23 Mai 2026
"Que possamos usar esta reflexão para olhar com mais atenção para aqueles que amamos, especialmente nos momentos em que o vazio, o sofrimento e a solidão parecem tomar conta de suas mentes e corações. Que jamais negligenciemos a dor silenciosa do próximo e que saibamos oferecer apoio, escuta e cuidado diante daqueles que enfrentam a depressão", escreve Christian Stähler Padilha, estudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, auxiliar de cataquese e estagiário do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
O Evangelho de São Mateus é, indiscutivelmente, um dos mais belos da Sagrada Escritura, e não apenas por abrir o Novo Testamento. Nele, somos apresentados aos primeiros anos da vida de Jesus Cristo (mesmo que com poucos detalhes), à sua missão redentora, ao início de sua vida pública, bem como aos seus ensinamentos salvíficos.
Em uma das passagens trazidas por Nosso Senhor, Cristo ensina sobre as preocupações mundanas no capítulo 6, mais especificamente nos versículos 25 ao 34. [1].
Nela, Jesus diz para não nos preocuparmos demasiadamente com nossas vidas, acerca do que temos de comer, beber e vestir. Afinal, olhando para os céus e suas belas aves, que não semeiam, nem ceifam e não fazem provisões nos celeiros, vemos que Deus as sustenta mesmo assim. O Salvador afirma que devemos buscar, acima de todas as coisas, o seu Reino e a sua justiça, e que todas estas coisas nos serão dadas por acréscimo.
O discurso termina, no versículo 34, com a orientação para não nos preocuparmos com o dia de amanhã, visto que ele tem seus próprios cuidados. A frase final é justamente a que está presente no título deste texto: “a cada dia basta o seu cuidado”.
Embora a passagem possa parecer mais conectada à ansiedade, ela também pode servir como base para refletirmos sobre a depressão, especialmente na velhice. Mas como?
Conceitos de depressão
Antes de tudo, é importante termos consciência do que se trata a depressão, especialmente a partir da visão de alguns dos grandes nomes da psicologia, como Sigmund Freud, pai da psicanálise, e Aaron Beck, criador da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
A visão freudiana sobre o transtorno está enraizada principalmente em sua obra Luto e Melancolia. Nela, a condição não é vista apenas como uma fraqueza ou uma doença química, mas também como uma reação à perda. Assim, o sofrimento tende a surgir quando o indivíduo retira sua energia psíquica — chamada por Freud de libido — de objetos externos e a volta contra o próprio eu. Nesse processo, o sujeito pode internalizar sentimentos de raiva e frustração, direcionando-os contra si mesmo. Em certos casos, isso pode fazer com que a pessoa desenvolva um profundo sentimento de autodesprezo ou culpa, podendo inclusive favorecer pensamentos suicidas.
Por sua vez, Aaron Beck compreendia a depressão como um transtorno associado a padrões de pensamento disfuncionais. Seu modelo cognitivo postula que o sofrimento surge quando o indivíduo interpreta a si mesmo, o mundo e o futuro de maneira negativa e distorcida. Em relação a si mesmo, a pessoa tende a se enxergar como culpada, incapaz ou sem valor; quanto ao mundo, passa a perceber suas experiências como fracassos ou obstáculos impossíveis de superar; já em relação ao futuro, acredita que o sofrimento nunca terá fim e que as coisas apenas irão piorar, desenvolvendo um sentimento de desesperança.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão é um transtorno mental sério que precisa ser tratado. Seus principais sintomas incluem tristeza persistente, perda de interesse ou prazer em atividades cotidianas por longos períodos.
Vale destacar que, dentro do que chamamos de depressão, existem diferentes subtipos. Entre eles, estão a depressão atípica, a depressão psicótica, a depressão endógena, a depressão secundária e a distimia, entre outros.
Faixa etária do transtorno
Engana-se quem acha que depressão é “coisa de adolescente”. Embora os jovens estejam entre os grupos mais afetados pelo transtorno, a doença pode prevalecer ao longo da vida em até 20% das mulheres e 12% dos homens. [2].
Entre os idosos, o transtorno ocorre em cerca de 13% da população brasileira na faixa dos 60 aos 64 anos, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, realizada em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). [3].
Sob tal ponto de vista, entre as possíveis razões associadas ao quadro, destacam-se o abandono familiar e a sensação de inutilidade causada pelo afastamento de atividades antes presentes na rotina, aspecto que será aprofundado ao longo deste texto.
Historicamente, fatores como condições financeiras, dificuldades profissionais e experiências ligadas ao trabalho tendem a influenciar a maneira como cada indivíduo lida com o sofrimento psíquico ou desenvolve o transtorno.
Workaholism, aposentadoria e a melancolia na terceira idade
A pobreza em nosso país limita o acesso a uma educação de qualidade, muitas vezes favorecendo a evasão escolar. Assim, muitos jovens deixam o colégio precocemente para ajudar no sustento da família. Esse fenômeno, longe de ser algo novo, pode impactar profundamente a personalidade da pessoa atingida e, consequentemente, a forma como ela educará seus filhos.
Na educação familiar, a superação das dificuldades por meio do trabalho, especialmente entre membros de gerações anteriores, muitas vezes é utilizada como uma espécie de motivação ou até mesmo de escudo diante do sofrimento emocional dos filhos. Frases como “na minha época, eu ia para a escola em condições infinitamente piores e não reclamava” refletem essa mentalidade.
Em alguns casos, há uma romantização da superação das dificuldades, que nem sempre são analisadas em toda a sua complexidade. Trata-se, muitas vezes, da normalização de problemas sociais graves que moldaram profundamente a subjetividade dessas pessoas, fazendo com que passassem a associar seu valor pessoal à produtividade, ao esforço regular e à necessidade incansável de ascensão. Nesse contexto, o indivíduo pode encontrar no sucesso profissional, no aumento salarial e na ascensão financeira uma fonte abundante de validação pessoal e reconhecimento social. Contudo, o problema nem sempre para por aí. É justamente nesse cenário que o vício em trabalho pode surgir.
O workaholism — termo em inglês que une as palavras work (trabalho) e alcoholism (alcoolismo), criado pelo psicólogo americano Wayne Oates — é um fenômeno caracterizado pela necessidade compulsiva e incontrolável de trabalhar, mesmo em situações que possam afetar profundamente a saúde mental do indivíduo.
Nessa perspectiva, a aposentadoria pode representar um fator desencadeador de sofrimento psíquico para alguns idosos. A transição de uma rotina profissional — desde os ambientes mais tranquilos até os mais intensos — para a inatividade pode se tornar um grande desafio. A pessoa pode perder o senso de propósito, sentir-se isolada e, dependendo de sua condição familiar, já não morar com os filhos ou com o companheiro, fatores que podem agravar quadros depressivos.
Existe aquele ditado popular que afirma que “o trabalho dignifica o homem”. Em condições saudáveis, isso pode ser verdade. O problema surge quando o serviço deixa de ser apenas uma parte da vida e passa a ocupar o centro da identidade do indivíduo. Nesse cenário, descansar pode gerar culpa, falhar profissionalmente pode significar sentir-se inútil, e a aposentadoria pode ser percebida como uma perda de valor pessoal. Quando a existência humana passa a depender exclusivamente da produtividade, o silêncio da rotina e a ausência do trabalho podem revelar um vazio emocional que antes permanecia escondido sob anos de esforço incansáveis.
Qual é o sentido da vida?
Seja qual for a idade, a vida parece perder as cores quando a melancolia toma conta da mente. Para alguém com o transtorno, a existência deixa de ser apenas algo a ser experimentado e passa a assumir a forma de um vazio quase infinito, marcado pela exaustão emocional. O futuro é visto como desastroso, enquanto a pessoa passa a se enxergar como um fracasso, podendo desprezar seus próprios feitos, memórias do passado e até desenvolver uma culpa aparentemente inexplicável, difícil de ser compreendida até mesmo por aqueles ao seu redor.
Na psicanálise clássica desenvolvida por Sigmund Freud, argumenta-se que os seres humanos enfrentam uma condição de desamparo estrutural desde a infância. Assim, o indivíduo tenderia a buscar a figura de um pai provedor e protetor, capaz de aliviar as dores da existência e o medo da morte. Nesse sentido, Freud, ateu convicto, via a religião como uma espécie de ilusão coletiva que ajudaria o ser humano a lidar com essa condição de vulnerabilidade. Para ele, a existência humana é guiada pela busca da felicidade e do prazer, encontrando parte de seu sentido na capacidade de amar e trabalhar.
Carl Gustav Jung, por sua vez, atribuiu outro significado à religiosidade ao romper com Freud. Para a psicologia analítica, a experiência religiosa é uma função universal da mente humana. Logo, a busca espiritual é percebida como uma necessidade genuína para o equilíbrio da psique. As crenças, nesse sentido, oferecem um significado maior para a vida, para além da dimensão material.
Viktor Frankl, best-seller por seu livro Em Busca de Sentido e sobrevivente dos campos de concentração nazistas, também traz uma contribuição interessante. Judeu praticante e fundador da Logoterapia — abordagem psicoterapêutica que compreende a busca de sentido como a necessidade mais profunda do ser humano —, Frankl percebia a religiosidade como uma das formas mais profundas e eficazes de encontrar significado para a existência. Todavia, é importante notar que ele não limitava essa experiência à adesão institucional a dogmas religiosos.
Embora a religiosidade tenha um papel importante na construção do sentido da vida, é importante destacar que a crença no divino não significa ausência de dúvidas e muito menos de depressão. Basta olharmos para o sacerdócio, em que alguns padres enfrentam uma depressão silenciosa, ou para a própria Igreja Católica, que, por meio da Santa Sé, reconhece a depressão como uma doença real, e não como simples falta de fé. A Igreja também apoia a ciência e incentiva os fiéis a buscarem tratamento médico e psicológico, compreendendo que a fé não deve substituir os cuidados oferecidos pela medicina.
Para finalizar, faço um convite à reflexão a partir do Salmo 121:5: “O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita”. Que possamos usar esta reflexão para olhar com mais atenção para aqueles que amamos, especialmente nos momentos em que o vazio, o sofrimento e a solidão parecem tomar conta de suas mentes e corações. Que jamais negligenciemos a dor silenciosa do próximo e que saibamos oferecer apoio, escuta e cuidado diante daqueles que enfrentam a depressão. Amém.
Notas
[1] A Bíblia usada de referência é a Matias Soares. Os números dos versículos podem variar dependendo da edição.
[2] Depressão. Governo Federal. Acesse aqui.
[3] Pesquisa do IBGE aponta que idosos são os mais afetados pela depressão. Jornal da USP. Acesse aqui.
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