14 Agosto 2026
O governo Trump anunciou planos para fornecer cerca de US$ 2 bilhões em financiamento a grupos religiosos e comunitários para assistência humanitária e de saúde em mais de uma dúzia de países, atraindo elogios dos grupos que receberão financiamento e críticas de outros por sua ênfase no financiamento de organizações cristãs.
A reportagem é de Adelle M. Banks, Yonat Shimron e Bob Smietana, publicada por National Catholic Reporter, 12-08-2026.
A assistência, que surge após os cortes drásticos do governo no apoio global antes oferecido pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), faz parte dos compromissos detalhados na Estratégia Global de Saúde "América Primeiro", divulgada pelo Departamento de Estado em setembro passado. Segundo o governo, que anunciou o financiamento na quinta-feira (6 de agosto), a estratégia prioriza os interesses americanos, ao mesmo tempo que promove assistência para salvar vidas.
A maior parte do financiamento — US$ 1,4 bilhão — deverá apoiar cerca de 2.500 hospitais e clínicas religiosas, além de treinar e remunerar dezenas de milhares de agentes comunitários de saúde para prestarem serviços de assistência médica.
A World Vision, organização humanitária evangélica internacional, e um consórcio de grupos religiosos locais receberão uma verba para uma Iniciativa de Fé e Comunidade destinada a fornecer serviços de saúde, totalizando "até US$ 850 milhões ao longo de cinco anos, sujeito à disponibilidade de fundos", informou o Departamento de Estado.
Além disso, US$ 570 milhões estão reservados para hospitais e clínicas comunitárias e religiosas por meio de memorandos de entendimento assinados com governos nacionais.
Um gráfico presente no relatório estratégico de 40 páginas citava a influência e o "alcance religioso" de clínicas e hospitais religiosos em 10 nações africanas, tanto para cristãos quanto para muçulmanos. "Por exemplo, os prestadores de serviços religiosos representam mais de 50% da capacidade de atendimento em Eswatini e Uganda e mais de 40% em muitos outros países", afirmava o relatório.
Mas o financiamento para assistência humanitária no exterior não parece incluir nenhum grupo não cristão sediado nos EUA. O American Jewish World Service, a principal organização judaica que trabalha para combater a pobreza e se recuperar de desastres naturais e causados pelo homem, por exemplo, não fazia parte do consórcio criado pelo Departamento de Estado.
"Embora a AJWS seja uma organização orgulhosamente religiosa, não fomos consultados e só tomamos conhecimento desse financiamento quando o Departamento de Estado divulgou um comunicado à imprensa", disse Tawanda Mutasah, presidente e CEO da AJWS.
Mutasah também levantou dúvidas sobre se o financiamento conseguiria chegar àqueles que mais precisam.
"Dadas as barreiras ideológicas criadas pelo governo — incluindo a ampliação das regras da Global Gag — esse dinheiro simplesmente não pode chegar às pessoas que mais precisam, incluindo aquelas que são invisíveis para os provedores conservadores e religiosos", disse ele em um comunicado. As regras da Global Gag referem-se a uma política do governo dos EUA que bloqueia o financiamento federal para organizações estrangeiras que fornecem serviços de aborto, aconselhamento, encaminhamento ou defesa do aborto legal.
Entre os beneficiários, US$ 538 milhões para assistência humanitária em crises serão destinados à Samaritan's Purse, outra organização evangélica de ajuda humanitária, e a um consórcio coliderado pela World Vision e pela Compassion International em colaboração com a Accord Network, todos grupos cristãos.
A Accord Network, que se descreve como um catalisador para o trabalho de ajuda humanitária e desenvolvimento realizado por "organizações centradas em Cristo", já havia criticado o governo Trump quando este anunciou sua decisão, no ano passado, de cortar a grande maioria dos programas da USAID.
A Associação Nacional de Evangélicos, cujo braço humanitário, a World Relief, perdeu contratos durante os cortes da USAID e faz parte do novo consórcio de financiamento, saudou o anúncio do Departamento de Estado.
"Hospitais, clínicas, agentes comunitários de saúde e organizações humanitárias de cunho religioso combinam relações de confiança com a comunidade local e serviços humanitários com os recursos e o apoio diplomático que o governo pode oferecer", afirmou Walter Kim, presidente da NAE, em comunicado.
A Freedom from Religion Foundation classificou os planos do Departamento de Estado como "ultrajantes" e observou que sua verba "inclui centenas de milhões de dólares para alguns dos maiores ministérios cristãos evangélicos do mundo".
"O governo está abertamente reestruturando a assistência externa americana com base na religião", disse a copresidente da FFRF, Annie Laurie Gaylor, em um comunicado. "A ajuda humanitária deve ser baseada na necessidade humanitária e na capacidade de fornecer serviços eficazes e seculares, e não em se uma organização 'coloca a fé em ação'. Os contribuintes não devem ser obrigados a financiar a campanha de um governo para promover e subsidiar a religião."
O Departamento de Estado também anunciou recentemente o financiamento de grupos seculares que prestam ajuda humanitária internacional. Além disso, informou ter liberado US$ 600 milhões em fundos aprovados pelo Congresso para a Gavi, a Aliança de Vacinas, com o objetivo de ampliar o acesso a vacinas em todo o mundo.
Heather Taylor, CEO interina e presidente da Bread for the World, grupo cristão de combate à fome, afirmou que os consórcios religiosos que recebem financiamento são liderados por grupos com "décadas de experiência em fornecer assistência nos locais mais remotos do mundo", mas que é necessária mais ajuda global.
"Os cortes do ano passado nos programas globais de saúde, nutrição e assistência alimentar foram realmente prejudiciais ao trabalho conjunto para acabar com a fome", disse Taylor em um comunicado. "Continuaremos a trabalhar com o governo e membros do Congresso para que recursos/financiamento adicionais proporcionem acesso a tratamento essencial para a desnutrição, serviços de saúde materna e ajuda alimentar — especialmente para as comunidades que foram profundamente impactadas pelos cortes na USAID."
A declaração da World Vision afirmou que outros grupos envolvidos na Iniciativa Fé e Comunidade são a Catholic Relief Services, a Adventist Relief and Development Agency International, a HOPE Worldwide, a International Care Ministries e a LifeNet International.
Em um comunicado separado divulgado em junho, o Departamento de Estado anunciou um financiamento de US$ 250 milhões em assistência humanitária para a Catholic Relief Services.
Algumas das organizações religiosas de ajuda humanitária mencionadas como beneficiárias das subvenções já receberam financiamento federal no passado.
No ano fiscal encerrado em setembro de 2025, a World Vision informou ter recebido US$ 511 milhões em subsídios governamentais, de acordo com o Formulário 990 anual da organização sem fins lucrativos, uma declaração financeira do IRS (Receita Federal dos EUA). No ano anterior, a organização recebeu US$ 636 milhões em subsídios governamentais.
O CEO da World Vision, Edgar Sandoval, disse ao Christianity Today no ano passado que a World Vision perdeu cerca de US$ 170 milhões depois que o governo Trump fez cortes drásticos na ajuda externa.
De acordo com seu formulário de divulgação financeira para o ano fiscal que termina em setembro de 2025, a Catholic Relief Services relatou ter recebido US$ 550 milhões em subsídios governamentais. No ano anterior, o grupo relatou ter recebido US$ 761 milhões em subsídios.
De acordo com sua auditoria anual, a ADRA International recebeu US$ 36 milhões em subsídios federais diretos no ano fiscal que termina em dezembro de 2025 e US$ 69,9 milhões no ano anterior.
A Samaritan's Purse teve uma longa relação com a extinta USAID. Mas a assistência governamental sempre representou uma pequena parcela do orçamento total da Samaritan's Purse, disse Franklin Graham, seu presidente e CEO.
"A Samaritan's Purse é sustentada principalmente pelo povo de Deus", disse Graham em um comunicado. "Recebemos financiamento governamental para projetos específicos sob diferentes governos ao longo dos anos, e isso sempre representa uma porcentagem muito pequena do nosso orçamento total. Não dependemos do governo para financiamento."
A Samaritan's Purse não condiciona a prestação de auxílio à fé. No entanto, permite e até incentiva que seus colaboradores falem sobre sua fé.
"Esta doação e qualquer financiamento que possamos receber do Departamento de Estado dos EUA não mudarão a forma como operamos; simplesmente nos permitirão ajudar mais pessoas necessitadas em todo o mundo", disse Graham em seu comunicado. "Qualquer que seja a crise, sempre respondemos em nome de Jesus."
Os novos fundos serão usados para responder a desastres em todo o mundo, como os terremotos que atingiram recentemente a Colômbia e a Venezuela. A Samaritan's Purse instalou hospitais de campanha de emergência na Venezuela e na República Democrática do Congo, onde está tratando pessoas que contraíram Ebola. Graham disse que um carregamento de suprimentos de ajuda humanitária será enviado por via aérea para a Colômbia.
"Também usaremos esse financiamento para fornecer ajuda adicional em países onde há uma necessidade contínua de assistência humanitária para salvar vidas, como o Sudão, onde trabalhamos há mais de 30 anos", disse Graham.
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