EUA. Bispos não devem transformar as vacinas em uma guerra cultural

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16 Agosto 2021

 

Embora o ensino da Igreja defenda que os indivíduos em geral devem ser livres para aceitar ou recusar intervenções médicas de acordo com as suas consciências, uma consciência católica devidamente formada e informada não recusaria as vacinas.

A opinião é de Sam Sawyer, SJ, editor sênior e diretor de estratégia digital da America Media, em artigo publicado em America, 11-08-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

À medida que cada vez mais mandatos de vacinação são lançados – por parte de empresas, universidades, cidades e, em breve, as Forças Armadas dos Estados Unidos, entre outras entidades – os debates sobre as isenções religiosas a tais mandatos também estão esquentando.

E, nas últimas duas semanas, alguns bispos católicos tomaram posições diametralmente opostas sobre se a Igreja deve endossar os pedidos de isenção. Infelizmente, essas diferenças, assim como a confusão anterior causada pelas declarações dos bispos em março sobre as vacinas, parecem ser influenciadas mais pela “guerra cultural” do que pela tradição católica em relação ao bem comum.

Na Arquidiocese de Nova York, foram enviadas instruções aos padres no dia 30 de julho para que eles se recusem a assinar cartas atestando objeções religiosas à vacinação para os católicos que as solicitem. O memorando ressaltou que tanto o Papa Francisco quanto o cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova York, confirmaram que as vacinas contra a Covid-19 disponíveis são moralmente aceitáveis e descreveu a vacinação como uma responsabilidade moral.

“Não há nenhum fundamento para que um padre emita uma isenção religiosa para a vacina”, disse o documento. “Ao fazer isso, ele está agindo em contradição com as diretrizes do papa e participando de um ato que pode ter graves consequências para os outros.”

Essas diferenças, assim como a confusão anterior causada pelas declarações dos bispos católicos sobre as vacinas em março, parecem ser explicadas por alguns bispos que preferiram a “guerra cultural” ao bem comum.

 

Isenção religiosa

Mas, no Colorado, os quatro bispos católicos do Estado emitiram uma carta conjunta em que disseram estar satisfeitos em ver que o recente mandato de vacinação de Denver incluía uma isenção religiosa. Eles descreveram o uso de “algumas” vacinas contra a Covid-19 como “moralmente aceitáveis sob certas circunstâncias”. Depois de prometer vigilância “quando qualquer burocracia procura impor requisitos uniformes e abrangentes (...) em áreas da consciência pessoal”, eles explicam o ensino católico sobre o direito em consciência de recusar uma intervenção médica.

A declaração dos bispos concluía indicando um link para um modelo de carta para os católicos usarem e para seus párocos assinarem, para se isentarem de um mandato de vacinação contra a Covid-19 por motivos religiosos.

Cinco meses atrás, vários bispos e dioceses estadunidenses viraram manchete quando advertiram que a vacina da Johnson & Johnson era moralmente problemática em comparação com as vacinas da Pfizer e da Moderna, por causa de uma conexão material quase remota com linhagens celulares de fetos abortados.

O Vaticano, entretanto, já havia declarado claramente que todas as três vacinas eram moralmente aceitáveis para os católicos. Eu escrevi sobre a polêmica à época, argumentando que as objeções às vacinas estavam “mais focadas no aborto como um front da guerra cultural do que no bem comum durante a pandemia”.

É desanimador ver como uma boa parte daquele artigo de março ainda continua atual hoje como uma análise da declaração dos bispos do Colorado. A principal diferença é que a declaração do Colorado, em vez de tentar estabelecer um ranking moral das vacinas, visa a construir um “espaço seguro” católico para o ceticismo vacinal e a recusa da vacina.

Infelizmente, esse espaço se baseia em uma leitura incompleta da tradição moral católica sobre a consciência formada e em uma falta de compromisso com a tradição moral católica sobre o bem comum.

A declaração do Colorado e o modelo de carta provavelmente contribuirão para a desinformação sobre a vacina entre os católicos, como ressaltou Matthew Schneider, LC, por meio de uma linguagem enganosa e de citações seletivas da orientação vaticana, que sugerem que as conexões muito remotas das vacinas com o aborto são uma causa de preocupação maior do que a Igreja realmente diz que são. (o Pe. Schneider também ressalta que a declaração dos bispos do Colorado falha ao distinguir entre um mandato de vacinação universal e mandatos mais específicos, como para empregados de uma organização ou para trabalhadores que terão contato extensivo com o público, incluindo indivíduos vulneráveis em instalações médicas).

 

O bem comum como princípio

Mas, mesmo que a declaração fosse mais cautelosa para proteger contra a desinformação sobre as vacinas, mesmo assim ela acabaria enganando os católicos dada a sua ênfase seletiva no ensino moral católico. Dito de forma mais simples, embora o ensino da Igreja defenda que os indivíduos em geral devem ser livres para aceitar ou recusar intervenções médicas de acordo com as suas consciências, uma consciência católica devidamente formada e informada em geral não recusaria essas vacinas.

Tais objeções, diante das repetidas garantias por parte da Igreja de que essas vacinas são moralmente aceitáveis, são mais bem descritas, como defendeu o especialista em ética da saúde Jason T. Eberl, como uma manifestação de escrupulosidade em vez de uma consciência formada.

E, especialmente no meio de uma pandemia que, alimentada agora pela variante Delta, está novamente saindo do controle, uma consciência católica devidamente formada deveria – como disseram o Papa Francisco e muitos bispos – encorajar a vacinação como a melhor forma disponível para proteger não apenas a nós mesmos, mas também a outros, incluindo os mais vulneráveis.

Essa não é uma aplicação esotérica da doutrina católica. Esse tipo de atenção ao bem comum é um princípio fundamental da tradição moral católica e é destacado nas mesmas fontes que os bispos do Colorado citam para defender seu argumento a favor das isenções religiosas.

Eles oferecem “pontos relevantes para essa decisão pessoal”, dos quais o primeiro diz que “a vacinação não é moralmente obrigatória e, portanto, deve ser voluntária”. Isso é tirado da orientação da Congregação para a Doutrina da Fé emitida em dezembro de 2020 [disponível aqui], que afirma que, “em geral, a vacinação não é uma obrigação moral e, por conseguinte, deve ser voluntária”.

Infelizmente, a carta dos bispos do Colorado não se envolve com o restante desse parágrafo do documento da Congregação, que diz na íntegra o seguinte:

“Ao mesmo tempo, para a razão prática parece evidente que, em geral, a vacinação não é uma obrigação moral e, por conseguinte, deve ser voluntária. De qualquer maneira, do ponto de vista ético, a moralidade da vacinação depende não só do dever de tutela da própria saúde, mas também do dever da busca do bem comum. Um bem que, na ausência de outros meios para impedir ou apenas para prevenir a epidemia, pode recomendar a vacinação, especialmente para a salvaguarda dos mais frágeis e expostos. No entanto, quantos por motivos de consciência rejeitam as vacinas produzidas com linhas celulares derivadas de fetos abortados, devem esforçar-se para evitar, com outros meios profiláticos e comportamentos idôneos, de se tornar veículos de transmissão do agente contagioso. Em particular, devem evitar qualquer risco para a saúde daqueles que não podem ser vacinados por motivos clínicos, ou de outra natureza, e que são as pessoas mais vulneráveis.”

As expressões “bem comum”, “mais frágeis e expostos” e “mais vulneráveis” – ou qualquer outra semelhante – não se encontram na carta dos bispos. Nada na carta sugere que uma pessoa que recusa a vacinação tenha que pensar sobre o risco de outra pessoa ou fazer qualquer coisa para mitigá-lo.

 

A consciência e suas distorções

A carta dos bispos do Colorado não deturpou nenhum ensinamento católico; o que ela diz sobre o ensino católico sobre o direito de consciência de recusar intervenções médicas, e de que essa decisão requer julgamentos específicos sobre o benefício em relação ao ônus, é verdade. E os bispos se envolveram apoiando e recomendando a vacinação, como explicou Dom Stephen Berg, de Pueblo, em uma entrevista ao Crux.

Mas, infelizmente, esse apoio não é enfatizado na carta que eles emitiram. Ao invés disso, ela representa uma espécie de visão de túnel, hiperfocada em evitar uma cooperação material extremamente remota com o aborto acima de qualquer outro bem.

Uma noção de consciência essencialmente individualista e libertária é validada por uma aplicação seletiva da tradição católica, enquanto tudo o que a tradição tem a dizer sobre as obrigações para com outras pessoas e o bem comum é ignorado ou obscurecido.

Nenhuma consciência pode ser devidamente formada ou informada por tais distorções. E a retórica que fomenta essas distorções serve apenas para fornecer munição extra para aqueles que estão ansiosos para usar os mandatos de vacinação como o mais recente front da guerra cultural.

Graças a Deus, o Papa Francisco, a Congregação para a Doutrina da Fé, outros escritórios vaticanos e a maioria dos bispos ofereceram uma abordagem mais clara.

Deixem-me sugerir uma regra de ouro para a leitura de notícias futuras sobre este assunto: se você não conseguir encontrar a expressão “bem comum” em nenhuma discussão sobre o catolicismo e a moralidade da vacinação, então você não está recebendo a plenitude da tradição católica – e alguém pode estar tentando, em vez disso, recrutá-lo para a guerra cultural.

 

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