"Um terço do mundo vive blindado à sombra de um muro"

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15 Setembro 2017

Toda a existência "à sombra do muro". Como aquela dos jovens israelenses e palestinos que cresceram separados por uma parede de metal que, desde a sua fundação em 2002, nunca parou de se expandir. Muro este, entre Israel e Palestina, que é o símbolo de uma realidade muito mais ampla: existe, 28 anos depois da queda do Muro de Berlim e dos entusiasmos de então pela "reunificação do mundo", uma nova geopolítica da separação entre os povos, que nestes últimos anos vem experimentando uma impressionante aceleração.

A denúncia é da Caritas italiana, contida no dossiê "À sombra do muro", que será apresentado durante o seminário “Além dos muros: comunidades que se encontram e nos contam", programado para a manhã do dia 14/09/2017, em Roma.

A reportagem é de Luca Geronico, publicada por Avvenire, 14-09-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Quando o Muro de Berlim foi derrubado, afirma a Caritas italiana com base em um estudo realizado pela Universidade de Quebec, podiam ser contadas em todo o planeta 16 separações entre um país e outro. Hoje, são 63, concluídas ou em fase de planejamento. "A globalização que deveria ter levado a uma eliminação progressiva das barreiras remanescentes - afirma o estudo - foi na realidade a causa do renascimento dos temores sobre a segurança. Um terço dos países do mundo possui atualmente barreiras, de diversas tipologias, ao longo de suas fronteiras".

Ampliando o olhar sobre as fronteiras do mundo, os dados levantados deixam pouca dúvida sobre qual seja a efetiva tendência do novo século.

Na África existem 12 barreiras, duas na América - aquela que separa os Estados Unidos do México e a que divide México e Guatemala - enquanto são 36 os muros que tornam Ásia e Oriente Médio um verdadeiro mosaico. E a velha Europa - o coração da reunificação das duas Alemanhas, e entre Leste e o Ocidente do pós-Guerra Fria - conta com 16 barreiras, a maioria na sua parte oriental.

Um verdadeiro boom da "fronteira fortificada", que atingiu o seu ápice nos últimos anos: 13 destas barreiras foram colocadas a partir de 2013, em decorrência da reabertura da rota dos Bálcãs para os migrantes. Em 2015, em todo o mundo, iniciaram as obras de 17 barreiras, às quais devem ser acrescentadas mais 4, começadas em 2016. Desde o ano 2000, "cerca de 10 mil quilômetros de concreto e arame farpado segregam terras e reforçam fronteiras" da Hungria à Bulgária, da Arábia Saudita à Índia "para conter os migrantes e proteger-se de terrorismo". Estas são as duas clássicas motivações para a construção de barreiras que, além de físicas, tornam-se psicológicas e culturais. Por fim, também fez seu aparecimento uma terceira tipologia de muros: aquela entre ricos e pobres, como em Pretória, na África do Sul.

Uma geopolítica da divisão que é, inclusive, tipicamente europeia: se na rota dos Bálcãs, a partir de 2012, foram construídos o muro de Evros entre a Grécia e a Turquia e, depois aquele entre a Bulgária e a Turquia, no ano passado houve uma verdadeira explosão de muros anti-imigração. Em 2016 foram restaurados os controle de fronteira entre a Hungria e o Fyrom (Antiga Macedônia) e foram construídos 175 quilômetros de barreiras entre a Hungria e a Sérvia. Além disso, houve um impressionante aumento de investimento para os controles fronteiriços. O orçamento da Frontex, a agência da UE para o controle das fronteiras, de 2014 a hoje praticamente triplicou, passando de 97 milhões de euros a 281 previstos para 2017.

Um investimento econômico sem precedentes para o controle das fronteiras, que coincidiu com o recorde de mortes: em 2016 - afirma a Organização Mundial para as migrações - 5.143 pessoas perderam suas vidas no Mediterrâneo, 1.382 na África do Norte, 398 na fronteira EUA/México, somando um total de 7.927 vítimas das fronteiras; em 2015 as vítimas no Mediterrâneo foram 3.784, 800 no Norte de África, 337 na fronteira EUA/México, para um total de 6.259 vítimas.

Cada muro, afirma Paolo Beccegato, vice-diretor da Caritas italiana “documenta um fracasso coletivo. As maiores responsabilidades cabem às políticas, locais e internacionais; contudo, cada muro com sua história específica é também um fracasso cultural, social e das relações internacionais". Por isso aguarda um “conhecimento mais aprofundado sobre o resultado dessas barreiras, especialmente nas vidas de civis e, entre eles, dos mais pobres". Um fenômeno, para dizer o mínimo, "preocupante" segundo Paolo Beccegato, que pede ao mundo da política, "uma reconsideração radical das relações internacionais, colocando no centro o homem e todos os homens, a solidariedade entre as nações e construção de relações e não de muros" .

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