Solenidade de Pentecostes - O dom do Espírito, plenitude da Páscoa. Comentário de Penha Carpanedo

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18 Mai 2018

A morte de Jesus pareceu colocar fim no grande sonho de uma nova humanidade e, no entanto, a morte não teve a última palavra. O frágil grupo dos discípulos e discípulas, trancados por medo, passam da casa ao espaço aberto, torna-se uma comunidade em saída amparada pela presença do Ressuscitado e do seu Espírito. E aí se verifica o terceiro sinal de pentecostes: todos entendem a voz de Deus e finalmente a confusão de Babel se desfaz. O Espírito torna a Igreja capaz de traduzir o Evangelho na cultura de cada povo e de cada pessoa. Doravante cada um, cada uma pode louvar a Deus em sua própria língua. 

A reflexão é de Penha Carpanedo,cddm, religiosa da Congregação Discípulas do Divino Mestre, membro da Rede Celebra. Ela coordena o serviço de redação da Revista de Liturgia e atua na formação litúrgica das comunidades e nas escolas de Liturgia, na perspectiva da iniciação cristã.

Referências bíblicas
1ª leitura - At 2,1-11 - Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava.
Sl 104(103) - Enviai o vosso Espírito Senhor e da terra toda a face renovai.
2ª leitura – 1 Cor 12,3b-7.12-13 - A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum.
Evangelho - Jo 20,19-23

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: 'A paz esteja convosco'. Depois destas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: 'A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio'. E depois de ter dito isto, soprou sobre eles e disse: 'Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos'.

O dom do Espírito Santo é a plenitude da Páscoa. Segundo o Evangelho de João, a elevação de Jesus na cruz reúne, num só ato, a morte, a ressurreição e o dom do Espírito. Na cruz a água que jorra de seu lado aberto é sinal do Espírito.

No Evangelho (Jo 20,19-23) que ouvimos neste domingo de Pentecostes, Jesus entrega o Espírito, no mesmo dia da ressurreição. Tudo acontece a partir da casa que abriga a comunidade reunida no primeiro dia da semana. Os traços de uma celebração dominical são evidentes: Dia do Senhor, presença de Jesus na comunidade, reconciliação, memória da paixão, dom do Espírito.

Nesta narrativa de João um nexo entre Espírito Santo e a remissão dos pecados. O Ressuscitado mostra aos discípulos as marcas da brutalidade sofrida em seu corpo e oferece a paz à comunidade, prova de que ele venceu a morte em si próprio e comunica à comunidade o caminho para participar da sua páscoa: vencer a violência com uma resistência pacífica. Esta é a obra do Espírito que Jesus entrega à comunidade-discípula que recebe com o dom do Espírito o ministério da reconciliação. A Igreja é chamada a narrar a compaixão de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos para o perdão, jamais a condenação.

O perdão verdadeiro nunca é fácil e rápido [seria hipocrisia]. O perdão resulta de um percurso que supõe reconhecer e dar nome à injustiça sofrida, dar tempo ao luto por aquilo que se perdeu; encontrar razões profundas pelo mal suportado, saber-se perdoado por Deus em Cristo. Os próprios discípulos e discípulas tiveram que fazer no coração esta peregrinação do luto pela morte de Jesus, com tudo o que houve de violência e injustiça nesta morte.

Como o Ressuscitado dá o Espírito mediante seu corpo ferido, assim o Espírito, recebido pelos discípulos, vivifica o seu corpo eclesial paralisado e enclausurado pelo medo e pela tristeza.

Esta necessidade de tempo no caminho da fé talvez possa iluminar o fato de Lucas, na primeira leitura (At 2,1-11) adiar para cinquenta dias depois da páscoa a manifestação do Espírito ao mundo. Foi um tempo necessário para os discípulos e discípulas se reconstituírem após a morte de Jesus.

E a Igreja, na sua liturgia, acentua justamente esta manifestação do Espírito em Pentecostes. Celebra o dom que já operou em Jesus e na sua Igreja, e o invoca para que continue agindo na humanidade e em todo o universo.

Já no início da celebração a oração evoca o sentido deste último domingo da páscoa:

Ó Deus, nossa consolação, na alegria desta festa em que iluminas com o fogo do teu amor as comunidades de todos os povos e nações, derrama, sobre o universo inteiro, o dom generoso do teu Espírito e realiza agora no coração da Igreja as maravilhas que operaste no início da pregação do evangelho.

Os dois primeiros sinais desta manifestação no dia de Pentecostes são o vento forte e o fogo que lembram a manifestação de Deus no Êxodo e no Sinai – libertação e aliança.

A morte de Jesus pareceu colocar fim no grande sonho de uma nova humanidade e, no entanto, a morte não teve a última palavra. O frágil grupo dos discípulos e discípulas, trancados por medo, passam da casa ao espaço aberto, torna-se uma comunidade em saída amparada pela presença do ressuscitado e do seu Espírito. E aí se verifica o terceiro sinal de pentecostes: todos entendem a voz de Deus e finalmente a confusão de Babel se desfaz. O Espírito torna a Igreja capaz de traduzir o Evangelho na cultura de cada povo e de cada pessoa. Doravante cada um, cada uma pode louvar a Deus em sua própria língua.

Finalmente, em Pentecostes o Espírito é celebrado como princípio que articula e ordena os dons e os ministérios na comunidade, para a “utilidade comum” conforme 2ª leitura da primeira carta aos Coríntios. Todo ministério supõe um carisma. Ministério é um dom recebido e reconhecido, colocado a serviço. Além disso, o ministério não se justifica por si mesmo, mas corresponde a necessidades reais e vitais. Quando se criam serviços para justificar ministérios, tem-se uma inversão desastrosa.

A festa de Pentecostes é festa da Igreja que nasceu do lado aberto do salvador e manifestou sua missão no dia de Pentecostes. De fato, a Igreja não se identifica com a grandeza da instituição, nem com a eficiência de sua organização, mas se movimenta pelo sopro do Espírito que sustenta nela o dinamismo pascal do Crucificado-Ressuscitado.

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