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13 Agosto 2021

 

O projeto de Pequim: estender o corredor China-Paquistão ao Afeganistão. Adeus aos EUA.

A reportagem é de Marco Lupis, publicada por Huffington Post, 12-08-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Em novembro de 1982, o então presidente chinês Deng Xiaoping disse: “Os problemas no Afeganistão são de importância estratégica global. China e Afeganistão têm uma fronteira comum. Portanto, o Afeganistão representa uma ameaça que poderia cercar a China, inclusive geograficamente”.

Certamente, a situação de ambos os países - e sobretudo a da nova superpotência chinesa - mudou radicalmente desde os dias do grande reformista Deng, mas não o interesse e a extrema atenção pela área afegã, e pelo que está acontecendo no que é agora conhecida como "A Terra dos Barbudos": os Talibãs. A ofensiva massiva das últimas horas, que viu o grupo extremista islâmico reconquistar pedaço por pedaço, território após território, cidade após cidade, grandes partes do Afeganistão, trouxe de volta ao topo da agenda o papel de Pequim nos equilíbrios geopolíticos da Ásia Central, uma parte do mundo sobre a qual a China sempre tentou estender seu controle. E nunca escondeu suas ambições a esse respeito.

 

 

Na realidade, a fronteira que a China divide com o Afeganistão é a mais curta das fronteiras que o país - agora novamente nas mãos dos Talibãs - compartilha com 5 outros vizinhos: Irã, Paquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão. No entanto, esta curta fronteira de apenas 90 quilômetros (Corredor Wakhan), que é difícil de atravessar devido às condições do terreno, pode ser a primeira região onde a nova onda de radicalização se concretizará. Os Talibãs, que controlava cerca de dois terços do país após a retirada dos EUA, agora alcançaram a fronteira montanhosa com a China, dominando a província de Badakhshan.

 

Mapa da fronteira do Afeganistão com a China (Foto: Wikipédia)

 

As negociações entre o governo afegão e as equipes de negociação talibãs, que começaram em setembro passado, fizeram pouco progresso além do que a mídia anunciou como uma "virada" em dezembro de 2020, estabelecendo regras e procedimentos. Desde então, embora as partes tenham se reunido várias vezes, nenhuma agenda mútua foi acordada e os talibãs continuaram a acumular sucessos militares. No final de julho, representantes do governo afegão e dos Talibãs voltaram a se reunir em Doha, mas mais uma vez não conseguiram fazer progressos.

Mas o fracasso das negociações de Doha ficou em segundo plano em relação à atividade frenética do negociador-chefe dos Talibãs, o mulá Abdul Ghani Baradar, que recentemente se encontrou com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, em Tianjin. O encontro de Baradar com Wang aconteceu apenas dois dias após a visita da vice-secretária de Estado dos EUA, Wendy Sherman, à mesma cidade, para o que acabou sendo mais uma conversa inconclusiva. E o Ministério das Relações Exteriores chinês declarou imediatamente que "A retirada precipitada das tropas dos EUA e da OTAN do Afeganistão na verdade marca o fracasso da política dos EUA em relação a esse país". O chefe da diplomacia de Pequim, Wang, enfatizou que "os Talibãs afegãos são uma importante força militar e política no Afeganistão e prevê-se que irão desempenhar um papel importante no processo de paz, reconciliação e reconstrução do país". Por sua vez, o mulá Baradar teria assegurado à China que os Talibãs afegãos "nunca permitiriam que nenhuma força usasse o território afegão para realizar atos prejudiciais à China". Todos seriam elementos para um novo "idílio" entre Pequim e os ferozes extremistas Barbudos, mas será efetivamente isso?

Na verdade, a China está tentando encontrar uma forma de prevenir a instabilidade ambiental e a ameaça terrorista que poderia se espalhar por seu território através do Afeganistão: uma aspiração que muitos cultivaram, mas que Pequim certamente não gostaria de implementar por meio de uma ação militar, bem ciente que todos os atores que intervieram militarmente até agora no Afeganistão falharam, permitindo ao país ganhar a reputação de "cemitério de impérios".

O governo de Pequim deseja melhorar a economia e a prosperidade da região desenvolvendo relações comerciais com o País dos Barbudos e lançando projetos de infraestrutura. Desta forma, ao mesmo tempo que aumenta a sua influência, a China evitará os riscos de uma operação militar. De fato, o interesse do Dragão - como já acontece há tempo em qualquer contexto e cenário internacional - é puramente econômico. Pequim quer criar algo semelhante ao Corredor Econômico China-Paquistão no Afeganistão, ou pelo menos estender esse corredor até Cabul, de forma a garantir seus relevantes interesses no país – em constante aumento com o desenvolvimento de projetos importantes - e garantir a segurança de uma esperada "etapa afegã" da travessia leste-oeste útil para o desenvolvimento do grande projeto da Nova Rota da Seda. Consequentemente, a estabilidade do Afeganistão aos olhos da China é a principal chave para o sucesso dos projetos de infraestrutura de energia e transporte nas regiões econômicas da Ásia central e meridional. Por esse motivo, as autoridades chinesas recentemente emitiram declarações importantes, que mostram sua disposição de estender o corredor econômico China-Paquistão ao Afeganistão justamente como parte da Belt and Road Initiative.

 

Mapa do Afeganistão e países de fronteira. (Foto: Britannica)

 

Pequim planeja investir no Afeganistão em muitos setores, especialmente nos recursos subterrâneos e no potencial hidrelétrico, e em suas declarações, o porta-voz dos Talibãs, Süheyl Shahin, afirmou sem rodeios que os Talibãs receberiam favoravelmente o investimento da China no Afeganistão, sugerindo assim a possibilidade concreta de uma aproximação significativa entre China e Talibã nessa área.

Com sua Belt and Road Initiative (BRI), portanto, a China está pronta para entrar com exclusividade no Afeganistão pós-EUA. De acordo com os relatórios de inteligência mais confiáveis, as autoridades de Cabul estão intensificando seu empenho com a China para a extensão do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) no valor de US $ 62 bilhões, o projeto de ponta da BRI. O projeto prevê a construção de rodovias, ferrovias e tubulações de energia entre o Paquistão e a China, até o Afeganistão. Em particular, estaria sendo discutida a construção de uma estrada principal apoiada pela China entre o Afeganistão e a cidade do noroeste do Paquistão, Peshawar, que já está conectada à rota CPEC: Conectar Cabul a Peshawar por rodovia significaria, de fato, a adesão formal do Afeganistão ao CPEC.

A China pretende conectar a Ásia com a África e a Europa por meio de redes terrestres e marítimas que cobrem 60 países como parte de sua estratégia BRI. A estratégia não apenas promoveria a conectividade inter-regional, mas também aumentaria a influência global da China ao custo estratosférico - mas perfeitamente administrável pela gigantesca economia chinesa - de US $ 4 trilhões. Devido à sua localização, o Afeganistão pode fornecer à China uma base estratégica para difundir a sua influência pelo mundo, situado como é em uma posição ideal para servir como hub comercial ligando o Oriente Médio, a Ásia Central e a Europa.

É claro que, para realizar seus ambiciosos planos econômicos, Pequim precisa de paz e estabilidade na região, e em particular no Afeganistão.

Evidentemente, porém, no jogo afegão, Pequim também tem outra ambição menos "materialista": quer demonstrar que sua ideologia e suas políticas podem trazer estabilidade até mesmo nas geografias mais desafiadoras do mundo, desenvolvendo economicamente e tornando estável o Afeganistão, exatamente onde os estados ocidentais, especialmente os EUA, falharam completamente. Em suma, a situação afegã seria uma peça de importância primária na vasta estratégia de soft power do Dragão.

Xi Jinping declarou essa estratégia desde 2014 quando, participando da "Conference on Cooperation and Confidence-Building Measures in Asia", disse: "Os problemas da Ásia devem ser resolvidos pelos asiáticos em última instância e a segurança da Ásia deveria ser garantida pelos asiáticos".

E os EUA, ficarão apenas assistindo?

 

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