Agostinho transferiu a cultura clássica para o mundo cristão

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16 Fevereiro 2011

Todo o cristianismo pode considerar-se uma interiorização do homem. Mas, se torna tal de modo específico somente com santo Agostino.

A comentário é de Sossio Giametta e publcado pelo jornal Corriere della Sera, 16-02-2011.

Na vida nós experimentamos a essência (felicidade, beleza, iluminação, potência) e as condições da existência (dor, frustração, angústia, morte). Mas, os seres vivem para o exterior e nenhuma destas duas experiências jamais pode faltar-lhes: nem a cidade terrestre, nem a cidade celeste têm a exclusividade. Ao tempo de Jesus as civilizações antigas e, em particular a Greco-romana haviam dado o que tinham a dar e estavam extenuadas. Serpenteava a exigência de uma integração, de uma renovação. Adensavam-se as nuvens. Com Jesus as nuvens se dissiparam e um relâmpago iluminou o mundo. Foi proclamada a religião da caridade, ou seja, da maximização da humanidade. O amor universal é, de fato, a alma do homem em seu máximo, como a harmonia da estátua de Fídias é o corpo humano em seu máximo.

Chegando, pois, em contraste dialético com a civilização Greco-romana, o cristianismo inverteu os valores. Aquela era a reta dos valores aristocráticos, isto é, dos poucos: a coragem, o orgulho, o valor, a astúcia, o primado, a aventura, a luta, a vingança, o páreo, a guerra, a conquista, a hierarquia, a pátria, a estirpe e a raça. O cristianismo instaurou valores democráticos: o culto da alma, a igualdade e a dignidade de todos, a bondade, a humildade, o amor, o perdão, o amor da paz, a caridade também com os inimigos, o abraço dos últimos, a superação das barreiras nacionais, de sexo, raça, status social. Estes ainda são os nossos valores, que também se tornaram ideais políticos. Em sua absolutez a religião de Cristo superou tacitamente a civilização pagã com a simples afirmação dos novos valores. Mas, a velha civilização resistia, principalmente nas almas. O contraste das duas culturas e almas só atingiu a maturação com Agostinho

Nascido na África (Tagaste, 354) e nutrido da melhor cultura pagã, com a problemática e as inquietudes que já a caracterizavam, ele foi a Milão e depois a Roma. Aqui, predisposto pela leitura dos neoplatônicos, principalmente de Plotino, foi convertido ao cristianismo e batizado pelo bispo Ambrósio (387).

Foi depois ordenado padre (391) e mais tarde tornou-se bispo de Hipona (395). A partir de então, sua vida é toda uma guerra para afirmar, contra a dispersão mundana e a carnalidade do paganismo e contra as heresias de seu tempo (maniqueísmo, donatismo, pelagianismo), a interioridade do homem e o magistério da Igreja católica.

Para ele esta interioridade se chamava alma e Deus, e somente a alma e Deus ele, de resto, havia procurado desde o início. Foi, então, um centauro, com um corpo meio pagão e meio cristão, e como tal o traçador da antiga civilização na nova. Das muitíssimas obras suas, as principais são consideradas as Confissões e A cidade de Deus. Na primeira se acentua sua conduta de base, a busca da verdade como confissão das vicissitudes pessoais que são, no entanto, desenvolvimentos de contrastes super-pessoais e descobertas dos tesouros de verdade, força, liberdade que só se encontram na interioridade e coincidem com Deus.

A segunda, escrita sobretudo contra a acusação dos pagãos que o cristianismo havia enfraquecido o império romano (em 410 houve o saque de Roma pelos godos de Alarico), é uma apaixonada defesa dos princípios do cristianismo.

Antes de Agostinho os principais conceitos teológicos já tinham sido adquiridos pela Igreja e ele não os modificou; mas, com ele de objetivos se tornaram subjetivos, isto é, se tornaram o problema personalíssimo e imprescindível do homem Agostinho.

Mas, somente o que se faz por si tem importância para os outros, e não o que se faz diretamente para os outros, diz Schopenhauer. Para o ardor e a profundidade de sua pesquisa, Agostinho, assim como permanece sendo um pilar da Igreja católica, é um filósofo cuja força e sugestão ainda perduram, porque é a grandeza dos problemas enfrentados e não a solução que lhes foi dada que perfaz o grande filósofo.