México. O “obradorismo”, um objeto espinhoso

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06 Setembro 2021

 

“Dado que o governo López Obrador não é apenas uma expectativa, mas também uma experiência, a tentativa de analisá-lo deve atender tanto à promessa eleitoral quanto aos resultados à metade de sua gestão. Este esforço está dando origem a uma bibliografia crescente, mais do registro da direita do que da esquerda, o que mostra a dramática mingua intelectual desta última. Isso aumenta a relevância do livro 'AMLO e a 4T. Uma radiografia para céticos' (Ed. Oceano, 2021), de Hernán Gómez Bruera, que tenta decifrar a natureza de um e de outro desde uma perspectiva otimista, sem abandonar a crítica”, escreve Carlos Illades, doutor em história pelo Colegio de México e professor da Universidade Autônoma de México, e membro da Academia Mexicana de Ciências e da Academia Mexicana de História, em artigo publicado por Nueva Sociedad e Jesuítas da América Latina, 30-08-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

O “obradorismo” desconcertou tanto a direita quanto a esquerda.

A direita pensava que o consenso entre os partidos da transição (o Partido Revolucionário Institucional – PRI, o Partido da Ação Nacional – PAN e o Partido da Revolução Democrática – PRD) seria suficiente para administrar a economia e ordenar a política, que a questão social ocupava um lugar subsidiário na agenda nacional e que, se cerrassem fileira, poderiam bloquear a porta do Palácio presidencial à irrupção plebeia. Desmentido o prognóstico por uma contundente votação a favor do candidato que bradou a oferta de “mudança verdadeira”, Andrés Manuel López Obrador, as explicações do fracasso eleitoral por parte do establishment intelectual foram pela negação, considerando um “acidente” ou atribuindo a um eleitorado confuso. A abordagem excluiu a revisão de suas premissas.

A autoproclamada Quarta Transformação é o foco da crítica procedente do flanco direito, que combina realismo, exagero, desmemória e também ataques insólitos. Apontar a precariedade do programa econômico da 4T enquadra-se no primeiro. Anunciar que as eleições intermédias poderiam ser as últimas na democracia inscreve-se no segundo. Afirmar que o presidente carece de mandato eleitoral para realizar a transformação que se propõe, depois de relevar as administrações de Carlos Salinas de Gortari e Felipe Calderón, com presidências muito mais frágeis e questionáveis em sua legitimidade, empreenderam ações de amplo calão – a primeira geração das reformas estruturais, a guerra contra o crime organizado, respectivamente – tangencia a desmemória. Denunciarem – aqueles que até ontem que pensavam que o mercado resolvia tudo – que López Obrador não é keynesiano, que pretende construir uma hegemonia, quando o establishment intelectual ajudou a cimentar outra, se adentra no insólito, porque é a direita desmascarando a postura de um governo que se diz de esquerda, quando, se a caracterização estiver certa, deveria regozijá-lo.

Contudo, para a esquerda também tem sido difícil encontrar o obradorismo nas suas tradições e posturas desalinhadas. Estas passam por se somar ao movimento com a expectativa de conduzi-lo na boa direção, aceitando qualquer decisão presidencial, por mais absurdas que sejam, pois seriam indispensáveis para a causa. Outros questionam a denominação de origem ao obradorismo como “de esquerda”, reservando-a exclusivamente para as opções anticapitalistas, negando com isso, talvez involuntariamente, o caráter de esquerda ao socialismo romântico e da própria social-democracia. E há os que o definem como um “populismo de esquerda”, o viés positivo do “populismo de direita”, obliterando os elementos compartilhados por ambos. Chamá-lo de progressista talvez seja a caracterização mais cômoda para abandonar as coordenadas esquerda/direita da política, com o benefício adicional de filiá-lo dentro de uma família de regimes latino-americanos do século XXI. Isso não é de nenhuma maneira óbice para destacar a tensão que há no obradorismo entre a questão social, o progressismo a respeito da política de direitos e a agência das classes subalternas, a qual complica caracterizá-lo como “esquerda”.

 

AMLO y la 4T: Una radiografía para escépticos”,
de Hernán Gómez Bruera.
Ed. Oceano, 2021

 

Dado que o governo López Obrador não é apenas uma expectativa, mas também uma experiência, a tentativa de analisá-lo deve atender tanto à promessa eleitoral quanto aos resultados à metade de sua gestão. Este esforço está dando origem a uma bibliografia crescente, mais do registro da direita do que da esquerda, o que mostra a dramática míngua intelectual desta última. Isso aumenta a relevância do livro “AMLO e a 4T. Uma radiografia para céticos” (Ed. Oceano, 2021), de Hernán Gómez Bruera, que tenta decifrar a natureza de um e de outro desde uma perspectiva otimista, sem abandonar a crítica.

O adversário do autor é a “velha comentocracia” refratária à Quarta Transformação, que ele busca refutar, nem sempre com sucesso, a cada página do livro. De explícita simpatia ao governo López Obrador, o volume ancora-se na convicção de que este representa uma ruptura necessária com o regime de privilégios baseado na ligação espúria do dinheiro com o poder político – modo de acumulação capitalista na formação neoliberal –,combatido pelas novas esquerdas europeias (Syriza na Grécia, Podemos na Espanha e França Insubmissa) e a onda progressista na América Latina, da qual o obradorismo seria um fruto tardio.

O excesso dessa acumulação pela corrupção, acrescentada à reconfiguração do mundo do trabalho no capitalismo desregulamentado, produziu uma massa de pobres e excluídos, simultaneamente punidos pelo mercado e desprotegidos pelo Estado. Eles, mais os marginalizados que saíram da velhice em sociedades radicalmente desiguais como o México, seriam objeto de um novo pacto social eclodido do poder federal que implicaria na recuperação do público pelo ente estatal. Referindo-se ao populismo, onde muitos comentaristas como Gómez Bruera colocam o obradorismo, o filósofo espanhol José María Villacañas o considera “uma resposta às dimensões muito problemáticas que a modernidade contém e à inevitável crise social que ela gera sob sua forma atual de globalização neoliberal”.

 

O livro “AMLO e a 4T” se conforma por três partes, dezesseis capítulos e um epílogo que dá conta da resposta do governo às fontes da crise aberta pela pandemia de covid-19. A primeira parte é dedicada ao partido, ao movimento e ao projeto. O partido nasceu como um movimento em torno do líder carismático, que se tornou uma poderosa máquina política desde sua participação inaugural na disputa eleitoral de 2015, mas não um partido coeso, com uma institucionalidade frouxa, enquanto López Obrador aprimorava sua estratégia política – diz Gómez Bruera – levando-o a identificar a corrupção como matriz dos problemas nacionais, ao desdobramento territorial em todo o país, à moderação discursiva – que agregou um segmento do eleitorado ausente em 2006 e 2012 –, bem como a uma aliança com todas as cores do espectro político (incluindo a direita conservadora representada pelo Partido Encontro Social) e uma parte do grande capital. O conservadorismo do candidato presidencial e a divisão da direita em duas opções políticas, enquanto a esquerda praticamente se agrupava em um único polo – pode-se acrescentar – alcançou o até então impensável: unir a maioria dos votos do atrasado Sul ao conservador Bajío e do Norte moderno, além de conquistar as classes médias urbanas, os mais jovens e as mulheres. A derrota do PRD e o desânimo do PRI também contribuíram para esta vitória.

O projeto é um ponto fraco da Quarta Transformação. “Uma das principais fragilidades do movimento sindical – aponta o autor – é não ter um programa ambicioso de redistribuição de riqueza e renda”, sem negar a conveniência de programas sociais e de reajustes anuais do salário mínimo acima da inflação.

A abolição das isenções fiscais para os consórcios mais poderosos também não pode ser subestimada, o que levou a um aumento marginal da receita em meio à pandemia. Mas isso está longe de constituir uma reforma fiscal de fato, uma vez que uma política social sustentável de longo prazo, com serviços e transferências diretas suficientes para reduzir a desigualdade social radical, exigiria uma reforma fiscal progressiva que taxaria as grandes fortunas e o primeiro decil da população, o que o presidente não parece disposto a fazer.

Da mesma forma, com um orçamento reduzido, o governo sacrificou atividades prioritárias em diferentes áreas (saúde, prevenção de desastres, ciência e cultura) para financiar megaprojetos concentrados principalmente no sudeste do país. Nesse sentido, a Quarta Transformação carece de inteligência de esquerda capaz de conceber um projeto de nação alternativo e conceitualmente sólido, diferente do desenvolvimentista, ademais da exiguidade de seus quadros governamentais habilitados profissionalmente para executá-lo.

 

AMLO e a 4T” dedica várias páginas à relação do obradorismo com os grupos organizados e os novos movimentos sociais, tema trabalhado no capítulo final do livro. O autor destaca a ambiguidade desta relação e evita generalizá-la. Não obstante, admite o desencontro presidencial com o feminismo e aponta como indispensável a convergência da Quarta Transformação com os movimentos sociais a fim de orientá-la para a esquerda.

Eu concordo com sua apreciação. Mas por que isso aconteceu? As razões são múltiplas: as alianças políticas da 4T para formar maiorias inclinam-se fundamentalmente para a direita; a construção discursiva do povo como entidade homogênea ignora sua pluralidade intrínseca (uma das causas do conflito com as classes médias), além da inexistência de um projeto emancipatório que se responsabilize pela autonomia dos agregados sociais. O livro aponta acertadamente que os progressismos latino-americanos mais cedo ou mais tarde entraram em conflito com as classes médias, de modo que não faria mal considerar as lamentáveis consequências que isso teve no Brasil e na Bolívia, para citar apenas dois exemplos.

O “populismo de baixa intensidade” da Quarta Transformação entra em cena na segunda e na terceira partes do livro. Como outros autores, Gómez Bruera indica que a racionalidade política do novo governo passa pela recuperação da gestão estatal confiscada por agentes privados. Em sintonia com o desprezo pelos movimentos sociais independentes, há a animosidade obradorista em relação à sociedade civil estruturada em torno de interesses econômicos e com apelo às receitas públicas. O remédio tem sido um presidencialismo reforçado, pressão aos demais poderes da República e disputa constante com a imprensa; o mesmo não ocorre com os meios eletrônicos privados, possivelmente em decorrência de um acordo tácito ou em troca de favorecimento das concessionárias por meio de alocações públicas.

Com Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, “AMLO e a 4T” se opõem ao discurso liberal, que concebe a política como um instrumento de consenso, de tipo populista, que verbaliza o conflito. A questão que se coloca aqui é quem são os beneficiários do novo status quo. Concordo com o autor que não estamos à beira da ditadura – aliás, nem os outros governos da transição nem o atual enterraram o regime da Revolução Mexicana com seu gene autoritário – mas não acho que devamos deixar de lado como o regime está sendo reconfigurado. A centralização política enfraquece os contrapesos indispensáveis da democracia representativa (Steven Levitsky e Daniel Ziblatt) sem favorecer uma democracia popular autêntica (Boaventura de Sousa), nem redistribui poderes capilarmente na sociedade. Como adverte Pierre Rosanvallon, um dos melhores historiadores da democracia, se a democracia liberal é suscetível de se tornar plutocracia (ponto de partida bem apontado por Gómez Bruera), o populismo pode se transformar em democracia (Rosanvallon) ou democracia autoritária (do acordo com Federico Finchelstein).

Não há dúvida de que o governo de Felipe Calderón comprometeu o país a uma guerra sem sentido e invencível e, contra o seu prognóstico, multiplicou e dispersou a violência a ponto de se unir ao corpo social. No entanto, no terceiro ano do governo López Obrador, também está claro que sua estratégia de segurança também não funcionou e a espiral de violência está crescendo. Os cartéis criminosos controlam parcelas significativas do território nacional, aplicam um sistema tributário paralelo ao do Estado, disputando também o monopólio da violência. E, como mostram as eleições recentes, o crime organizado está cada vez mais envolvido nelas. É mais do que um giro retórico afirmar que isso compromete a soberania nacional e a democracia nascente. Também não se pode negar que o fortalecimento de um braço armado que nunca foi purificado dos excessos da guerra suja, como consequência desta guerra irregular, reduz o poder civil no interior do Estado, constituindo também uma ameaça à democracia. Descartar o termo “militarização” infelizmente não diminui o tamanho do problema.

Ao final de “AMLO e a 4T”, enuncia-se a dívida do obradorismo e o desafio que a pandemia de covid-19 representa para este projeto. A primeira, tínhamos avançado, é a falta de diálogo do governo com os movimentos sociais emergentes e a ausência de uma dialética entre a mobilização popular para alcançar suas demandas e o líder que as viabiliza. O desafio da pandemia é múltiplo porque vai além do campo da saúde e impacta a economia, a educação e os índices de pobreza. Além da catástrofe em termos de vidas humanas e da indispensável avaliação da gestão governamental da contingência sanitária que em algum momento será realizada, a pandemia consumiu grande parte das conquistas sociais da administração obradorista e deixará um maior volume de pessoas pobres do que no início. Dessa forma, o desafio do próximo governo será semelhante a este. Gostaria de acreditar que a esquerda pós-obradorista será mais lúcida e plural, que concilia o saber com a vontade de transformar e a solução da questão social com a maior liberdade de todos e de cada um.

 

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