A desigualdade e a covid. Artigo de Branko Milanović

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24 Setembro 2020

“As empresas importaram mais aos Estados Unidos que as mortes, mas terminaram em um declínio econômico épico e com uma das taxas de mortalidade mais altas do mundo (em setembro de 2020)”, escreve Branko Milanović, economista sérvio-americano e professor da Universidade da Cidade de Nova York, em artigo publicado por Letras Libres, 23-09-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A desigualdade, por definição, tem muitas faces. Não existe apenas a diferença entre a desigualdade de renda e a desigualdade de riqueza, mas também a desigualdade entre gênero, raça, idade, unidades territoriais dentro de um país e outras. Se você faz um passeio em uma cidade como Nova York, a desigualdade fica evidente simplesmente andando de um bairro para o outro.

Por isso, não surpreende ver uma possível relação entre a desigualdade (e suas múltiplas encarnações) e os efeitos da pandemia. Acredito que isto é muito óbvio no caso dos Estados Unidos, mas provavelmente também em outros países devastados como a África do Sul, Peru, Chile, Brasil e Índia.

A desigualdade de riqueza estadunidense é muito conhecida. Mesmo após o Obamacare, quase 30 milhões de estadunidenses não tem um plano de saúde. Muitos deles dependem do plano que o seu emprego proporciona. Quando perdem o trabalho, como aconteceu durante a pandemia, perdem também o plano. A desigualdade na saúde fez vítimas, apesar de muitos hospitais terem tratado pacientes que não tinham plano, demonstrando um nível de civismo extraordinário, que aparentemente os políticos não têm.

A desigualdade na educação nos Estados Unidos é muito pouco mencionada nos debates sobre a covid. Mas a baixa qualidade da educação fundamental e média, combinada com a grande tolerância à educação em casa (homeschooling), contribuiu para um desprezo à ciência e as medidas de proteção para frear a expansão da pandemia. O fato de que os Estados Unidos estejam muito alto no ranking sobre crenças extravagantes (do rapto da Igreja à terra plana) não é um acidente. Demonstrou seu desastroso caráter durante a crise, quando as pessoas se negaram a acreditar no que a ciência lhes dizia.

Inicialmente, a fragmentação do sistema político de tomada de decisões parecia que iria ajudar, tendo em conta que o Governo Federal era abertamente obstrucionista. Isto também resultou ser uma ilusão. A incapacidade das unidades territoriais mais amplas (como os Estados) em fazer cumprir as regras para conter a pandemia nas unidades territoriais menores (os condados) desembocou em um caos administrativo. Além disso, conduziu à expansão da pandemia, já que a gestão desigual da pandemia em países com livre movimento de pessoas ajuda a espalhar o vírus. As unidades menos restritivas determinaram a expansão. Ser responsável sob essas circunstâncias fazia pouco sentido já que apenas acabaria prejudicando os próprios negócios e não serviria para frear o contágio. Por isso, incentivou-se a irresponsabilidade generalizada.

A desigualdade no poder político também era óbvia. Mesmo quando os administradores estatais ou de condado estavam convencidos de que era preciso impor medidas duras, sofriam uma pressão implacável dos empresários. Poucos políticos, que são conscientes de como é importante o apoio dos empresários nas eleições, foram capazes de resistir a essa pressão. Como exemplo mais notável, a Califórnia passou de um êxito precoce a um fracasso.

A desigualdade em vítimas (o número muito alto entre negros e latinos) provavelmente afetou a resposta política. Nenhuma dessas comunidades é politicamente poderosa. Entre os latinos, na Califórnia, há muitos estrangeiros não documentados e, portanto, sua influência política é inclusive menor. Suas mortes geralmente não importavam.

O resultado de todos estes processos é que um país democrático parecia estar - e assim realmente aconteceu - menos preocupado com as mortes que um regime autoritário como a China. As empresas importaram mais aos Estados Unidos que as mortes, mas terminaram em um declínio econômico épico e com uma das taxas de mortalidade mais altas do mundo (em setembro de 2020).

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