Paul Valadier: os desafios e as perspectivas para o discurso cristão num mundo plural

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23 Junho 2012

Paul ValadierO filósofo francês Paul Valadier será um dos conferencistas e palestrantes no XIII Simpósio Internacional IHU. Igreja, Cultura e Sociedade: a semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica, de 2 a 5 de outubro, na Unisinos (São Leopoldo). A conferência acontecerá no dia 3, com o tema “Crise da racionalidade, crise da religião: desafios e perspectivas para o discurso cristão na atualidade”, e a palestra no dia 4, no minicurso “O mistério da Igreja hoje: uma leitura a partir de Inácio de Loyola”.

O comentário é de Luís Carlos Dalla Rosa, doutor em teologia e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Valadier é sacerdote jesuíta, natural de Saint-Etienne, cidade industrial localizada nas proximidades de Lyon. Tem graduação em Filosofia pela Sorbonne, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon e doutorado de Estado em Paris X Nanterre. É docente emérito nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sévres).

O filósofo foi redator da revista Études de 1981 a 1989. É autor de diversas obras, nas quais se destacam seus estudos sobre a filosofia de Nietzsche, tais como: Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche et Marx (Paris: Cerf, 1974); Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); e Nietzsche l’intempestif, Beauchesne (Paris, 2000). Em português, encontram-se as seguintes obras: Elogio da consciência (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2001); Um cristianismo de futuro: para uma nova aliança entre razão e fé (Lisboa: Instituto Piaget, 2001); e A moral em desordem: um discurso em defesa do ser humano (São Paulo: Loyola, 2003).

Pelo IHU, além de diversas entrevistas, destaca-se o Caderno de Teologia Pública n. 31, em que Valadier publicou “A moral após o individualismo: a anarquia dos valores”. Nesse texto, o autor aborda a realidade contemporânea pelo viés da reflexão filosófica, procurando abranger o “vasto assunto da moral ‘após’ o individualismo”. Para Valadier, é “evidente que hoje a situação da moral não está ‘após’ o individualismo, mas o individualismo é o contexto da moral, sua atmosfera, o meio no qual se insere toda reflexão moral”.

A partir da expressão “anarquia de valores”, o autor busca “propor uma reflexão filosófica sobre as consequências no que diz respeito à moral, tanto na teoria como na prática, em sociedades democráticas pluralistas, ou ainda interrogar-se sobre a própria moral, afetada pela modernidade, se quisermos empregar esse termo amplo e, às vezes, vago para designar a situação cultural singular que hoje vivemos em nossa história”.

No entender de Valadier, assumir a expressão “anarquia de valores”, como perspectiva de análise da contemporaneidade, significa dialogar com diferentes sociedades, assumindo a democracia e a pluralidade como marcos desse contexto. A partir dessa óptica, a “anarquia dos valores não significa ausência de valores, caos informe e desaparecimento de todos os princípios de pensamento e de vida”. Tampouco a expressão sugere “que nossa situação ética, ela própria, não conhece mais ‘moralidade dos costumes’ (Sittlichkeit)”. E também não significa “dar espaço para as lamentações bem conhecidas sobre os infortúnios dos tempos, a decadência moral e espiritual, refrão mais ou menos constante na história da humanidade, desde a mais remota antiguidade, como muitos depoimentos poderiam comprovar”


Ainda conforme Valadier, “estamos hoje diante de um mundo plural em todos os seus níveis, e é essa pluralidade que deve ser reconhecida e respeitada. Cada campo do real deve ser reconhecido em sua constituição e riqueza própria”. Do mesmo modo, continua o autor, “essa pluralidade dos valores tem outra vantagem considerável: como nenhum valor se impõe absolutamente em qualquer campo que seja, é preciso discuti-los. O debate ou a discussão entre especialistas impõe-se, assim como também se impõe a exposição das razões que levaram a fazer finalmente uma escolha. Em outras palavras, o pluralismo dos valores requer a democracia em todos os níveis da vida comum”.

E como entender o lugar da religião e, de forma específica, a perspectiva cristã, nesse contexto plural? Nas palavras de Valadier, “em nossos dias, não se espera mais, sem dúvida, que a religião cristã (ou as Igrejas) enquadre a vida social em sua totalidade, tampouco que a religião se limite ao culto, unicamente à interioridade, ou se proponha a fornecer as referências morais faltantes. Na realidade, ela tem um papel bem mais fundamental: dar às vontades que são fracas ou àquelas que agem com dificuldade em nossa situação o Sopro, a inspiração, a dinâmica que farão com que elas queiram ser livres. A fé cristã dá o impulso divino para querermos ser realmente humanos, para exercermos nossa liberdade em todas as suas dimensões”.

Desse modo, a fé cristã não dispensa o sujeito que crê da participação de todo o trabalho racional e razoável em que a humanidade como um todo está implicada. E o que significa essa participação? No dizer de Valadier, a inspiração cristã “oferece um Deus, o Deus de Jesus Cristo, cujo único desejo é de que nós mesmos nos tornemos filhos e filhas de Deus através de nossa condição humana; seu desejo é de despertar e de conservar em cada um o desejo de ser criador, à imagem do Filho único. Nestes tempos de niilismo, em que ‘a vontade falta’ (Nietzsche), a fé nos ajuda a querer, a querermo-nos livres. Ela não substitui a vontade, propondo-nos modelos prontos de conduta, mas fortalece em nós o desejo de querermos estar à altura de nossas vocações de homens e mulheres chamados à liberdade dos filhos de Deus”.