"Santificai a Cristo, o Senhor, em vossos corações" para dar razão da nossa esperança

Foto: Vatican News

19 Março 2022

 

"São inúmeros os momentos da vida cotidiana de cada um de nós em que nos é exigido simplesmente esperar. 'A esperança', disse o fundador da Comunidade de Bose, 'é o que pode dar sentido à espera'. Juntamente com a confiança, a fé, argumenta, é a esperança que 'sempre acompanha e continua a ser a mais necessária em tempos de incerteza e dúvida, quando a nossa fé se enfraquece. Hoje a esperança parece ser a virtude mais difícil'".

 

O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestre em Filosofia pela Unisinos.

 

Em janeiro do ano passado, o monge italiano Enzo Bianchi publicou o artigo intitulado "A esperança, a virtude favorita de Deus", reproduzido na página eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Depois de nos comunicar algo fundamental no título, ele lançou a pergunta que cada cristão tem que responder a si mesmo: "Será que hoje a nossa evangelização é estéril precisamente porque falta esperança aos evangelizadores?" Será que de fato acreditamos e esperamos no Deus que professamos?

 

São inúmeros os momentos da vida cotidiana de cada um de nós em que nos é exigido simplesmente esperar. "A esperança", disse o fundador da Comunidade de Bose, "é o que pode dar sentido à espera". Juntamente com a confiança, a fé, esclarece, é a esperança que "sempre acompanha e continua a ser a mais necessária em tempos de incerteza e dúvida, quando a nossa fé se enfraquece. Hoje a esperança parece ser a virtude mais difícil e muitos nem sequer conseguem formular a pergunta fundamental: 'O que posso esperar?'”.

 

 

 

A reflexão de Enzo Bianchi nos conecta diretamente com o Evangelho deste domingo e as perguntas formuladas pelo jesuíta Adroaldo Palaoro em seu comentário, publicado na página eletrônica do IHU: "Temos perdido as raízes? Como conectar-nos com elas? Quais raízes nos alimentam? Onde estamos enraizados? Quais são as raízes que nutrem atualmente nossa vida? São as melhores?"

 

Palaoro usou uma imagem significativa para ilustrar nossa dificuldade de aderir a uma "radicalidade" enquanto nos distraímos com tudo que circula a nossa volta: "No emaranhado das imagens e sons perdemos a noção daquilo que é essencial e decisivo para a vida; vivemos na superfície dos acontecimentos e de nós mesmos; esvaziamos a consistência interior e fundamento sobre o qual se apoia a nossa própria vida".

 

 

 

Essa dificuldade, talvez, tenha uma conexão direta com o que foi dito pelo monge italiano no ano passado e diga algo a respeito das nossas fraquezas: "Não havendo capacidade de ouvir uma promessa, não conseguindo mais vislumbrar uma orientação, a esperança permanece confinada a um sentimento de sobrevivência". O que nos resta é sobreviver e não esperar. Citando Hilário de Poitiers, bispo e pai da Igreja do século IV, Bianchi nos interroga: "E os cristãos? Onde está a vossa esperança, cristãos?”

 

Ele recorda que quando o apóstolo Pedro dirigiu-se aos cristãos em diáspora entre os pagãos não pediu "ações ou estratégias especiais, mas apenas para estar 'sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês' (1Pd 3,15)". Essa foi uma das tantas perguntas que eu sentia como "o espinho na carne" enquanto me perdia na deliberação sobre qual seria minha própria decisão, por fim, em relação Àquele que me interpelava através da recomendação de São Pedro aos estrangeiros da Dispersão. Mas para dar razão da nossa fé e esperança, é preciso voltar ao início do que Pedro disse pouco antes de dar aquela recomendação aos que queriam se lançar na pregação e vivência cotidiana do Evangelho: "Santificai a Cristo, o Senhor, em vossos corações". (1Pd 3,15). É só cumprindo a primeira parte da orientação que é possível responder à segunda, ainda que não tenhamos respostas para as outras questões que os demais também não têm.

 

 

As palavras do monge não poderiam ser mais proféticas naquele ano em que humanidade estava desesperada e nem imaginava assistir a emergência de outra guerra cujos efeitos ainda não conseguimos calcular: "Certamente, é preciso se exercitar à esperança: plantada como uma semente na vida de cada um de nós, deve ser confirmada, exercitada empenhando também a própria vontade. Devemos decidir ter esperança, como Abraão que 'teve fé, esperando contra toda a esperança' (Rm 4,18)".

 

 

A esperança, aquela virtude que mais agrada a Deus, reitera Bianchi, "é a virtude dos pobres, dos viajantes e dos peregrinos, é a virtude que pede para ser vivida junto com os outros: só 'juntos', de fato, se pode ter esperança, e então tornamo-nos capazes de esperar por todos. Pensemos bem: preferimos sempre reclamar, refugiamo-nos nos vales da indiferença e do sonambulismo espiritual, contentamo-nos em sobreviver sem esperar mais nada, e assim a nossa vida encolhe, torna-se mísera, sem ímpeto nem paixões".

 

 

Para chegar à virtude da esperança, talvez antes tenhamos que pedir a graça da virtude da fortaleza - porque também nos foi dito que temos que pedir e pedir e pedir -, aquela que nos ajuda a empreender e a suportar as coisas difíceis porque "robustece a alma na busca do bem árduo, sem ser abalada pelo medo, nem mesmo pelo medo da morte", como explica Adolphe Tanquerey, sacerdote francês da Companhia dos Padres de São Sulpício, uma das tantas que surgiu com o propósito de renovação da Igreja e, consequentemente, dos seus membros. Essa virtude, sublinha, tem como objetivo "reprimir os sentimentos de temor, que tendem a paralisar os esforços para o bem e moderar a audácia, que, sem controle, facilmente se converte em temeridade".

 

 

Para encerrar, vale a pena meditar novamente as palavras de Charles Péguy, citadas pelo monge:

 

“'A virtude que prefiro, diz Deus, é a esperança. A fé não me surpreende... nem a caridade. Mas a esperança, diz Deus, é o que me surpreende: é precisamente a maior maravilha da minha graça'. Este é realmente um tempo para que nos empenhemos todos juntos a esperar".

 

Acrescentaria: enquanto nos exercitamos na virtude da esperança, “tornemo-nos Cristo!”, como exorta Paolo Gamberini, jesuíta italiano, professor de teologia e capelão da Universidade La Sapienza de Roma ao refletir sobre a guerra nesta semana - o que é impossível sem o “Kyrie, eleison”.

 

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