25 Agosto 2017
Como todos os anos, milhares de psicólogos de todo o mundo reuniram-se para a Convenção da APA (American Psychological Association), onde são relatados os estudos e as reflexões que caracterizam as diferentes áreas da saúde mental. O padre Giuseppe Crea, comboniano, é psicólogo e psicoterapeuta, especialista em terapia individual e de grupo com orientação analítico-transacional, docente da Universidade Pontifícia Salesiana.
O artigo é de Giuseppe Crea, publicado por Settimana News, 22-08-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.
Falar de padres e freiras no contexto da saúde mental pode ser arriscado, mas saber que há anos o mundo católico participa e debate as problemáticas que as instituições religiosas vivem, pode ser encorajador, e realmente foi isso que aconteceu.
O contexto era complexo e articulado, mas havia espaço para um debate científico sério e apaixonado. Isso foi bem evidente na Divisão 36, relacionada com a Psicologia da Religião, onde ocorreu a sessão sobre a vida religiosa e sacerdotal na Itália, intitulada The psychological temperament of Catholic priests and religious sisters in Italy: An empirical enquiry.[1]
Foi possível apresentar alguns dados com os resultados de diversos estudos realizados na Itália no âmbito da vida consagrada, com padres e freiras que participaram de programas de formação continuada.
Depois de explicar as tendências estatísticas, as características fatoriais, os pontos de força e as limitações da pesquisa, um dos presentes - sem dúvida, um prelado americano - perguntou-me: "poderia explicar, em uma frase, qual o principal resultado de seus estudos?" .
Em uma frase? Não era fácil, mas tanto eu como o professor Francis tentamos: "Os padres e as freiras na Itália têm um estilo de formação que parece responder ao provérbio I bend but I don’t break: eles estão convictos da sua vocação, mas, ao mesmo tempo, evitam situações de crise ou de incerteza." Pelo burburinho na sala percebi que tínhamos dito algo especial.
No entanto, olhando em volta, a realidade da vida consagrada parece confirmar esses dados. São pessoas seguras de suas convicções, mas também um pouco avessas à dúvida, à incerteza e às crises que revolucionam o próprio conforto e segurança.
Parece quase lógico: aqueles que têm convicções não têm dúvidas! Especialmente se são convicções que têm suas raízes em uma formação de base de cunho intelectual.
Por outro lado, a experiência da dúvida não costuma ser aprendida, apenas acaba sendo vivenciada sempre que a vida apresenta condições que abalam as certezas e os projetos que pareciam assegurar felicidades e gratificações por tempo indeterminado.
No entanto, são precisamente os momentos de dúvida e perplexidade que obrigam a dar respostas que, na vida consagrada, traduzem-se em respostas no sentido vocacional. Porque - como afirma Frankl - "todo homem, embora condicionados por circunstâncias externas muito graves, pode de alguma forma decidir o próprio futuro". [2]
Transformar cada situação difícil em uma conquista superior
O tamanho da dúvida, do ponto de vista psicológico, é um aspecto psicológico fundamental para o crescimento e amadurecimento da pessoa. No contexto da vida consagrada, a valência educativa das crises evolutivas impelem os religiosos e as religiosas a redescobrir a matriz da própria vocação: refletir na própria criaturalidade a natureza divina do Criador.
Essa dimensão vocacional de dúvida, aplicada ao sistema de construção da personalidade, coloca o indivíduo numa perspectiva de continua formação, através da capacidade de reavaliar as certezas do próprio caráter e do sentir-se em permanente caminho. Também leva a perceber a precariedade e a incerteza não como um fator desestabilizador, mas como uma oportunidade valiosa para a mudança e o crescimento.
Também é preciso considerar que são justamente os momentos de incerteza e de dúvida que abrem o coração e educam a mente a olhar para mais além, para transformar toda situação em uma conquista superior que assuma um sentido para a sua existência.
Mas o que acontece quando as certezas motivacionais são abaladas pelos eventos de vida? Ou quando as motivações da própria escolha vocacional se misturam com as problemáticas psíquicas individuais?
Religiosos e religiosas, convictos e flexíveis diante da mudança
Os estudos desenvolvidos ao longo dos últimos anos e recentemente apresentado na APA Washington [3] confirmam que existem alguns aspectos do temperamento dos religiosos e das religiosas que parecem repropor a pergunta: o que acontece quando as certezas vocacionais se chocam com a realidade da vida?
Ao examinar a maneira pela qual esses homens e mulheres expressam as diferentes componentes da personalidade, emergem dados que comprovam como as suas diferenças individuais são dádivas para serem apreciadas, que caracterizam os diferentes âmbitos da vida consagrada, como a vida espiritual, a pastoral, a colaboração comunitárias, etc.
De fato, em um estudo realizado entre os religiosos sacerdotes na Itália [4] confirma-se que seu temperamento emergente (similar ao que é encontrado na América do Norte e no Reino Unido) é posicionado sobre uma percepção realista centrada no próprio ponto de vista e capacidade de julgamento.
Esses resultados destacam um perfil de ministro que costuma ter hábitos fixos e é paciente, capaz de enfrentar as situações pastorais com empenho e de acordo com modalidades já aprendidas.
A referência aos fatos proporciona uma sensação de segurança, pois permite a esses religiosos verificar concretamente as situações que enfrentam. Dessa forma, têm melhor desempenho quando podem planejar o seu serviço e sentem-se à vontade quando as situações são definidas e concluídas.
Esse espírito metódico, no entanto, poderia ofuscar a capacidade de renovação e de mudança, porque esses religiosos sacerdotes poderiam não estar cientes das novidades que emergem (das pessoas, dos sinais dos tempos, etc.) ou das novas tarefas a serem feitas, sendo acostumados a privilegiar o que é bem definido. Se algumas mudanças não são necessárias, preferem o estilo tradicional em sua maneira de viver a vida sacerdotal. Diante de situações pastorais que exigem renovação e abertura para novos desafios, eles podem se mostrar pouco pacientes, quando não intolerantes. [5]
A partir desse estudo, embora com a devida cautela, poderia ser inferida a prevalência de um tipo de religioso bastante padronizado em relação às crenças professadas e sobre a formação espiritual recebida, muito confiável em relação as convicções de fé, mas menos flexível diante a novos estímulos provenientes do mundo exterior. Em outras palavras, se, por um lado, são pessoas seguras de suas convicções (em nível da religiosidade, de carisma, de vocação), ppelo outro lado, poderiam ser pouco afeitas a questionar suas certezas dogmáticas, especialmente quando confrontadas com um contexto que coloca em crise tais certezas.
A prevalência desse caráter metódico entre os religiosos italianos foi confirmada por um estudo mais recente, ampliado pela inclusão das freiras, além dos religiosos do sexo masculino. [6] A partir dessa pesquisa emergiu novamente uma estrutura de personalidade convicta, sólida e sistemática, mas pouco flexível à mudanças. Essa tendência é maior entre os padres, menor entre as freiras, embora para ambos represente a característica mais evidente.
Esse temperamento, definido como "epimeteico"[7], revela a propensão para a metodicidade e a rotina, onde a mudança é acolhida mais pela evolução dos fatos do que pela instabilidade e crises. "Uma Igreja ‘epimeteica’ é forte no aspecto administrativo, com base nos deveres, contudo é pouco criativa; propensa à mudança apenas quando é forçada e não há outra saída; e, em qualquer caso, sempre por lenta evolução e nunca por rápida revolução". [8]
Trata-se de homens e mulheres firmes em suas convicções vocacionais e de fé, que realizam suas funções com grande dedicação e sistematicidade, que rezam de maneira constante e habitudinária. Mas o que acontece quando a vida desafia-os a sair de suas certezas e lidar com a precariedade dos eventos que devem enfrentar?
A questão reveste-se de extrema atualidade quando se considera as inúmeras condições de crise que a vida consagrada está enfrentando. O que acontece com as certezas dos religiosos e das religiosas, quando veem as suas casas de formação esvaziar-se e a idade média dos coirmãos e irmãs ultrapassar os 75 anos? Ou, referindo-se aos "imprevistos" de caráter emocional ou relacional, o que acontece quando a sua afetividade é posta em crise? Ou como reagem quando as relações comunitárias tornam-se conflituosas?
Se, em tais circunstâncias, eles escolhem privilegiar a segurança, surge o risco de uma uniformização, da domesticação da profecia das próprias vocações ou - para usar as palavras do Papa Francisco – de nos "encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos”. [9]
Algumas provocações para continuar a ser profeta da esperança
A partir da constatação da realidade presente, o debate de Washington propiciou, por um lado, a manifestação desses fatores de risco, e pelo outro lado, ofereceu uma oportunidade para refletir. E, principalmente, lançou duas provocações, uma para o futuro e outra para o passado.
Quanto ao futuro, precisamos nos perguntar: mas é este o tipo de vida consagrada que a Igreja pretende deixa como legado ao século XXI?
E, olhando ao passado, o que possibilitou a conformação de tal visão epimeteica e habitudinária dos religiosos e das religiosas, especialmente quando se considera que são homens e mulheres chamados a continuar a missão "desestabilizadora" do Evangelho?
São duas questões que questionam a perspectiva profética da vida consagrada, seguindo o apelo de ser uma Igreja "em saída", capaz de tomar a iniciativa, envolver-se, acompanhar, frutificar e celebrar os pequenos passos de cada dia. [10]
Para fazer isso é preciso estar cientes de que a mudança e a transformação, tanto no crescimento psicológico como na conversão da fé, não reside tanto na contenção dos riscos enfrentados ou na preservação das crenças, mas na capacidade de caminhar para a frente com determinação, sabendo que, "na arte de caminhar, o que importa não é não cair, mas não ‘ficar no chão’". [11]
Sobre esse método educativo, a vida consagrada tem uma longa tradição, mas também uma longa história para escrever ainda, e é isso que lhe permitirá reconhecer as várias dádivas que Deus continua a propiciar-lhe para ser menos conformada e mais "revolucionária".
Notas:
[1] Online Convention Program
[2] V. Frankl, Uno psicologo nei lager (Em Busca de Sentido, Ares, Milano 1987, p. 115.
[3] The Psychological Temperament of Catholic Priests and Religious Sisters in Italy
[4] L.J. Francis - G. Crea (2015), Psychological Temperament and the Catholic Priesthood: An Empirical Enquiry Among Priests in Italy, in Pastoral Psychology,64 (4), pp. 827-837.
[5] Para mais detalhes sobre estas conclusões ver G. Crea Tonache ferite. Forme di disagio nella vita religiosa e sacerdotale, Dehoniane, Bolonha 2015, pp. 201ss.
[6] L.J. Francis - G. Crea (no prelo), The psychological temperament of Catholic priests and religious sisters in Italy: An empirical enquiry.
[7] O temperamento epimeteico encontra suas origens na mitologia grega. Epimeteu, o filho de Jápeto, é aquele que "pensa depois", analisa metodicamente as escolhas a serem feitas, mas também não é muito ativo. Ao contrário de seu irmão Prometeu, "aquele que pensa antes" e age imediatamente.
[8] U. Folena, I «nuovi» sacerdoti? Solidi ma flessibili. Padre Crea: l’invito del Papa a non temere gli imprevisti, antidoto al clericalismo, em Avvenire,1 de agosto de 2017, p. 14.
[9] Evangelii gaudium, n. 49.
[10] Ibid, 24.
[11] Papa Francisco, Discorso del Santo Padre agli studenti delle scuole gestite dai gesuiti in Italia e Albania. Sala Paulo VI, Roma, 7 de junho de 2013.
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