francisco nomeou 13 novos cardeais, incluindo o arcebispo Wilton Gregory nos Estados Unidos. A manchete principal nos Estados Unidos era sobre Gregory ser o primeiro afro-americano a receber o chapéu vermelho, mas um subtítulo comum era mais ou menos “Prelado que enfrentou Trump é nomeado cardeal”.

A referência era Gregory criticando publicamente o Santuário Nacional de São João Paulo II, propriedade dos Cavaleiros de Colombo, em Washington, por hospedar Trump em junho, apenas um dia depois ter sido gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes de George Floyd para permitir que o presidente fizesse uma oportunidade de foto do outro lado da rua da Casa Branca, na Igreja Episcopal de São João.

Claro, seria terrível reducionista apresentar a nomeação de Gregory como um contraponto a Trump. Ele tem uma longa e distinguida carreira, e o simbolismo de se tornar o primeiro cardeal afro-americano em um tempo de profunda tensão racial é convincente.

Similarmente, seria verdadeiramente exagerado dizer que a recomendação do livro de Ginzberg pelo Papa era dirigido à eleição dos EUA. Além de tudo, ele estava falando com políticos espanhóis e seu quadro de referência era europeu.

Ainda assim, se a preocupação em ser visto como partidário perto de uma eleição fosse realmente tão forte quanto o Vaticano costuma dizer, teria sido tão difícil esperar alguns dias para dar referência positiva a um livro ou nomear uma nova leva de cardeais?

Em outras palavras, quando um Papa ou outra autoridade sênior do Vaticano não quer fazer algo, a proximidade de uma eleição pode ser uma maneira útil de explicar por que não. Quando sentem vontade de fazer algo, porém, a preocupação com as consequências políticas nem sempre parece impedi-los.

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