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18 Mai 2018

São imagens fortes, que descrevem a ação do Espírito: uma poderosa ventania sacode os discípulos, tira-os de seu torpor e lhes solta a língua, para que anunciem a Ressurreição de Cristo. O fogo ardente que os anima ilumina os corações de quantos os ouvem proclamar as maravilhas de Deus.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras da Solenidade de Pentecostes, do Ciclo B. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Referências bíblicas

1ª leitura: «Todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas» (Atos 2,1-11).
Salmo: Sl 103(104) - R/ Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai.
2e leitura: «A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum» (1 Cor 12,3-7.12-13).
Sequência: Espírito de Deus, enviai dos céus um raio de luz!
Evangelho: «Como o Pai me enviou, também eu vos envio: e, tendo dito isto, soprou sobre eles» (João 20,19-23).

O sopro de Deus

Estamos aqui, obviamente, no campo das metáforas. Quando a Escritura diz que Deus é Espírito, quer dizer com isto que Deus não é corpóreo. Ora, o sopro humano é matéria, é corpo. Sim, mas o nosso sopro é alguma coisa que entra em nós e que sai de nós; é comunicação com o exterior, é deslocamento. Por isso, no evangelho, Jesus sopra sobre os discípulos e diz: «Recebei o Espírito Santo…» Algo sai dele e passa aos discípulos. E esta «mobilidade» faz com que estes se mobilizem. Aqui João não diz, mas é desde aí que eles partem para anunciar a Boa Nova. Foi aí que os ferrolhos de suas portas se fizeram saltar. Mas, de acordo com o quarto Evangelho, o dom do Espírito Santo se deu de modo mais discreto do que em Atos 2,1-5 (1ª leitura). Nada de ruído ensurdecedor, nada de vendaval impetuoso nem de qualquer fogo celeste. Pensemos antes naquele «ruído de uma leve brisa» que fez Elias sair da caverna onde passara a noite (1 Reis 19,12). Lucas, nos Atos, queria sobretudo fazer-nos pensar no dom da Lei, no Sinai. A Lei gravada na pedra, exterior a seus destinatários, vem dar lugar à «lei» interior, gravada nos corações. Esta nova lei não vigerá por obrigação, mas por inspiração, é importante dizer. E esta inspiração é que nos fará falar e agir, às vezes de modo imprevisível, porque «o vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai» (João 3,8). Este trecho do capítulo 3 de João está falando a respeito de um novo nascimento: o sopro que anima este homem novo é o sopro do próprio Deus. Por isso, da mesma forma que Jesus, somos chamados «filhos de Deus».

A que espírito pertencemos?

Em certo sentido, podemos dizer que o Espírito que nos foi dado com o nosso primeiro nascimento tem também, para além disso, algo a ver com as nossas «mentalidades». Em outras palavras, o Espírito de Deus não se contenta com nos animar de tempos em tempos, através de inspirações incontestáveis caso a caso. Não! Ele nos habita permanentemente. Ele faz em nós sua «morada». E pela acolhida que Lhe damos, na mais plena liberdade, Ele pode modelar totalmente os nossos modos de pensar e de viver. Há em nós «algo» que nos anima e que nos vem de alhures. Mas, para falar a verdade, o Espírito de Deus não é o único a poder colorir e nortear a nossa existência. Existem também outros «espíritos» que podem assombrar a nossa atmosfera: os «poderes do ar» de que fala Paulo em Efésios 2,2. O ar do tempo, se quisermos. Somos acossados pelo contágio do desejo de nos colocarmos acima dos outros; de nos fazermos «como deuses»; de construirmos torres de Babel que nos façam atingir os céus e que, enfim, nos tornem incompreensíveis uns para os outros. O Espírito de Deus nos faz abertos para os outros, porque substitui em nós o desejo de dominá-los pela vontade de servi-los e de lhes sermos úteis. Podemos, então, começar a nos compreender. É este «o dom das línguas», das línguas de fogo, a linguagem do amor. Porque, como acabo de dizer, acolher este Espírito de Deus depende de nosso acolhimento com plena liberdade. Temos de nos perguntar: a que espírito pertencemos? Ao espírito do mundo ou ao Espírito de Deus? Confiemos: o Espírito de Deus, que está à nossa volta e dentro de nós, é mais forte do que o Espírito do mundo.

O Espírito e o Corpo

Deus criou o mundo, distinguindo, diferenciando... Criou a luz e as trevas, o seco e o úmido… o masculino e o feminino. Assim, para ser completo, acabado, todo ser tem necessidade de uma aliança com o outro, com o diferente. A hostilidade, a guerra estão em contradição com o ato criador, que é um ato de amor unificante. O Espírito de Deus, Espírito criador que parte de Deus e vem até cada um de nós, também parte de nós e vai até cada um dos outros. Mas não para fazer suprimir as nossas diferenças, e sim para nos fazer conjugar, para aliar-nos com um liame conjugal. Os interlocutores dos discípulos, no dia de Pentecostes, ouvem-nos cada um em sua própria língua. Diversidade de modos de ser e de dizer que não é mais como em Babel um lugar de divisão, mas o instrumento de uma nova unidade. Dizer Espírito é dizer saída de si e comunicação: relação, portanto. Assim sendo, estamos aqui religados entre nós, porque religados com Deus. Religados e permanecendo nós mesmos. Um só Espírito, e, no entanto, uma multiplicidade de dons, de funções, de gostos… No capítulo 12 da primeira carta aos Coríntios, Paulo insiste longamente na diversidade dos membros do Corpo de Cristo que chamamos de Igreja. Há aí mais do que uma simples metáfora: na medida em que, sendo diferentes, nos fazemos um só, no Espírito, somos a visibilidade atual do Cristo, a revelação de sua presença no mundo. Mundo que, mesmo sem saber, caminha para a unidade: no amor.

Letra e música: Rosario Rocca / Missionárias de Cristo Ressuscitado)

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