“A misericórdia é a conduta que um cristão deve ter diante do sofrimento”

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18 Março 2015

Biblista, o jesuíta Pierre Gilbert é o autor de um livreto ‘Ce que dit la bible sur la miséricorde’ (O que diz a Bíblia sobre a misericórdia’). Retorna às raízes desta palavra na tradição cristã e explica a insistência do Papa Francisco sobre esta realidade fundamental do cristianismo.

A entrevista é de Anne-Bénédicte Hoffner, publicada pelo La Croix, 16-03-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.

De onde vem a palavra “misericórdia” e qual é o seu sentido?

"Misericórdia” é uma palavra latina que não se encontra tal e qual nem no hebraico do Antigo Testamento, nem no grego do Novo. Pode ser traduzida literalmente com “coração de piedade” ou “piedade de coração”. Mas, na realidade, sente-se que é uma palavra com vários significados – um pouco como a palavra “amor”, por exemplo -, usada como sinônimo das palavras perdão, compaixão, reconciliação... 

Se tomarmos a Bíblia, veremos que, segundo as traduções, jamais aparece no mesmo lugar: o seu sentido depende, em última análise, do contexto e daquele que a usa.

Qual é o seu sentido na Bíblia?

No Antigo Testamento, sobretudo, não é preciso procurar a palavra, porque em geral encontraremos outra! No meu livro (1), escolhi voluntariamente não partir do Gênesis, porque é preciso ter lido toda a Bíblia para compreender que este conto é fundamentalmente uma história de misericórdia. Para mim, a misericórdia é a conduta de Deus em relação conosco, Ele que conhece as nossas misérias mas jamais nos pede de prestarmos contas...

“Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”: estas palavras de Jesus sobre a cruz são o próprio modelo da misericórdia.

Qual é o seu sentido para o Papa Francisco, que recém proclamou um “jubileu da misericórdia” a partir de 8 de dezembro próximo?

O Papa Francisco usou esta palavra quase imediatamente após sua eleição, em particular para fustigar aqueles padres que recusavam o batismo a crianças nascidas fora do matrimônio. Nele eu o sinto, portanto, como uma crítica àquilo que considera ser uma insuficiência da Igreja, uma Igreja que frequentemente condena, proíbe, julga... Para ele, a misericórdia deve estar acima da lei, como a fé para São Paulo.

De maneira positiva, penso que o Papa Francisco insira a misericórdia na linha da piedade, da compaixão, da atenção ao outro... Através dos amigos, na Argentina, descobriu a miséria das favelas: para descrever esta maneira de ser comas pessoas no sofrimento, sem julgar, sem condenar, mas de um modo que os ajude a viver, há somente uma palavra: misericórdia.

Neste sentido é a realização concreta, grave, numa situação terrível, do amor.

Por que por hoje o acento sobre esta realidade?

A meu ver, o Papa Francisco traduz com esta palavra o substrato do cristianismo, isto é, que nós não estamos mais sob o jugo de uma lei que nos culpa, mas reconciliados com Cristo e salvos pela fé. A misericórdia é a conduta que um cristão deve ter diante do sofrimento, para não agravar a situação, mas, ao contrário, tentar aliviá-la... Quando lava os pés dos detentos na quinta-feira santa, Francisco não lhes pergunta nem o que cometeram nem por que estão na prisão.

É suficiente que um homem encarne a misericórdia na sua carne e na sua ação, para que esta palavra seja alimentada. É o problema dessas palavras de sentido muito amplo: se pode fazer dela algo de lamurioso ou, ao contrário, algo de grande força!

A que coisa poderia servir este jubileu?

Este ano santo é um modo de reconduzir-nos aos fundamentos do cristianismo, uma religião de amor, de perdão e de fé que salva, sem necessidade de afligir-se. O Papa quer recolocar-nos na linha, fazendo-nos sair de um cristianismo distorcido, falseado pelo nosso jansenismo.

Tudo isto tem uma relação com o Sínodo sobre a família, com a reforma da Cúria, etc.?

Creio que vá além disto. Se for bem entendida, a palavra misericórdia é muito fecunda: evita a abstração do amor, as superficialidades da piedade. Concretamente, está ligada à palavra “amor”, mas compromete. A meu ver, é esta a intenção não expressa pelo Papa: nós somos salvos na medida em que somos misericordiosos.

(1) Ce que dit la Bible sur la miséricorde [O que diz a Bíblia sobre a misericórdia]. (Édition Nouvelle Cité, 2014).