''Os dois papas aos quais servi.'' Entrevista com Paul Poupard

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13 Abril 2014

Encontramos em Roma o cardeal Paul Poupard, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Cultura e do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso. Ele trabalhou com João XXIII e com João Paulo II, os dois papas que serão santificados no próximo dia 27 de abril. De ambos, ele têm uma memória muito vívida.

A reportagem é de Armando Torno, publicada no jornal Corriere della Sera, 07-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Eminência, quando o senhor entrou em contato com o Papa Roncalli?

Em 1959, chamaram-me a Roma, para a Secretaria de Estado. Eu era um jovem sacerdote preparado para ser professor. Tinha me formado no Institut Catholique de Paris e, depois, na Sorbonne. Podia ser uma experiência de alguns meses, mas uma noite o sostituto me chamou e pronunciou estas palavras: "O papa quer você". João XXIII me recebeu na biblioteca e fez com que eu lhe contasse a minha história. Depois se levantou, pegou as minhas mãos e disse: "Você é um jovem sacerdote, e eu, um velho papa. E, se você quer servir a Igreja, não pode recusar a sua ajuda."

Então o senhor ficou...

E como eu podia desobedecer ao papa? Comecei a trabalhar na Secretaria de Estado. Dei a João XXIII as minhas teses, e ele encontrou tempo para lê-las. Ele me disse: "Quando eu tinha a sua idade, eu também era apaixonado pela história da Igreja". Ele era muito próximo. Também não podemos esquecer que era um verdadeiro gênio da comunicação. Durante a visita da filha de Khrushchov e do seu marido à Santa Sé, ele os conquistou dizendo que rezaria pelos seus filhos (e perguntou os seus nomes). Com a senhora, ele até usou uma expressão que partia do Gênesis, deixando-a logo à vontade: "Deus fez a luz, e eu vejo luz nos seus olhos". Em suma, chamava a atenção a sua imediaticidade, a sua simplicidade. Paulo VI falou de "santa ingenuidade". Um dia, ele se voltou para mim me chamando de "caro monsenhor", e eu imediatamente respondi: "Santidade, eu não sou monsenhor". E ele: "Tenha paciência, aqui todos se tornam monsenhores". Os romanos, assim que o papa começou a sair do Vaticano, o chamaram de "João fora dos muros".

A sua santificação era esperada há muito tempo...

Eu não gostaria de contradizê-lo, mas todos o consideraram santo imediatamente. Era o dia 4 de junho de 1963, o dia posterior à sua morte. Fui chamado para dar o meu testemunho à TV francesa e tomei um táxi, correndo, para ir à Rai, onde se faria a conexão. O motorista me disse, vendo-me sair da Secretaria de Estado: "Papa João, papa bom, papa santo". Era uma das infinitas vozes comuns. Os bispos, durante a retomada dos trabalhos do Concílio, também queriam proclamá-lo santo por aclamação. Foi Paulo VI que indicou o caminho habitual. O cardeal Léon-Joseph Suenens, arcebispo de Bruxelas, foi encarregado de lembrar a sua pessoa diante dos Padres conciliares e utilizou palavras evangélicas. Ele disse: foi um homem enviado por Deus, cujo nome era João, e, assim como João Batista, a sua missão foi breve, interrompida pela morte. A sua santa memória permanecerá como bênção para os séculos futuros.

A sua memória...

... ainda está muito viva. Em Istambul, há uma rua dedicada a ele, e quando houve a cerimônia, uma década atrás, eu estava presente. O chefe da comunidade judaica disse: "No nosso calendário, não existem santos, mas, se houvesse, logo colocaríamos o Papa Roncalli". Também não devemos esquecer que, na sua morte, chegaram ao Vaticano milhares de cartas de muçulmanos, de agnósticos e de judeus que ofereciam as suas orações por ele. Eu li algumas na entrevista à TV francesa.

João Paulo II criou-lhe cardeal...

Em 1985. Eu o conheci há muito tempo ou, melhor, encontrei-o pela primeira vez quando ele era arcebispo de Cracóvia, jantando em Roma. Ele me disse: "Mas o que vocês fazem nesta misteriosa Secretaria de Estado?". Depois, eu o revi na Universidade Católica de Lublin, na época em que eu era reitor do Institut Catholique de Paris. Dessa vez – estávamos no teatro – ele me confidenciou que ele também, quando jovem, "fazia teatro".

Ele teve que ser um pontífice de pulso firme...

Sim, ele era, mas também tinha um dom raro: ele não suportava nem os cortesãos (sempre havia alguém pronto para elogiar as suas poesias) nem as insinuações.De fato, quando ouviu alguma insinuação, ele mostrava fisicamente que se aborrecia. Ele acreditava na virtude de ouvir com paciência. E depois, que me seja permitida uma piada: João Paulo II sentia uma santa indiferença diante das fumaças do incenso! Concluo lembrando que ele não organizava os discursos de acordo com a pessoa que tinha em sua frente, mas expressava o que sentia, sem precauções. E podia proferir juízos afiados: por exemplo, ele me disse que as decisões de Yalta foram uma profunda injustiça. Falando de Gorbachev, ele afirmou que ele deveria mudar o sistema sem mudar o sistema.

Eminência, o Papa Wojtyla deu origem ao Pontifício Conselho para a Cultura e escolheu o senhor...

Gostaria de lembrar como os fatos ocorreram. Eu recebi Sua Santidade em Paris no dia 1º de junho de 1980 e, no dia seguinte, o acompanhei à Unesco, onde, dentre outras coisas, ele declarou que a Polônia, apagada do mapa geográfico da Europa pelos seus poderosos vizinhos, só conseguiu sobreviver ao longo dos séculos graças à sua cultura. E a cultura, destacou, é a realidade que une todas as pessoas. Três semanas depois, ele me chamou a Roma para substituir o cardeal König no então secretariado para os não crentes. No almoço, ele me perguntou: "Como você vê isso?". Eu respondi referindo-me a Paulo VI. Para dialogar, é preciso ter um campo comum: o primeiro diálogo, com os cristãos não católicos, tem o Evangelho; o segundo, com os crentes não cristãos, a religião; o terceiro, com não crentes, a cultura. A partir daí, alguma coisa se movimenta. Ele pensou e depois nasceu o Pontifício Conselho para a Cultura, ao lado do secretariado para os não crentes.

A sua santidade, ao invés, foi rápida...

Para mim, João Paulo II continua sendo um poço de oração, um homem de Deus. Uma vez, durante um café da manhã, eu lhe disse que a Ir. Beatrice, que me ajudava, teria que passar por uma operação grave. O papa logo deixou de comer e se recolheu em oração. A intervenção foi plenamente bem-sucedida.

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