Primado e sinodalidade. Entrevista com Bruno Forte

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Outubro 2016

De 15 a 22 de setembro de 2016, foi realizada em Chieti, a convite do arcebispo Dom Bruno Forte e com o apoio da Conferência Episcopal Italiana, a 14ª sessão plenária da Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa.

A reportagem é de Gianfranco Brunelli, publicada no sítio da revista Il Regno, 21-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A comissão, instituída por João Paulo II e pelo Patriarca Ecumênico Dimitrios I, por ocasião da visita do papa ao Fanar, no dia 30 de novembro de 1979, reuniu-se periodicamente. Nos últimos anos, depois do encontro de Ravenna em 2007, que produziu o importante documento sobre "As consequências eclesiológicas e canônicas da natureza sacramental da Igreja. Comunhão eclesial, conciliaridade e autoridade", houve outras plenárias em Chipre (2009), Viena (2010) e Amã (2014).

No encontro de Chieti, foi alcançado um significativo acordo sobre a relação entre o primado do bispo de Roma e a sinodalidade da Igreja inteira, e foi aprovado um documento, votado por todos os participantes, apenas com a exceção da Igreja da Geórgia, intitulado "Sinodalidade e primado no primeiro milênio: rumo a uma compreensão comum a serviço da unidade da Igreja".

Pedimos a Dom Bruno Forte, que faz parte da comissão e participou dos (além de ter hospedado os) trabalhos, uma reflexão sobre o encontro.

Eis a entrevista.

Dom Forte, conhecemos as dificuldades e as divisões externas e internas que atravessam as Igrejas, incluindo as ortodoxas. No encontro de Chieti, estavam presentes todas as Igrejas ortodoxas?

Todas, exceto a Igreja búlgara. E gostaria de observar que essa participação, depois da celebração do Santo e Grande Concílio pan-ortodoxo de Creta, de junho passado, é ainda mais importante, dadas as dificuldades intraortodoxas que tinham surgido lá. Também deve ser lembrado que, em Ravenna, em 2007, a Igreja Ortodoxa Russa retirou em um certo ponto a sua delegação. O fato de que em Chieti, no dia 21 de setembro, tenha se chegado a um acordo sobre um documento conjunto é de grande importância. Agora, deu-se um passo decisivo, apesar da distinção da Igreja Ortodoxa da Geórgia. A primeira razão do valor do consenso alcançado consiste precisamente no próprio fato de ter aprovado e publicado um documento comum sobre os temas fundamentais da sinodalidade e do primado do bispo de Roma. Agora, ele será debatido nas respectivas comunidades eclesiais.

Falemos do documento. Sobre o que se alcançou o consenso?

O texto parte do reconhecimento comum da relevância fundamental da Igreja local, presidida pelo bispo, que nela é sinal de Cristo pastor, especialmente na presidência da assembleia eucarística celebrada com os presbíteros e o povo de Deus. Essa relevância, sempre enfatizada pela Ortodoxia, foi trazida novamente à tona pelo Concílio Vaticano II e estimulou uma renovada vitalidade pastoral das Igrejas presentes nos diversos lugares do planeta. Desde as origens, no entanto, o destaque dado às Igrejas locais foi conjugado com a necessidade de uma comunhão regional, expressada por sínodos e concílios dos quais as Igrejas locais participavam através dos seus respectivos bispos. Essa comunhão episcopal deu origem às metropolias e aos patriarcados, em que a variedade das Igrejas locais reconhecia uma manifestação e um instrumento significativo da única fé professada por todas.

O que Chieti acrescentou?

O passo importante dado em Chieti foi o de atestar juntos a necessidade e o fundamento de uma expressão da comunhão em nível universal. Nesse contexto, reafirmando a importância da comunhão sinodal de todos os bispos reunidos pela sucessão apostólica, ortodoxos e católicos confessaram unanimemente o papel único do bispo de Roma, isto é, da Igreja que preside na caridade, à qual sempre foi reconhecido o primeiro lugar na ordem ("taxis") das sedes patriarcais. Concretamente, esse primado foi entendido no Oriente como um "primado de honra", enquanto, no Ocidente, particularmente a partir do século IV, foi referido ao papel de Pedro entre os apóstolos, interpretando o primado do bispo de Roma entre todos os bispos como uma prerrogativa ligada ao fato de ser o sucessor de Pedro, o primeiro entre os Doze.

A "sinergia" do bispo de Roma foi definida pelo Concílio de Niceia II de 787 como uma das condições necessárias para reconhecer a ecumenicidade de um concílio. A referência ou o apelo à Sé Romana e ao seu bispo e o acordo com ele, em suma, foram cada vez mais percebidos como sinal e garantia da unidade da Igreja universal. Afirmou-se a necessidade de um primeiro e de uma cabeça (para usar a linguagem do n. 34 dos Cânones dos Apóstolos, muito importante para os ortodoxos) não só na Igreja local (o bispo) e em nível regional (o patriarca), mas também em nível universal, e se reconheceu que, na comunhão universal das Igrejas, esse papel cabe ao bispo de Roma, que era a primeira das Igrejas patriarcais do primeiro milênio, quando Oriente e Ocidente estavam unidos.

O modelo do primeiro milênio poderá voltar à tona para uma comunhão das Igrejas no terceiro milênio?

A resposta a essa pergunta vai marcar as próximas etapas do diálogo católico-ortodoxo, marcado, em todo o caso, de maneira relevante, por aquilo que aconteceu em Chieti: uma aceleração no diálogo, uma retomada significativa depois de quase uma década de impasse.

Que problemas permanecem?

É um processo em curso. Entre as dificuldades, como também foi reiterado em Chieti, certamente, continua irresolvida a questão uniata, isto é, das Igrejas de tradição oriental que entraram, ao longo do tempo, em plena comunhão com Roma e que, naturalmente, têm direito, por parte de todos, ao maior respeito pela sua dignidade. Como afirmava o Metropolita de Pérgamo, Zizioulas, em Viena, em 2010, "veremos o modelo de união no futuro. Não funcionamos com um modelo fixado antecipadamente. O que os ortodoxos devem reforçar é a sua unidade universal e também a sua concepção do primado. E a parte católica, sem dúvida, deve reforçar a dimensão sinodal". Como católicos, com o Papa Francisco, decisivamente iniciamos esse percurso.

Leia mais: