Brasil bate recorde de feminicídio pelo quarto ano consecutivo: mais de 1.500 mulheres assassinadas em 2025

Protesto contra feminicídio na Ceilândia, Distrito Federal (Foto: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília)

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24 Julho 2026

A violência de gênero está aumentando, enquanto o número total de homicídios está diminuindo.

A reportagem é de Joan Royo Gual, publicada por El País, 24-07-2026. 

A cada quatro horas, uma mulher é assassinada no Brasil. O número de vítimas tem aumentado nos últimos anos e, em 2025, o país bateu novamente esse triste recorde: 1.571 mulheres assassinadas, 4% a mais que no ano anterior. Esse é o maior número desde que a legislação brasileira reconheceu esse tipo de crime, há uma década: o assassinato de mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Os dados são do relatório anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que destaca um paradoxo: as mulheres brasileiras estão em situação pior, enquanto o número total de homicídios no país é o menor em 13 anos.

As mortes são apenas a ponta do iceberg. Para cada mulher enterrada vítima de violência de gênero, há três outras tentativas de homicídio. Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a uma tentativa de feminicídio, 6% a mais que no ano anterior. Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que o aumento nos casos não pode ser atribuído apenas à melhoria no registro de dados e à diminuição da subnotificação, pois, nesse caso, os números já teriam se estabilizado. A tendência de alta é clara e consistente. “Precisamos focar intensamente nos feminicídios porque, mesmo com políticas públicas e 20 anos da Lei Maria da Penha em vigor (a lei pioneira contra a violência de gênero no Brasil), esses crimes não diminuíram”, lamentou em declarações ao portal de notícias UOL.

A maioria das vítimas são mulheres jovens (entre 25 e 29 anos) e negras (65%), e a grande maioria dos agressores são seus parceiros ou ex-parceiros: quase 80%. A especialista aponta que, além dos feminicídios, houve também um aumento nas denúncias de violência física e psicológica, bem como de violações de medidas protetivas e casos de assédio, sugerindo que as mulheres brasileiras estão gradualmente rompendo o silêncio. A culpa, acrescenta, recai sobre as autoridades públicas, que recebem esses alertas sobre um cenário de violência crescente, mas não agem de acordo.

Um exemplo disso é a inação do Estado diante das violações de medidas protetivas. Houve 132 mil violações no ano passado, 17% a mais do que em 2014. Pelo menos 70 mulheres foram assassinadas enquanto supostamente protegidas por lei, embora o número real seja provavelmente muito maior, já que os estados mais populosos do Brasil não forneceram dados.

Diante da crescente preocupação e conscientização pública, a classe política começa a reagir. Às vezes, com medidas bastante peculiares, como uma proposta em tramitação na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro que exige que os autores de violência contra a mulher usem uma tornozeleira eletrônica rosa para que possam ser identificados publicamente.

Em âmbito nacional, no início deste ano, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva apresentou um Pacto Nacional contra o Feminicídio para melhorar a coordenação entre os três poderes. Entre as medidas implementadas nos primeiros três meses de operação do plano estão a criação de um cadastro nacional de agressores e a redução do tempo médio de processamento de pedidos de medidas protetivas urgentes, que passou de 16 para três dias, segundo o governo.

O fato de a violência de gênero estar enraizada no Brasil fica ainda mais evidente quando observamos os números gerais: em 2025, foram registradas 40.775 mortes violentas, 8% a menos que no ano anterior, o menor número em 13 anos. Esse número vem diminuindo constantemente desde 2017, quando o recorde foi quebrado (mais de 67.000). Mesmo assim, alguns indicadores persistem, como os feminicídios e a violência policial, que continua a aumentar. A polícia brasileira, uma das mais letais do mundo, matou 6.602 pessoas no ano passado, um novo recorde. A insegurança é a principal preocupação dos brasileiros e será um tema central na próxima campanha eleitoral.

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