Pornô. O regime visual do capitalismo maduro

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

Por: Jonas | 22 Julho 2013

Daniel Mundo, professor da Faculdade de Ciências SociaisUniversidade de Buenos Aires, afirma que “o pornô é a essência da comunicação no capitalismo tardio” e que ele “encarna a lógica e a estética do próprio meio audiovisual”. Seu artigo é publicado no jornal Página/12, 17-07-2013. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O pornô é a essência da comunicação no capitalismo tardio. É o tabu mais comentado, do qual se fala a qualquer momento, ainda que ninguém confesse seus rituais. Nesta altura do século, é lugar comum conceber que o mito da sociedade da comunicação é fundado sobre um conceito de comunicação que seria possível apenas entre máquinas, pois apenas elas conseguem neutralizar qualquer afeto: um emissor impoluto, um receptor que decodifica e processa, um canal neutro (chama-se jornal, telefone, TV ou iPad), um código universal, muito claro e impossível de não entender. Porque não há nada para entender, tudo é para ver. O pornô (não a pornografia, mas sua encarnação virtual contemporânea) é a essência autêntica desta comunicação ideal.

O tão injuriado modelo cibernético da comunicação continua afetando o sentido comum. Há comunicação quando os indivíduos trocam suas opiniões, sempre verídicas, e não tentam enganar ninguém, embora discordem entre si. O objetivo consiste em conseguir o consenso e reafirmar os sentidos compartilhados. A feliz expressão dela olhando para a câmera, enquanto ele ejacula em sua boca. Transparência e franqueza, como conseguem? Por meio da objetividade, suspendendo o interesse próprio pelo bem comum (Sade recomendava a apatia como o estado anímico conveniente para uma orgia). A mentira é um erro que a claridade da verdade, cedo ou tarde, entornará. Esta é a lógica que estrutura a comunicação midiática. A mentira é intolerável, é preciso impedi-la ou reduzi-la a sua mínima expressão (mito semelhante ao do político incorruptível). A lógica dicotômica da mentira versus a verdade: ou a mantém parada ou não a detém.

Isto não significa que todos os políticos sejam corruptos e que a experiência autêntica da comunicação se pareça a um mundo de mal-entendidos. Assim como na política a moral não deveria interferir, no pornô seria preciso diferenciar a dimensão estética do texto, de sua dimensão lógica. A estética pornô, para além das maquiagens e elongações do caso, baseia-se na exibição do sexo nu. É tão potente esta exibição que definimos o gênero unicamente por ela: se não há sexo explícito, não há pornô. A dimensão lógica, ao contrário, relaciona-se com a maneira de exibir a imagem, com sua percepção e não com o conteúdo, nem com o percebido. Walter Benjamin denominou a preponderância desta sobre aquela como alienação perceptual.

Vou apresentar um exemplo. A famosa fórmula que McLuhan tomou dos cubistas e utilizou para definir todos os meios de comunicação: “o meio é a mensagem”, em nenhum caso possui mais êxito do que no gênero pornô. Até estou tentado demonstrar que o pornô encarna a lógica e a estética do próprio meio audiovisual: subtração da maior quantidade de discurso verbal possível (na virtualidade, a câmera não apenas se tornou subjetiva, mas em grande medida interpela diretamente as atrizes e atores, o sujeito da ação) e apresentação da imagem sem nenhum véu, como se em alguma medida o espectador estivesse envolvido na cena. De muitas maneiras, ele está.

Nenhum outro gênero, na mesma intensidade do pornô, reduz a mensagem de seu texto até tal ponto que chega a zero grau de significação, na materialidade própria do meio. Entre o meio e a mensagem se anulam as mediações e acabam se fundindo um no outro: transparência e ausência de sentido. A transparência é vazia; a imanência, saturada.