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29 Julho 2011

Um novo programa, desenvolvido por quatro hackers – entre eles Ian Goldberg –, permitirá romper a censura na internet.

A reportagem é de Mariano Blejman e está publicada no jornal argentino Página/12, 26-07-2011. A tradução é do Cepat.

Um grupo de pesquisadores anunciou nos Estados Unidos uma nova maneira de esconder as comunicações, o que poderia solucionar a questão do anonimato, o maior problema da internet, com um invento chamado Telex. Desde a sua mais tenra infância, a potência da rede como estrutura distribuída que permite o livro fluxo de informação, teve um grande tendão de Aquiles: cada máquina conectada à rede deixa rastros de identidade de quem está por trás dela. De tal maneira, embora a informação circule, em teoria, livremente, aqueles que produzem essa informação ou aqueles que tentam acessá-la deixam rastros, pistas e dados sobre seus próprios perfis pessoais. Isto, na maioria dos casos, não é um problema e é o melhor método das empresas para personalizar visitas dos sítios, melhorar ofertas, vender produtos a públicos mais específicos ou discriminar serviços por países para evitar infringir direitos autorais. Ou seja, as pessoas estão dispostas a perder seu anonimato em troca de bons serviços, muito espaço na web ou receber buscas personalizadas. Mas se há algo que o usuário da internet em qualquer lugar do mundo não está disposto a perder é a sua vida ou a sua liberdade pelo simples fato de acessar a informação que governos ou empresas privadas não estão dispostos a conceder.

A pergunta que muitos pesquisadores se fazem há duas décadas é como potencializar a livre circulação de informações amparando-se no anonimato daqueles que enviam e recebem estes dados. Isto, reduzido à internet, se resume à pergunta: como escondemos a nosso endereço IP (Internet Protocol)? E como escondemos o conteúdo do que enviamos ou recebemos? Até agora, as técnicas mais populares para esconder esta informação foram o uso de proxies ou túneis. Um dos sistemas mais populares é o software Tor, patrocinado pela Electronic Frontier Foundation, que funciona "embaralhando" os rastros das conexões até se tornarem irrastreáveis.

Mas o que aconteceria se os internautas pudessem contar com a cumplicidade de provedores da internet de outros países para acessar os sítios bloqueados por governos "maus"? O que aconteceria se alguém pudesse fazer seu provedor de internet acreditar que está entrando num sítio autorizado quando na realidade está entrando num censurado? "Muitos governos usam a censura na internet para manter a informação dentro ou fora de determinados países. Nós programamos o Telex para permitir que a informação – como notícias e eventos atuais – seja transmitida desde e para dentro destes países sem ser detectada", disse com exclusividade para Página/12 e pela primeira na América Latina Eric Wustrow, da Universidade de Michigan, um dos quatro criadores do Telex, junto com os pesquisadores Alex Halderman, Ian Goldberg e Scott Wolchok.

Como funcionará o Telex, uma vez que os provedores da internet aceitarem colocar o software em seus servidores? Simplesmente, o usuário final instalará um programa em seu computador, depois colocará um endereço na web para visitar e o software se encarregará de driblar a censura. Com a anuência de provedores de internet de países que não têm relação com os governos censores, o Telex funcionaria no nível mais alto da estrutura da rede, evitando a detecção por parte de censores e sem a necessidade de que os usuários tenham outra informação além de um pequeno programa que poderá ser instalado em qualquer computador.

— E realmente acredita que os provedores da internet vão colaborar?

— Os incentivos a provedores podem vir dos governos que estiveram contra a censura. Por exemplo, os Estados Unidos podem dar ao Hurricane Electric (provedor de internet) uma diminuição de impostos para que corram o Telex em seus servidores. Também universidades e institutos de pesquisa podem colaborar. Vamos falar com eles logo.

Pode este tipo de software ajudar a realização de atividades criminosas? O Telex simplesmente equipara a conexão à internet a um país que não exerce censura nem tem listas negras de sítios bloqueados. O software ainda não é funcional para usuários comuns, embora uma versão possa ser baixada do telex.ce. Wustrow acredita que o surgimento do Telex reabrirá uma discussão maior "sobre o potencial desta técnica e sobre o impacto político que um software como este poderia ter". Como quase tudo na cultura digital, o surgimento de uma ideia sustentada em um desenvolvimento teórico adquire um valor especial sabendo que um dos seus principais impulsores é Ian Goldberg, um criptógrafo e cyberpunk que alguns anos atrás ficou famoso por romper a segurança do Netscape.

Atualmente, Goldberg é professor na Escola de Ciências da Computação da Universidade de Waterloo e um dos hackers mais confiáveis da rede. Goldberg dedicou sua vida para levar luz aos problemas de segurança mais graves da internet e para ocultar as comunicações digitais. Já em 1998, a revista Wired havia publicado um artigo premonitório intitulado: "Ian Goldberg pode te fazer desaparecer". E vai que a revista tinha razão.