O que aconteceu entre o Instrumentum Laboris e o documento final do Sínodo?

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

03 Novembro 2018

Um documento descafeinado. Este é o sentimento de muitos, após a publicação do texto oficial do Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, cujo resultado final ficou muito abaixo das expectativas, inclusive daquilo que se falou no chamado Pré-Sínodo e que foi incluído no Instrumentum Laboris.

A reportagem é de Jesús Bastante e publicada por Religión Digital, 01-11-2018. A tradução é de André Langer.

A sensação é que, entre um e outro documento, os Padres Sinodais optaram por um texto de visão ampla, sem entrar de cheio nos temas escabrosos e evitando polêmicas, como aquela que aconteceu em 2015, quando uma nota de rodapé na página da Amoris Laetitia provocou uma ameaça de cisma diante da abertura à comunhão para os divorciados em segunda união.

O texto apresentado neste domingo ao Papa pede para favorecer a acolhida aos homossexuais e promover a presença feminina nos órgãos de responsabilidade da Igreja, mas não introduz nenhuma mudança substancial.

Também não reflete alguns dos pedidos específicos feitos na assembleia, como a criação de um ‘ministério’ vaticano para os jovens. Pede apenas “o estabelecimento de um corpo representativo de jovens em nível internacional”.

O texto também não responde à exigência de que as mulheres possam votar no Sínodo e dá um passo atrás no reconhecimento da diversidade sexual em relação ao Instrumentum Laboris, o documento de trabalho da assembleia, no qual se utilizava o termo LGBT.

O documento final do Sínodo menciona a pedofilia na Igreja, passa na ponta dos pés pela questão das drogas e pede aos jovens para que descubram o “justo valor da castidade” sem ocupar-se das relações sexuais anteriores ou fora do matrimônio.

Do Instrumentum Laboris...

O Instrumentum Laboris foi recebido como um banho de realidade, no qual o Vaticano admitia que “muitos jovens católicos não seguem as indicações da moral sexual da Igreja”, e incorporava pela primeira vez as avaliações mais duras dos jovens católicos sobre “temas polêmicos”, como os anticoncepcionais, a homossexualidade, o aborto, o matrimônio ou a questão de gênero, temas sobre os quais “os jovens já discutem livremente e sem tabus”.

Os jovens pediam para debater “abertamente e sem preconceitos” sobre estes e outros temas, que vão desde o desemprego até as novas tecnologias, passando pelos desafios das migrações, do trabalho precário, das novas escravidões, das drogas e inclusive o papel das mulheres. No entanto, o documento final concede apenas uma proposta de futuro: a de que nos próximos Sínodos se possa arbitrar uma posição para que leigos e mulheres (nem mesmo as religiosas que participaram das congregações puderam votar) tivessem voz e voto na tomada de decisões.

...ao documento final

O texto aprovado por mais de dois terços fala em convidar “as Conferências Episcopais e as Igreja particulares para continuarem este caminho, participando de processos de discernimento comunitário que também incluem aqueles que não são bispos nas deliberações” e de apostar decididamente em uma “Igreja Sinodal”, mas não concretiza.

O documento final inclui uma dura crítica ao clericalismo e ao drama dos abusos sexuais na Igreja, assim como à corrupção na cúria, algo que os jovens solicitaram durante o pré-sínodo. Mas apenas acrescenta propostas arriscadas sobre a igualdade homens e mulheres na tomada de decisões (como se reclamava no Instrumentum Laboris) e limita-se a recomendar “que todos estejam mais conscientes da urgência de uma mudança inevitável, também a partir de uma reflexão antropológica e teológica sobre a reciprocidade entre homens e mulheres”.

Sobre a questão LGBT, sigla que já aparecia no Instrumentum, mas desapareceu do documento entregue ao Papa, “o Sínodo reafirma que Deus ama todas as pessoas e a Igreja faz o mesmo, renovando o seu compromisso contra toda discriminação e violência sobre a questão sexual”. Ao mesmo tempo, considera que “é redutor definir a identidade das pessoas com base em sua orientação sexual”. Pouco para o que se esperava.

“Os jovens querem uma Igreja autêntica, uma comunidade transparente, acolhedora, honesta, atraente, comunicativa, acessível, alegre e interativa”, acrescenta o Instrumentum Laboris, que é dividido em três partes: Reconhecer, Interpretar e Escolher. Eles pediam uma resposta concreta da Igreja que, no documento final, não é dada. Agora temos de esperar para ver como o Papa molda os resultados do Sínodo, com a esperança de que, como ele mesmo assinalou, “o Sínodo é um caminho” e “uma boa vindima, que promete bom vinho”. Veremos.

Leia mais