A preservação da biodiversidade, a terceira via sustentável ecológica e economicamente para salvar a Amazônia

Andre Deak/Flickr Creative Commons

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Por: Ricardo Machado | 09 Mai 2017

Profundo conhecedor da Amazônia, Carlos Nobre tomou a atenção dos mais de 40 participantes da conferência Amazônia: interações entre as florestas e a atmosfera e sua importância para o clima, trazendo dados detalhados do complexo funcionamento do bioma amazônico, oferendo uma alternativa aos modelos hegemônicos de manejo florestal, o conservacionista e o que toma os recursos amazônicos como commoditties. Essa Terceira Via passa por reconhecer que o maior valor da Amazônia são seus recursos biológicos e, portanto, para manter esta riqueza é preciso preserva-los. Precisamos proteger o coração da floresta”, defende Carlos Nobre, doutor em meteorologia, pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, , e senior fellow do WRI Brasil.

O professor apresentou sua palestra por meio de teleconferência transmitida na sala Ignácio Ellacuria e Companheiros – IHU, na noite da quinta-feira, 4-5-2017. O evento integra a programação da 14ª Páscoa IHU. Biomas brasileiros e a teia da vida, que segue com a programação até 14 de junho.

Ao responder as perguntas dos participantes, após a conferência, Nobre chamou atenção para o momento que o país vive, no qual se busca arduamente dar um salto sem volta em direção ao pleno Estado democrático de Direito, com tolerância zero para a corrupção na política e nos negócios, como diariamente revelado pela Operação Lava Jato. Mencionou que muito da ilegalidade presente nas ações de desmatamento na Amazônia infelizmente está associada a maus elementos de algumas cadeias do agronegócio, que exercem desmesurada influência na política local. Todavia, mostra-se relativamente otimista quanto ao cenário futuro da política no país. “As eleições de 2018 vem aí, devemos ver uma renovação significativa e tenho um pequeno e moderado otimismo de que deverá haver mudanças para melhor”, frisa.

Carlos Nobre em teleconferência transmitida no IHU (Fotos: Ricardo Machado/IHU)

Do holoceno ao antropoceno

Durante os últimos quase 11 mil anos a espécie humana viveu na era geológica chamada holoceno. Mas o impacto humano no meio ambiente foi tamanhodesde a Revolução Industrial que estamos prestes a inaugurar uma nova era geológica chamada de Atropoceno. É nesse contexto que as transformações ambientais tomaram escalas globais, e cujo papel da Amazônia é fundamental para o equilíbrio ecológico do planeta.

“A Bacia Amazônia possui originalmente 6 milhões de quilômetros quadrados de extensão. Atualmente,  retira uma grande quantidade de gás carbônico da atmosfera, o que reduz o aquecimento global. Além disso, 18% do fluxo de água que corre para os oceanos vem da Amazônia, pois tem uma hidrologia muito poderosa”, descreve Nobre. “Dez porcento das espécies do mundo estão na Amazônia e ela é uma fonte de calor importante para atmosfera, porque a maior parte de energia dos ventos vem do calor liberado quando o vapor d’água condensa nas nuvens, transformado parte da energia solar utilizada na evaporação da água à superfície em energia que move os ventos em escala mundial. Some-se a isso a maior diversidade cultural do planeta”, complementa.

Riscos das mudanças climáticas

Basicamente, segundo explica o pesquisador, o desequilíbrio da Amazônia tem como causa principal a substituição da floresta por pastagens para a pecuária, gerando adicionalmente um problema de saúde pública grave com a poluição provocada pelas queimadas. Essas práticas podem estar levando a Amazônia a uma condição de “savanização”, hipótese apresentada por estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE ainda no início da década de 1990. “O que determina a transição de floresta para a savana tropical—o bioma Cerrado--é a duração da estação seca. A floresta precisa de água o ano todo e é resistente a fogo, a savana tem uma estação seca muito longa, seis meses aproximadamente, portanto é muito fácil de pegar fogo. No Cerrado, o fogo faz parte de sua ecologia, ele aprendeu a lidar com isso e criar resistências, a floresta não”, avalia o pesquisador.

Com mais de 1 milhão de quilômetros quadrados de floresta desmatada em toda a Amazônia, a questão que emerge é: qual o impacto no clima se desmatarmos a Amazônia? “Segundo os modelos de estudos, se chegarmos a 40% de desmatamento, muda a configuração da Amazônia de modo que a savanização se torna muito parecida caso houvesse desmatamento total do bioma”, responde Nobre. “Antes do homem uma mata só pegava fogo quando um raio caía na floresta. Hoje o fator humano aumentou em dez vezes a possibilidade de pegar fogo”, pontua.

Desmatamento

O Brasil a partir de 2005 começou políticas públicas que reduziram o desmatamento entre 2005 e 2014, mas novamente voltou a aumentar a partir de 2015. “As políticas de comando, controle e punição e a criação de áreas de proteção ambiental e terras indígenas frearam a derrubada de florestas, protegendo, certa maneira, o coração da floresta”, pondera Nobre.

Um dos mitos desmontados pelo conferencista é a ideia de que é necessário desmatar para ampliar a produção agropecuária, um dos setores mais decisivos à balança comercial brasileira, sobretudo no atual período de recessão econômica. O que há, no fundo, é uma disputa relacionada à especulação por terra visando sua valorização via uma sequência de ações ilegais. “A produção agrícola não está relacionada ao deflorestamento, porque a produção cresceu em um período em que o desmatamento diminui. Portanto, uma coisa não está relacionada a outra. O que ocorre é uma dinâmica criminosa de grilagem, de roubar madeira, e depois usa-se o dinheiro da madeira roubada para colocar gado e depois colocar pessoas lá, vendendo lotes, para depois tentar regularizar”, provoca Nobre.

Público presente à sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU

Alternativas

A ideia central, já apresentada na abertura deste texto, é que a aposta na preservação da Amazônia com seus recursos naturais e sua biodiversidade, tornando-se a alternativa ambiental e econômica mais razoável. Esse modelo, no entanto, não se restringe às políticas públicas, mas passa por um processo de investimento também do capital privado e de empreendedorismo e inovação tecnológica.

“A Amazônia tem uma Terceira Via, seus recursos biológicos são o grande diferencial e que podem se tornar uma alternativa econômica, social e ambientalmente viável. Por exemplo, o Açaí gera uma riqueza de mais de US$ 2 bilhões por ano, mantendo a floresta em pé. Veja, esse é apenas um único produto nessa escala mundial expressiva. Se tivéssemos 50 produtos com nichos de mercado, poder-se-ia facilmente ultrapassar 30 bilhões de dólares por ano”, valor bem superior à economia baseada em produção de carne de boi e extração (quase sempre ilegal) de madeira”, sustenta.

Carlos Nobre

Carlos Nobre é engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA. No Massachusetts Institute of Technology, Estados Unidos, realizou o doutorado em meteorologia. Pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, e senior fellow do WRI Brasil. É autor de dezenas de artigos científicos sobre a Amazônia.  

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