O equilibrismo do papa: “esquece” Hong Kong para não irritar a China

Foto: Vatican News

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11 Julho 2020

Quando o pontífice se assoma à janela voltada para a Praça de São Pedro para rezar o Ângelus, ele não dirige apenas uma mensagem religiosa aos fiéis, mas também um apelo político.

A reportagem é de Serena Console, publicada por Il Manifesto, 10-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Todos os domingos, o Santo Padre intervém sobre as questões que considera mais candentes e atuais, comentando brevemente também uma situação internacional particular. Uma escolha que é cuidadosamente avaliada com base nas relações diplomáticas que a Santa Sé estreita com as potências estrangeiras.

Por ocasião do Ângelus do dia 5 de julho, o Papa Francisco deveria ter expressado pesar e preocupação com a crise que a cidade de Hong Kong está vivendo após a entrada em vigor da controversa Lei de Segurança Nacional. Palavras que o pontífice nunca proferiu.

Porém, jornalistas credenciados que receberam uma cópia do discurso de domingo, divulgado sob um embargo rígido uma hora antes da oração, aguardavam com interesse a sua oração. Bergoglio deveria ter lançado um convite aos habitantes da ex-colônia britânica para enfrentar com “coragem, humildade e não violência” a nova condição imposta por Pequim, afirmando ter acompanhado com particular atenção, e não sem preocupação, o desenvolvimento da complexa situação em Hong Kong.

Mas, pouco antes de o papa rezar o Ângelus, os jornalistas foram informados de que ele não leria o parágrafo sobre a cidade portuária.

Sendo um texto sob embargo, ele não existe. De fato, na cópia distribuída pela Sala de Imprensa, é bem evidente a nota que diz: “Vale apenas o que for proferido, salvo indicações diferentes”. Um truque nada novo para a diplomacia vaticana.

Ainda com o cardeal Agostino Casaroli, ex-secretário de Estado no pontificado do Papa João Paulo II e sábio tecelão da política da Santa Sé com os países comunistas, eram inseridos parágrafos no texto do Ângelus, que o pontífice, depois, não lia. A mensagem, embora não fosse proferida pelo Santo Padre, chegava mesmo assim ao seu destino.

Neste caso, provavelmente Pequim pode ter exercido alguma pressão sobre a Secretaria de Estado para que o papa não apresentasse, em rede mundial, o drama democrático que os cidadãos de Hong Kong estão vivendo. Não é fácil compreender nem prever o que está acontecendo nos bastidores da diplomacia chinesa e vaticana.

Esse episódio, porém, se soma a uma série de eventos que marcaram as relações bilaterais entre Pequim e a Santa Sé após o acordo provisório sobre a nomeação dos bispos, assinado na China no dia 22 de setembro de 2018 e quase vencendo. Depois de dois anos, o texto ainda é secreto, e houve poucos desenvolvimentos úteis para curar um vínculo interrompido desde 1951.

O Papa Francisco evidentemente quis enviar uma mensagem aos fiéis católicos em Hong Kong, mas sem irritar o gigante chinês que poderia se recusar a prorrogar o entendimento sino-vaticano.

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