O que foi conversado nos encontros entre o Papa Francisco e Murillo, Hamilton e Cruz, vítimas de Karadima?

Foto: Periodista Digital

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01 Mai 2018

O aperto de mão na chegada, gentil e afável, severamente educada, substituída no momento da despedida com um caloroso abraço, demorado e reciprocamente grato, talvez seja o ícone mais adequado para contar o evento.

A reportagem é de Luis Badilla e Leonardo Salinas, publicada por Il Sismografo, 30-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A conversa com Juan Carlos Cruz, nesse domingo à noite em Santa Marta, domingo, 29 de abril, concluiu a rodada de audiências do Papa Francisco com três das principais e mais conhecidas vítimas do sacerdote chileno Fernando Karadima, condenado de modo vitalício em 2011 por graves delitos contra seu ministério sacerdotal e a moral cristã.

Nesta segunda-feira, 30 de abril, conforme antecipado em uma nota vaticana, o Santo Padre se encontrará com todos os três, talvez na presença do oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, o catalão espanhol Mons. Jordi Bertomeu. Também poderia estar o arcebispo de La Valletta, Dom Charles Scicluna.

É provável que, em algum momento do encontro, alguns parentes das vítimas possam entrar para cumprimentar o Santo Padre: o filho de Andrés Murillo, a segunda esposa de James Hamilton e outras pessoas próximas a eles.

Dom Scicluna e Mons. Bertomeu foram enviados pelo Santo Padre ao Chile, em fevereiro, para aprofundar e recolher materiais sobre o caso dos supostos encobrimentos dos abusos sexuais de Karadima, ação que, há muitos anos, os três convidados do papa – Juan Carlos Cruz (55 anos), José Andrés Murillo (43) e James Hamilton (55) – atribuem ao atual bispo de Osorno, Dom Juan Barros.

No retorno, no fim da missão, Dom Scicluna e Mons. Bertomeu, que falaram com mais de 60 pessoas (incluindo Dom Barros e outros bispos), entregaram ao papa diversos relatórios que, no total, formam um dossiê de 2.600 documentos.

Nesse contexto, há algumas semanas, nasceu o convite do Papa Francisco a Cruz, Murillo e Hamilton, para encontros pessoais em Santa Marta. A ideia, disse-se, era a de poder falar com calma, por todo o tempo necessário, escutar suas opiniões e seu raciocínio, e também receber sugestões no âmbito da luta contra os abusos (e a prevenção) dentro da Igreja.

No total, os três falaram com o pontífice por quase sete horas, e todos declararam não só sua satisfação e alegria, mas também enfatizaram sua esperança, agradecendo pela atenção e bondade recebidas.

Sobre essas conversas, não há e não haverá uma versão ou relato oficial. A Sala de Imprensa vaticana, há alguns dias, disse que não era intenção do papa fazer declarações sobre o assunto. Foram conversas privadas e permanecerão assim para sempre.

Após o encontro com o papa, os próprios chilenos mantiveram uma relação com a imprensa bastante cautelosa e reservada. Suas únicas comunicações foram alguns tuítes lacônicos, mas muito significativos, dos quais transparece um fato central: com Francisco, eles se sentiram pessoas respeitadas, acolhidas e ouvidas.

Juan Carlos Cruz, após ter conversado com Murillo e Hamilton no sábado à noite no Twitter, escreveu: “Estou muito contente por ver meus queridos amigos Jimmy e José saírem de suas conversas com o papa tranquilos e em paz e se sentindo muito acolhidos pelo Santo Padre”.

Tudo isso torna ainda mais interessante a coletiva de imprensa anunciada para esta quinta-feira, 3 de maio, durante a qual, porém, é muito provável que eles mantenham a cautela e a prudência sobre o conteúdo de seus encontros papais. É mais certo que falem da situação da Igreja chilena e de suas vicissitudes com a hierarquia, a partir de 26 de abril de 2010 até alguns dias atrás.

Nossas informações e considerações sobre o que aconteceu, na sexta-feira, sábado e domingo em Santa Marta, são necessariamente indiretas, mas podemos assegurar que têm autoridade, embora sejam parciais.

Entre o papa e os três chilenos sempre existiu um clima de confiança e de afeto recíproco, embora, dependendo da personalidade dos três, cada um reagiu de modo diferente diante de Francisco: José Andrés Murillo, sereno, mas tímido; James Hamilton, seguro, mas controlado; e Juan Carlos Cruz, muito emocionado, mas muito lúcido.

Todos os três, depois dos primeiros minutos um pouco hesitantes, foram sempre muito coloquiais e loquazes, revelando com transparência o evidente desejo de se explicarem bem e de se fazerem entender até o fim pelo Santo Padre, que, por sua vez, permaneceu quase sempre à escuta, sem nunca ocupar a cena, fazendo aos seus interlocutores, em diversos momentos, perguntas muito profundas.

Além disso, o papa sempre fez tudo o que era possível e necessário para deixar José Andrés, Juan Carlos e James à vontade, o que não é difícil nem artificial para ele, porque, como se sabe, esse é um dos seus carismas pessoais. E assim foi também nos momentos de oração.

O tempo das conversas para todos os três, com uma duração superior a duas horas para cada um, passou como um “instante fugaz”, apesar da gravidade e da dramaticidade dos conteúdos, e em nenhum momento pareceu que os interlocutores tivessem uma espécie de pauta pré-fabricada.

A nota dominante foi a absoluta espontaneidade, imediaticidade, falta de cálculos. Não se falava com um gerente ou um diretor-executivo.

Desde o início, Murillo, Cruz e Hamilton tiveram a nítida sensação de falar com um “pai”, com uma pessoa que sempre apreciaram, com quem brigaram e polemizaram, e com quem foi possível recuperar todos os fios da esperança rompida, da dor humilhada e do isolamento frio.

Nesse domingo à noite, pouco depois de 20h30, de Santa Marta, Juan Carlos Cruz lançou este tuíte: “Mais de duas horas e meia durou minha reunião de hoje com o papa. Estou comovido. Ele me escutou com grande respeito, carinho e proximidade, como um pai. Aprofundamos muitos temas. Hoje tenho mais esperança no futuro da nossa Igreja. Apesar de a tarefa ser enorme”.

O aperto de mão na chegada, gentil e afável, severamente educado, substituído no momento da despedida por um caloroso abraço, demorado e reciprocamente grato, talvez seja o ícone mais adequado para contar o evento.

Alguns interlocutores observaram nestas horas que o Papa Francisco sempre pareceu estar sereno e relaxado, mas, ao mesmo tempo, muito atento e concentrado e, em inúmeros momentos das conversas, fez anotações. Como sempre, foi afável, às vezes brincalhão, disponível e muito interessado também na vida atual de Cruz, Murillo e Hamilton, nas suas famílias, atividades profissionais e naquilo que cada um queria comunicar sobre como agir diante dos casos de abuso (de consciência, de poder e sexual) e sobre como prevenir o fenômeno.

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