Anarquismo e antropologia: a conexão necessária de David Graeber

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02 Abril 2022

 

As contribuições do antropólogo norte-americano David Graeber estão marcadas por uma tentativa de iluminar a teoria social com as intuições colaborativas do anarquismo, mostrando como são corroboradas pelos dados da etnografia e a história. Sua morte em 2020 pôs fim a uma carreira acadêmica e ativista promissora e privou o movimento altermundialista de um de seus ideólogos mais lúcidos.



A reportagem é de Jesús Aller, publicada por Rebelión, 31-03-2022. A tradução é do Cepat.

 

Nascido em Nova York, em fevereiro de 1961, no seio de uma família de operários esquerdistas de origem judia, Graeber fez o seu doutorado em Chicago, em 1996, e depois lecionou em Yale até 2005. Em maio daquele ano, a não renovação de seu contrato gerou amplos protestos diante de um caso claro de repressão ideológica contra alguém que se destacava como líder nos movimentos sociais opostos à globalização neoliberal.

Nos anos seguintes, Graeber continuou com o seu ativismo e desenvolveu, por exemplo, um importante papel nas lutas do Occupy Wall Street, em 2011. Então, vetado nas universidades norte-americanas, desempenhou seu trabalho como pesquisador e docente em instituições britânicas até a sua morte, em setembro de 2020, ocorrida devido à pandemia de covid-19, enquanto estava de férias em Veneza.

A tese de doutorado de David Graeber se baseou em estudos de campo e ficou consolidada em obras como Lost People: Magic and the Legacy of Slavery in Madagascar [O povo perdido: magia e o legado da escravidão em Madagascar] (2007), na qual analisa a fundo a desastrosa cisão que caracteriza algumas sociedades da ilha.

Em outros de seus livros, no entanto, amplia a perspectiva para uma análise exaustiva de fontes prévias sobre história e antropologia, em nível global. Assim, em Toward an anthropological theory of value [Rumo a uma teoria antropológica do valor] (2002) e Debt: The First 5000 Years [Dívida: os primeiros 5.000 anos] (2011) repassa e reinterpreta a evolução da humanidade, apontando a irrupção dos mecanismos econômicos e ideológicos que geram desigualdade e potencializam a violência em nossa espécie.

Tais livros tiveram sua continuidade em The dawn of everything [A aurora de tudo], em colaboração com o arqueólogo David Wengrow, publicado postumamente, em 2021, onde se olha mais ainda para trás para analisar as sociedades de caçadores-coletores do Paleolítico. Na obra, conclui-se que nessas épocas pouco conhecidas existem evidências de complexas estruturas políticas muito mais abertas e descentralizadas do que pensamos e que, sem dúvida, ofereciam caminhos para além do autoritarismo que acabou se impondo. Discutido e aclamado, este trabalho é especialmente valioso como reivindicação de uma “história alternativa” que podemos opor ao determinismo dominante na historiografia.

Obras de Graeber que tiveram ampla repercussão são The utopia of rules: on technology, stupidity and the secret joys of bureaucracy [A utopia das regras: sobre tecnologia, estupidez e as alegrias secretas da burocracia] (2015) e Bullshit jobs: a theory [Trabalhos de merda: uma teoria] (2018), uma profunda análise da irrupção em nossas sociedades de formas de trabalhos completamente inúteis, associadas comumente a marcadores de status e que geram alienação e frustração naqueles que os realizam.

 

Bases antropológicas do anarquismo

 

Nessa passagem pelas principais contribuições de David Graeber, gostaria de me fixar em Fragmentos de uma antropologia anarquista (2004). Esta obra utiliza os dados da etnografia para mostrar a possibilidade real de alternativas à ditadura enlouquecida do capital, ao mesmo tempo em que debate estratégias para aboli-la.

O livro começa expondo um paradoxo. Em um momento como o atual, em que está havendo uma ascensão dos movimentos de auto-organização e democracia direta, característicos do anarquismo, é chamativa a ausência de uma atenção adequada à “teoria anarquista” nas universidades. Para Graeber, isso se relaciona com a ênfase do anarquismo, desde as suas origens, na práxis.

No entanto, é claro que uma certa teoria é imprescindível, e em sua opinião a antropologia tem muito a contribuir para formulá-la. Isso fica evidente quando pensamos que essa disciplina descreve inúmeras sociedades humanas igualitárias e autogeridas em todo o planeta, relíquias de um “anarquismo eterno” e, ao mesmo tempo, provas irrefutáveis de “outro mundo possível”.

Lembra-se, depois, de alguns dos pioneiros dessas ideias. Com seu Ensaio sobre a dádiva (1924), Marcel Mauss, pai da antropologia francesa, demonstrou que a busca de lucros que rege o mercado é ofensiva e moralmente inaceitável para muitos grupos de seres humanos. Dessa forma, revelou a plausibilidade de uma economia alternativa, não capitalista, de cooperativas e trocas livres. Outro antropólogo francês, Pierre Clastres, encontrou nos povos amazônicos que estudou uma rejeição moral às sofisticações do estado que incide no mesmo.

Partindo da diversidade de dados desses e outros autores, demonstra-se a viabilidade de formas sociais auto-organizadas, solidárias e de propriedade comunitária, ao mesmo tempo em que se justifica a organização da ação revolucionária, no momento presente, com critérios de democracia direta alheios ao “vanguardismo”. Quanto às vias de ação, reconhece-se que a impermeabilidade das dinâmicas estatais pode forçar a desenvolver estruturas à margem do sistema.

E quais objetivos concretos podem orientar a luta [?]. A verdade é que, sem recorrer a teorizações excessivas, slogans muito simples traçam perfeitamente o mundo que é necessário construir. Por exemplo, a rescisão da dívida odiosa dos países vítimas da pilhagem secular é uma meta bem fácil de pronunciar e carregada de sentido e potencial.

Na mesma linha, a abolição das patentes tecnológicas, a curto prazo, ou das restrições à livre circulação de pessoas por todo o planeta também seriam passos decisivos na direção certa. As experiências de auto-organização em lugares tão diversos como Chiapas, Argentina, Rojava e Madagascar mostraram, nos últimos tempos, a pujança de modelos sociais alternativos.

A obra termina buscando uma resposta ao motivo pelo qual, até o momento, os antropólogos ignoram majoritariamente as intuições emancipadoras de sua disciplina. Sem dúvida, o pensamento único dominante é o culpado pelo fato de que estruturas sociais harmoniosas e sugestivas sejam percebidas só como relíquias sem valor no presente.

Também não se deve esquecer o perigo de que os dados coletados nos estudos sejam utilizados sem perspectiva global, simplesmente para fortalecer a máquina identitária. Se isso acontece, a dinâmica pode não ser de progresso, mas de acirramento dos conflitos entre comunidades.

Fragmentos de uma antropologia anarquista é uma sólida tentativa de reivindicar o potencial de uma disciplina que nos mostra experiências de organização social enormemente atraentes. O ser humano é livre e seu problema essencial hoje é o caminho desastroso que vem escolhendo nos últimos séculos.

Nessa conjuntura, a antropologia tem a virtude de iluminar as diversas opções que temos para nos relacionar com o mundo e nossos semelhantes. Com esta obra, lúcida e inovadora, David Graeber manifestou as questões que marcariam toda a sua trajetória posterior.

 

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