Governo sírio adota estratégia de 1982 e tenta isolar rebeldes de Aleppo

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12 Setembro 2012

Após duas noites de combate sob bombas e foguetes, eles estão de olhos avermelhados, com um ar ao mesmo tempo cansado e aceso. Parecem, sobretudo, que saíram gritando e descarregando kalashnikovs contra os muros de uma fortaleza defendida por canhões e aviões, depois acabaram entrando ali, contra qualquer lógica.

Foi exatamente esse ataque que os soldados do Exército Livre Sírio (ELS) acabaram de realizar, tomando de assalto o grande quartel de Hananou que domina o centro antigo de Aleppo. Agora que eles estão ali, os conquistadores parecem um pouco perdidos. Até o fundo do complexo militar e de suas três imensas séries de prédios, será que o ELS controla tudo? Difícil saber. Projéteis de tanques caem com uma enganosa regularidade de metrônomo. Nada mais perigoso que a regularidade, na batalha de Aleppo.

A reportagem é de Jean-Philippe Rémy, publicada pelo jornal Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 11-09-2012.

Sem olhar para as pedras centenárias dos escombros que recobrem as ruas do centro antigo de Aleppo, o grupo de combatentes do ELS acaba de subir de volta para Hananou, onde seu comandante, Abdallah Yassine, espera vagamente "encontrar um veículo" para substituir o seu, que não aguentou bem os fragmentos de foguetes das últimas 36 horas.

Para tomar de assalto a posição militar cujos muros e arquitetura são um acúmulo de séculos, os combatentes do ELS subiram por essas ruas arrasadas pelas bombas do governo sírio, por seus helicópteros, seus projéteis. Apesar das perdas, que se contam às dezenas, eles chegaram até a porta da fortaleza, onde grandes cartazes anunciam a proibição de filmagem.

As guaritas parecem ter sido construídas para resistir a tiros de mosquete. Restam cartuchos e poucos outros sinais de vida. Um soldado desarticulado do governo descansa alguns metros adiante, na poeira levantada pelos projéteis. Não há nenhum veículo em condições de ser utilizado aqui. Na verdade, não há mais nada, exceto por uma vontade de quebrar tudo que venha do céu, usando muito aço.

"Não adianta nada permanecer aqui, o governo decidiu destruir tudo", resume Abdallah Yassine. Os tanques parados abaixo, na direção do bairro vizinho de Arkoub pelo qual os militares leais ao governo escaparam da fortaleza, 700 homens segundo os rebeldes, enchem o pátio com seus projéteis enquanto esperam a volta dos aviões. Abaixo, uma mansão particular em pedra de uma beleza que lembra que o centro antigo de Aleppo é Patrimônio Mundial da Unesco, foi enegrecida por um incêndio e pelas explosões, mas por milagre ainda se mantém de pé. Foi pela ponta de seu jardim com vista para a cidadela, a principal peça do centro antigo de Aleppo - ainda nas mãos das tropas leais -, que uma simples escada de alumínio permitiu que os rebeldes atacassem Hananou.

Abdallah Yassine escala como se voasse. Os observadores na cidadela percebem silhuetas nesse deserto de ruínas fumegantes. Os snipers entram em ação. Logo, um avião se aproxima e desce para ajustar seu lança-bombas... Mesmo sendo palco de combates há semanas, nunca o centro antigo da cidade havia sofrido tais destruições, e nada indica que isso possa terminar tão cedo. Ainda que seja empurrado para bairros vizinhos, provavelmente desestabilizado pela perda dessa posição do alto, o exército sírio não abandona a destruição, sua carta preferida.

Como muitos combatentes, mas também médicos e enfermeiros que vivem com as mãos no sangue, a luta endureceu os homens. Em toda parte os rostos se mostram marcados, os olhos febris, faixas com versículos do Corão envolvem um número cada vez maior de cabeças, raspadas ou cabeludas. Essa intensidade, e também essa raiva, se encontram por toda a cidade.

Com a multiplicação dos bombardeios que atingem a população que ainda não deixou a cidade, o ressentimento anti-ELS vem aumentando. O exército sírio se lançou em uma destruição lenta e metódica das zonas nas quais os rebeldes circulam e se abrigam. No espaço de uma semana, as lojas fecharam, enquanto a rede dos prédios invadidos ou destruídos se estreitou. Agora não há nenhuma rua intacta. A Aleppo trabalhadora, poupada por Bashar al-Assad após os anos de marginalização, não tinha muita vontade de "revolução". Já a Aleppo rica tinha muito a perder, e a Aleppo pobre tinha medo demais.

Atualmente, a metade rebelde da cidade está à beira da histeria. Nesse nervo já sensível, as forças do regime sírio atacam sem dó, com um método já testado em Hama, em 1982, atormentada por uma insurreição da Irmandade Muçulmana síria. Na época essa cidade fora reduzida a cinzas, privada de água, para espantar a população, antes que qualquer pessoa encontrada nas ruínas fosse abatida. Estaria sendo tentada uma repetição desses procedimentos em Aleppo?

A água já foi cortada no norte da cidade. Uma estação de bombeamento talvez tenha sido sabotada ou bombardeada. Impossível consertar: o prédio está sob fogo de snipers. Em Bustan al-Basha, em uma rua próxima da linha de frente, um fio de água cristalina corre sobre a calçada repleta de cartuchos, de fragmentos e lixos diversos. Nessas posições, os homens caem como moscas. Yasser, um soldado do ELS, apanha no córrego um Corão encharcado de água e o coloca para secar sobre a única cadeira de seu posto.

No bairro restam somente alguns poucos habitantes, que amontoam seus pertences em sacolas, esperando fugir sem serem mortos no caminho. Mas Yasser teve tempo de conhecer curdos e cristãos de origem armênia que vivem em Bustan al-Basha e ele saiu de lá completamente espantado: "Afinal, os cristãos são pessoas boas, eu diria até ótimas". Uma vitória, pelo menos.

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