Que "forma" deve assumir um padre?

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06 Março 2018

Fabrizio Valletti é o autor do artigo “A busca contínua por uma ‘forma’”, publicado pela revista italiana Presbyteri, no. 2, 2018, dos Padres Venturinos, ou seja, da Congregação de Jesus Sacerdote.

Fabrizio Valletti é jesuíta e autor do livro Un gesuíta a Scampia. Como puó rinascere una periferia degradata, depois de cumprir várias funções, foi enviado para a periferia de Nápoles. No artigo que aqui publicamos, ele explica sua ideia de "formação permanente" dos sacerdotes.

O artigo é reproduzido por Settimana News, 23-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Confrontados com o refrão "a culpa é dos padres se a Igreja está sendo abandonada", muitas vezes a vontade é desistir. Nem vale a lembrança de todas aquelas experiências que alguns, verdadeiros pastores, insistem em levar adiante no meio de imensas dificuldades e que mostram como o Evangelho ainda esteja vivo e praticado.

Devemos passar por cima e nos colocarmos novamente em "caminho”, tentando trazer alguma ordem às ideias. Isso é o que se propõe a revista com esta edição dedicada à "formação permanente" dos sacerdotes.

Caso tenhamos encontrado algumas boas sugestões na leitura o que foi apresentado na edição anterior sobre a formação nos seminários, vale a pena não desistir e, com coragem, acompanhar o sacerdote em sua ação pastoral, que sempre precisa ser atualizada e incentivada. De nossa parte, viver uma atenção "permanente".

Trata-se justamente de se colocar em "ação" no plano cultural e espiritual. É interessante notar que muitas expressões comuns na linguagem que dizem respeito à vida espiritual e pastoral sejam palavras compostas: "voc-ação", "medit-ação", "contempl-ação", "ador-ação", "evangeliz-ação" ...

Algo importante elas têm a dizer. Por exemplo, quando nos sentimos chamados para fazer uma escolha de serviço total como a "vocação" comporta, a "avali-ação" de sua verdade e de sua "realiz-ação" plena poderá ser reconhecida na própria ação que se desdobra na vida.

Muitas vezes penso que também a ''invoc-ação" que caracteriza a nossa oração tem a sua melhor realização se formos capazes de perceber o que somos chamados a cumprir a favor dos outros, confortados nas nossas capacidades, sim importantes, mas sustentadas pela presença do espírito.

A “invoc-ação” na oração do sacerdote pode ser de fato traduzida nas respostas que devem ser dadas a quem te chama, te procura, ou entra no teu pensamento justamente quando estás em silêncio. Já me aconteceu várias vezes de ter que confortar irmãs que se confessam lamentando a distração durante a oração, lembrando a elas: "Irmã... é um sinal de que alguém está te procurando..."

Não há verdadeira humanidade se não se dá corpo ao que consideramos útil e necessário. É como fazer com que ressoe o mistério da “incarn-ação" em nós mesmos que nos tornamos a mais bela expressão da Palavra que se fez carne. Paulo não teria justamente expressado a maravilhosa intuição que nos faz partícipes de "toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo. Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo..." (Ef 1,3-4). E é na caridade que se cumpre o ato de ser um só com Cristo.

Realizar, dar cumprimento, concretude e práticas ... são todas expressões de um único design que vê na pessoa a estreita unidade entre pensamento e ação, entre espírito e corpo, entre sentimento e amor.

Como relacionar essas reflexões com a vida do sacerdote? Parece-nos que respondam à necessidade de que a sua "form-ação permanente" nasça das experiências mais vividas de encontro com aqueles que desejam servir com amor e competência. Pode ser a percepção honesta que em cada experiência seja necessária uma permanente "busca pelo melhor." Novamente, pode ser usado um neologismo, "busc-ação", em relação a uma missão que está tão ligada ao tempo em mudança, aos lugares em que vivemos e às pessoas que pretendemos encontrar.

O "o que procuras" (Jo 1,38) que Jesus pronuncia para dar responsabilidade aos discípulos do Batista que o encontram, poderia ressoar nas consciências de cada sacerdote que enfrenta uma escolha, que precisa dar sempre novas respostas nas diferentes circunstâncias da vida.

Seguir Jesus significa ser capaz de sempre identificar a "Boa Notícia", saber como encontrar a novidade libertadora, a alegria plena de uma nova comunhão e uma superação de eventuais conflitos. É o mesmo espírito de busca que move o cientista, que ilumina a criatividade do artista, que estimula o melhor serviço de caridade e uma vontade de curar as piores contradições. Resultado de uma busca que é relevante para a vivência, para a questão do sentido, para a fecundidade espiritual; é sempre algo de novo, inclusive expressão arrebatadora de uma paixão que toma forma.

É bom pensar sobre as formas mais emocionantes de expressão que acompanham as nossas vidas - dos gestos mais simples, como um aperto de mão, um abraço ou ficar de mãos dadas, até a capacidade de tecer uma relação, com a escuta, a compreensão e a solidariedade.

Para um padre é considerado óbvio que devemos nos envolver em atividades contínuas, fruto de um discernimento que responde a reais situações da vida. É justamente na "avali-ação" da sua eficácia que pode ser medido o seu "valor". Como escolher sem sucumbir ao ritmo agitado que não deixa tempo para estudar, rezar, compartilhar ideias com colegas ou coirmãos? Como responder ao sentido de uma missão que ultrapassa o simples agir por interesse e por ganhos pessoais? O serviço ao qual é chamado o sacerdote tem a característica de resumir uma série de valores que variam das capacidades humanas até a transparência do dom da Graça que lhe foi confiado pelo Espírito através da Igreja.

Seu serviço toma "forma" de acordo com as situações que encontra ao responder, aplicando aqueles recursos que a tradição apostólica antes e a evolução da experiência eclesial ao longo da sua história, colocam à sua disposição.

Falamos deliberadamente de "forma" e não de papel, de expressão sempre em vir a ser e não de práticas eclesiásticas e costumes enraizados em culturas específicas. Falamos de forma e não de formalidade. É fácil colocar ao lado do papel do padre uma série de "formalidades" que são desejadas por ele mesmo, facilmente solicitadas ou atribuídas a ele por aqueles que convivem com ele, especialmente os mais devotos e devotas.

Sua maneira de vestir, de falar, de passar o tempo... de acordo com a mentalidade de muitas pessoas devem respeitar um conjunto de regras que o distingam dos leigos comuns. Em muitas circunstâncias, é também atribuída ao padre uma imagem que pode ter pouco a ver com o seu serviço pastoral, mas que as condições sociais e culturais elaboram e exigem na busca de uma proteção ou de uma tutela que não tem nada de espiritual e de evangélica. A primeira coisa que vem à mente é que, especialmente em pequenas cidades, costuma-se associar o padre com o médico, o farmacêutico, o professor ... pessoas que se distinguem por seu nível cultural e posição social.

Desagradável é a experiência que associa o sacerdote com o homem de poder que, por seu conhecimento e relações, é capaz de "recomendar", de favorecer uma posição, um emprego, um privilégio.

A formação permanente pode então significar a busca constante para a forma correta para dar ao próprio serviço e presença entre a comunidade, um sinal de gratuidade e de liberdade acima de tudo. Uma atenção continua para não cair na armadilha da sedução que muitas formas de vida podem induzir quando se convive com elas, para não ser diferente do estilo de vida comum daqueles que frequentamos. Especialmente o ambiente burguês é como um polvo que pode condicionar com suas aparências e com aqueles descontraídos hábitos ao luxo, ao quadro do supérfluo e da ambição.

Quanta fofoca e falsa respeitabilidade estão presentes quando se frequentam os salões e as mesas bem paramentadas, mesmo na correta intenção de levar a Palavra ou o bom conselho!

A atenção permanente para sermos sinceros e eficazes portadores do bem deve ser bem vivenciada também quando encontramos e frequentamos os pobres. Estas devem ser preferidos ao dedicar o tempo e a energia, mas quanta sabedoria também é necessária! Eles também são reais fontes do bem quando mostram sua tenacidade em suportar o sofrimento de tantas privações. Eles ensinam sem saber quando acolhem oferecendo o pouco que têm. Eles próprios se tornam testemunhos da Boa Nova ao revelar uma fé e uma esperança que não está vinculada a uma afirmação pessoal, mas muitas vezes a preocupações de que seus filhos possam crescer saudáveis, que possam estudar, que os idosos sejam atendidos e que aos doentes não faltem os tratamentos necessários. Assim se colhe o essencial! Mas quanta atenção deve ser exercida para impedir que suas necessidades possam se tornar pretexto, muitas vezes agressivo. É então que descobrimos o quanto em nós é sincero o desejo de ajudar e de não criar dependência. A obra da misericórdia que o Senhor convida-nos a experimentar nunca deverá ser um motivo para o auto comprazimento, na ilusão de que podemos conquistar "pontos para o paraíso"!

É uma autêntica formação permanente conectar a ação da caridade para uma efetiva promoção de justiça, envolvendo laicos e instituições que devem ser adequadamente preparados para superar a lógica da assistência, para elaborar projetos de desenvolvimento e libertação. A sociedade oferece muitas possibilidades quando se entra em contato com as forças presentes na área, e nós podemos escolher e envolver as mais sérias e estruturadas. As melhores experiências são aqueles que nos colocam em uma relação desinteressada e eficaz com aqueles que têm mais competência e capacidades organizacionais.

Muitas vezes podemos lastimar que as instituições públicas estejam ausentes ou que sua intervenção seja inadequada. Uma intervenção de suplência pode ter a urgência de sanar situações de grave dificuldade e pobreza. Nossa tomada de consciência nasce de uma sincera emoção quando nos encontramos com pessoas reais em sua dor ou na alegre experiência de afetos verdadeiros e sinceros.

Questionamo-nos se esse seria o terreno ideal para uma justa mensagem evangélica e para um serviço que capte o mistério do Espírito de Jesus que, pela fé, sabemos estar no coração de cada um. Voltando à questão sobre qual seria a melhor "forma" para se viver e expressar no serviço de amor, que é ser padre, a baixa voz poderíamos dizer que unir a fé ao desejo de desenvolver as pessoas na sua cultura e na sua dignidade pode ser a mais bela resultante de uma formação que nunca se interrompe. Não é tão importante, então, se preocupar com a própria formação permanente, quanto contribuir a dar forma contínua e sempre nova para a humanidade que encontramos, que muitas vezes é tão distante daquela forma que o Criador pensou, antes mesmo da própria criação para a humanidade.

A verdadeira forma torna-se um "sinal", torna-se uma oportunidade visível para compartilhar a esperança de que o mal pode ser eliminado. Mas, então, o discurso se amplia, porque envolve aquela necessidade que os sinais que a Igreja oferece, como os sacramentos, não podem estar distanciados de vida das pessoas. Não podem estar tão distanciados da vivência das pessoas e apenas simbolicamente representativos, de modo que não consigam comunicar a sua verdadeira razão de ser. O discurso continua e requer que a formação-atenção seja permanente!

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